quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Discos para história: Assim Sou Eu..., de Odair José (1972)


Primeiro disco do cantor na Polydor foi início de melhor período da carreira

História do disco

Odair José tinha uma vida bem confortável em Goiás, mas largou tudo para tentar a vida como cantor no Rio de Janeiro no final da década de 1960, quando tinha apenas 18 anos – ele chegou a dormir na rua e ficou um ano sem dar notícia aos pais. Tudo para tentar uma audição em uma grande gravadora. Para sobreviver, tocava em inferninhos. Lá, aprendeu a agradar ao público. De Ataulfo Alves (1909-1969) a Roberto Carlos, era necessário agradar todo tipo de cliente.

De tanto ficar no pé de gente que saía de gravadoras ao longo de vários dias, finalmente conseguiu chamar a atenção de alguém. Era Rossini Pinto (1937-1985) que, além de cantor, também era produtor na gravadora CBS. Era 1970, pouco mais de dois anos após a chegada no Rio de Janeiro, finalmente surgia uma oportunidade. A primeira música gravada foi “Minhas Coisas”.

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Mas a relação entre ele e a gravadora nunca foi 100% boa. Odair José tinha um estilo muito próprio para compor suas músicas, quase um Bob Dylan contando as histórias da parcela pobre, oprimida e “desaparecida” da sociedade. Foram dois discos cheios que venderam bem, porém sem realmente atingir o potencial esperado pela gravadora, que insistia em fazê-lo sem uma espécie de sub-Roberto Carlos. Isso, claro, não agradava em nada ao cantor. Então rolou um ultimato da CBS: ou vai, ou racha. Foi aí que veio o trunfo chamado “Eu Vou Tirar Você Desse Lugar”.

Bem irritado com a postura da gravadora em não promover o novo trabalho, Odair José foi convencido por Paulo César, que viria a ser empresário de Evaldo Braga, a rodar pelo Nordeste para divulgar o disco. Uma coisa que o cantor sempre acreditou foi na força do trabalho e no empenho em conseguir as coisas. E assim foi. Dois meses depois, um funcionário esbaforido da CBS consegue encontrá-lo em Ilhéus, na Bahia, para dar a notícia: “Volta pro Rio correndo, tua música tá em primeiro lugar!”. E não só isso. O disco também estava na primeira posição. E foi aí que ele saiu da CBS.

O compacto foi lançado justamente perto do final do contrato, então Odair estava por cima. E o que a gravadora fez? Chegou nele com um disco pronto e, como em todas as outras vezes, indicou a banda de Roberto Carlos para ajudá-lo. O cantor recusou, mesmo após sofrer uma ameaça de Evandro Ribeiro, presidente da CBS, em “deixar o contrato na gaveta”. Ribeiro não lembrava de uma coisa muito o importante: o contrato estava chegando ao fim. Logo que o compromisso acabou, Odair José assinou com a Polydor, braço popular da Phillips.

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Na nova casa, Odair José pôde montar a banda que sempre quis, além de gravar o material que sempre desejou. "Queria que as minhas canções tivessem aquela sonoridade [de Neil Diamond, Crosby Stills & Nash, Cat Stevens e Neil Young]. Até mesmo porque eu não tinha aquela formação musical deles. Claro que eu não virei o Cat Stevens, mas pelo menos saiu daquilo de sempre", contou o cantor ao site 'Trabalho Sujo', em entrevista publicada em 10 de dezembro de 2010.

A chegada de Odair José Polydor veio acompanhada de Tim Maia e Evaldo Braga. Eles estavam entre os artistas que mais vendiam no Brasil, mas não era só isso que atraia o público. As letras sobre sexo, adultério, vida cotidiana e pessoas “malditas” – prostitutas, cafetões e outros trabalhadores da noite – ganharam voz através do cantor. Claro, que isso não era bem visto entre as camadas mais conservadoras da sociedade, mas não o impediu de entregar o trabalho que sonhava fazer.

Lançado em 1972, “Assim Sou Eu...” dava o primeiro passo em uma sequência de quatro discos de sucesso – “Odair José” (1973), “Lembranças” (1974) e “Odair” (1975) foram os seguintes. Considerado brega por muitos daquela época, e até hoje por outros, Odair José tinha outras referências e mostrava que a música popular podia ser rica em arranjos para contar histórias do cotidiano.


Resenha de “Assim Sou Eu...”

