quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Discos para história: Ney Matogrosso, de Ney Matogrosso (1981)


Trabalho consolidou o cantor como um dos astros da música brasileira

História do disco

Ney Matogrosso, nome de Ney de Souza Pereira e nascido no Mato Grosso, é um dos artistas mais inquietos da música brasileira. Sem se prender a qualquer rótulo, por mais que o tenham rotulado aos montes em quase 50 anos de carreira, ele segue fazendo sua música, cantando seus sucessos e sendo idolatrado por milhares de pessoas que pagam para ver suas intensas apresentações.

Ainda garoto, optou pela aeronáutica – serviu por dois anos – para sair das garras do pai. E lá descobriu a sexualidade que seria parte fundamental de suas apresentações até hoje. E também morou em Recife, em São Paulo até fixar base no Rio de Janeiro para nunca mais deixar a cidade. Mas, antes de ser cantor, ele queria ser ator. Para financiar os estudos, começou a vender peças de artesanato ao melhor estilo hippie.

Mais discos dos anos 1980:
Discos para história: Psicoacústica, do Ira! (1988)
Discos para história: The Sensual World, de Kate Bush (1989)
Discos para história: Strangeways, Here We Come, dos Smiths (1987)
Discos para história: Educação Sentimental, do Kid Abelha e Os Abóboras Selvagens (1985)
Discos para história: From Her to Eternity, de Nick Cave and The Bad Seeds (1984)
Discos para história: Voo de Coração, de Ritchie (1983)
Discos para história: Appetite for Destruction, do Guns N' Roses (1987)


Entre viagens para São Paulo e Brasília, ficou amigo da cantora e compositor Luli e, através dela, conheceu João Ricardo. Ele procurava um cantor para fazer parte de uma banda e Ney topou. Mudou-se para São Paulo em definitivo e adotou o sobrenome artístico Matogrosso – usando um clichê: morria o homem, nascia a lenda.

“Trabalhava com a Luli no quintal dela. Tinha chegado no Rio em 1970. Estava trabalhando em Brasília e pedi uma licença sem remuneração. Queria viver o mundo. E aí fiquei dois anos. Voltei, trabalhei mais dois anos e pedi outra licença. Voltei só para pedir demissão. Disseram que eu estava louco, que eu não pensava no futuro, na minha aposentadoria. Voltei direto para o ensaio do Secos & Molhados”, contou o cantor na edição 87 revista ‘Rolling Stone’.

O Secos & Molhados seria um sucesso estrondoso e o primeiro disco do grupo é considerado até hoje um clássico da música brasileira (clique aqui e conheça a história do trabalho). Desavenças levaram a formação original a se separar, mas Ney Matogrosso havia conquistado um público para si. A partir desse período, à custa de muito trabalho, ele foi reconhecido como um verdadeiro artista ao ampliar seu repertório. Em 1976, o disco “Bandido” o consagrou de vez. Nisso tudo, os shows estavam cada vez mais ousados.

Veja também:
Discos para história: Chaos A.D., do Sepultura (1993)
Discos para história: Avanço, do Tamba Trio (1963)
Discos para história: Deixa a Vida Me Levar, de Zeca Pagodinho (2002)
Discos para história: Assim Sou Eu..., de Odair José (1972)
Discos para história: Luiz Gonzaga Canta Seus Sucessos com Zé Dantas, de Luiz Gonzaga (1959)
Discos para história: Pornography, do The Cure (1982)


É possível perceber na própria discografia de Ney Matogrosso como ele sempre foi muito ativo e de olho em canções para incrementar seu repertório. Se “Sujeito Estranho” (1980) já trazia algumas colaborações de gente do nível de Gilberto Gil e Rita Lee, o disco seguinte colocaria o cantor em outro patamar definitivamente – também com uma ajudinha dos amigos.

Lançado em 1981, o primeiro e único disco com o nome do cantor fez bastante sucesso graças ao deboche de Matogrosso cantar "Homem com H", o que gerou muitas piadas nos programas de humor do fim de noite da época. E esse LP colocou de vez Ney Matogrosso como parte fundamental da cultura pop brasileira.


Resenha de “Ney Matogrosso”

A década de 1980 produziu um tipo de efeitos e produção muito peculiar. A abertura do disco, "Deixa a Menina" é um samba de Chico Buarque que ganhou certa incrementação nesse disco de Ney Matogrosso. E ficou bom, de maneira geral, mas é um claro reflexo de sua época. E esse também é um trabalho que mostra toda variedade do repertório do cantor, como o choro "Espinha de Bacalhau". A participação de Gal Costa dá brilho à faixa e gera uma ótima dupla com Matogrosso.