Dá para ouvir como essa fase de Odair José queria fazer algo mais caprichado e sair do escopo da Jovem Guarda e trabalhos semelhantes. "Esta Noite Você Vai Ter que Ser Minha" abre o disco e, como característica dos trabalhos do cantor, contava a história sobre o encontro com uma mulher. Determinada parcela da sociedade achou um absurdo, mas não o povão. Acabou sendo o grande sucesso do disco, mostrando que dava para fazer algo popular e caprichado.

Em "Você Chegou pra me Fazer Sorrir", o cantor fala com muita naturalidade sobre valorizar o sorriso e traços de personalidade da mulher, que o incentiva a “continuar a viver”, “trazer aquilo que perdi” para “jogar a tristeza fora”, e a seguinte – "Deixa o Tempo Correr" – traz o término como tema em uma letra melancólica. E "Três Pontinhos Mais..." é aquela recordação de ouvir a voz e sentir que ainda ama a pessoa.



O arranjo de "Mande nem que Seja um Telegrama" consegue ajudar a deixar o clima ainda mais triste de uma letra melancólica sobre esperar um telegrama da amada e de ficar dias e dias nessa agonia ("Penso em você o dia inteiro/ Sentindo solidão/ Eu fico no portão/ Esperando o carteiro"). Mantendo o teor, "Com o Passar do Tempo" mostra um caminho diferente das anteriores ao tentar evitar o relacionamento a todo custo, mas isso é em vão.

Uma das melhores canções da carreira de Odair José, "Eu Queria Ser John Lennon" usa de metáforas – querer ser John Lennon, espelho e coisas intocáveis – para ser notado pela pessoa amada de alguma forma. A letra é simplesmente genial, e "Vida que Não Para" tem no refrão seu grande trunfo em uma faixa bem agitada contra os costumes vigentes na sociedade do início dos anos 1970. Um dos temas que o cantor toca é o divórcio, que apareceu em "Pense pelo Menos em Nossos Filhos". A letra questiona a mulher que deseja a separação, mas o cantor pede para ela pensar nos filhos e argumenta que “ainda existe amor” e “a gente ainda pode ser feliz”.



"Vai Ser Difícil Você Viver Assim" é a perspectiva de ver a amada com outro, enquanto ele lamenta e até torce pelo fim para falar o famoso: “eu avisei”. A seguinte, "Seria Muito Bom Fazer Você Voltar", tem o lamento “minha vida não seria nada sem você” e uma bela parte instrumental. E a faixa-título fecha o LP ao arrematar todas as experiências passadas e perceber que tudo vale como experiência de vida.

Odair José não considera esse disco um dos melhores de sua carreira. E pode até ser, mas foi esse trabalho que abriu as portas em definitivo para ele na música brasileira. Depois de um grande sucesso, ele apresentou um trabalho consistente, com boas letras e ótimos arranjos. Era claro que a boa fase do cantor nas paradas estava apenas começando.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Esta Noite Você Vai Ter que Ser Minha" (4:14) (J. Pereira Jr./ Pisca)
2 - "Você Chegou pra me Fazer Sorrir" (3:19) (Odair José/ Jorge Paiva)
3 - "Deixa o Tempo Correr" (2:43) (Odair José/ Jorge Paiva)
4 - "Três Pontinhos Mais..." (3:56) (Odair José/ Jorge Paiva)
5 - "Mande nem que Seja um Telegrama" (2:55) (Odair José/ Arnoldo Silva)
6 - "Com o Passar do Tempo" (3:40) (Odair José/ Jorge Paiva)
7 - "Eu Queria Ser John Lennon" (2:38) (Odair José/ J. Pereira Jr.)
8 - "Vida que Não Para" (2:53) (Odair José/ Silva Santos)
9 - "Pense pelo Menos em Nossos Filhos" (3:28) (Odair José/ Paulo Sette)
10 - "Vai Ser Difícil Você Viver Assim" (3:02) (Odair José)
11 - "Seria Muito Bom Fazer Você Voltar" (2:53) (Odair José/ Jorge Paiva)
12 - "Assim Sou Eu..." (2:49) (Odair José/ David Lima)

Gravadora: Polydor
Produção: Jairo Pires e Guti
Duração: 38 minutos

Odair José: vocal, violão e guitarra
Waltel Branco: arranjos
José Roberto Bertrami: piano
Alex Malheiros: baixo
Ivan “Mamão” Conti: bateria
Luiz Cláudio Ramos: violão
Hyldon: guitarra



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