"Viajante" tem uma letra muito profunda e dolorida, dessas que lembram a música chamada de fossa, de bastante sucesso nos anos 1950. A interpretação dele é brilhante, assim como de “Mata Virgem, balada romântica escrita por Raul Seixas em parceria Tania Menna Barreto – ela foi a terceira mulher de Raul.



Escrita pelo cantor e compositor paraibano Antônio Barros, "Homem com H" é um forró bem popular no Nordeste, mas ganhou fama nacional com a interpretação de Ney Matogrosso. A ironia é que o cantor não queria gravar, mas acabou convencido por Gonzaguinha quando os dois estavam passeando pelas ruas de Copacabana e ouviram a música tocando na rua. No fim, virou um sucesso e é uma das interpretações mais famosas de Matogrosso.

O lado B do disco começa com "Amor Objeto", composição do casal Rita Lee e Roberto de Carvalho. É o tipo de canção que caberia na carreira solo da cantora, mas a gravação de Matogrosso é muito plausível e parece que a letra foi feita para e sobre ele. Também outro sucesso enorme dele. E outra muito boa é a dançante "Vida, Vida", que também é um reflexo de seu tempo, mas, ao contrário de algumas, envelheceu bem.



Da dupla Luli e Lucina, “De Marte” tem um ar psicodélico em que a interpretação ajuda a criar esse clima de filme noir. O LP acaba com a festeira "Folia no Matagal", marchinha de carnaval também muito popular na voz de Eduardo Dusek.

O sétimo disco da carreira de Ney Matogrosso o colocou defintivamente como um dos grandes nomes da história da música popular brasileira ao mostrar a todos sua incrível capacidade de cantar qualquer coisa – mesmo.



Ficha técnica

Tracklist:

Lado A

1 - "Deixa a Menina" (Chico Buarque) (3:23)
2 - "Espinha de Bacalhau" (Fausto Nilo/Severino Araújo) (2:41)
3 - "Viajante" (Teresa Tinoco) (3:51)
4 - "Mata Virgem" (Raul Seixas/Tania Menna Barreto) (4:29)
5 - "Homem com H" (Antônio Barros) (2:57)

Lado B

6 - "Amor Objeto" (Rita Lee/Roberto de Carvalho) (4:11)
7 - "Vida, Vida" (Guilherme Maia/Moraes Moreira/Zeca Barreto) (4:22)
8 - "De Marte" (Luli e Lucina) (4:36)
9 - "Folia no Matagal" (Eduardo Dusek/Luiz Carlos Góes) (3:02)

Gravadora: Ariola Discos
Produção: Marco Mazzola
Duração: 33 minutos

Ney Matogrosso: voz, coro e palmas
Gal Costa: voz
Severino Araújo: arranjos e instrumentos diversos
Orquestra Tabajara: instrumentos diversos
Fabíola Pires, Ismail, Luna Messina, Márcio Lott, Pedro Lopes, Pedro Paulo Carvalho, Regininha e Sônia Maria: coro
Oswaldinho do Acordeon: acordeão e arranjos
Bezerra da Silva: agogô
Sérgio Della Mônica e Jurim Moreira: bateria
Sérgio Dias Baptista: cítara elétrica
Bijou e Netinho: clarinete
Mazzola: efeitos, palmas, pandeiro
Jorginho da Flauta: flauta e flautim
Robson Jorge e Zé Carlos: guitarra
Ronald: guitarra baiana
Lincoln Olivetti: oberheim, piano Yamaha, teclado e arranjos
Jorjão: baixo, oberheim, palmas e coro
Alexandre Agra: palmas
Cesar Camargo Mariano: piano, teclados e arranjos
João Luiz: piano
Serginho Trombone: Piano Fender Rhodes
Dom Chacal: percussão
Jorginho do Pandeiro, Elizeu Felix, Luna e Marçal (Nilton Delfino Marçal): ritmo
Zé Carlos Bigorna: saxofone barítono, saxofone tenor e arranjos
Leo Gandelman: saxofone barítono
Oberdan Magalhães: saxofone tenor, saxofone alto e arranjos
Serginho Trombone: trombone e arranjos
Bidinho Spínola: trompete e arranjos
Formiga: trompete
Márcio Montarroyos: trompete e arranjos
Piska: guitarra, cavaquinho, palmas, coro, violão, violão 12 cordas e arranjos
Neco: violão
Pedro Baldanza: baixo, palmas coro e violão 7 Cordas
Natan Marques: coro, guitarra, violão, violão 12 Cordas
Pinduca: xilofone
Firmino: zabumba
Ivan Paulo (Ivanovich Paulo da Silva): arranjos



Siga o blog no Twitter Twitter e no Facebook e assine o canal no YouTube. Compre livros na Amazon e fortaleça o trabalho do blog!

Saiba como ajudar o blog a continuar existindo

Gostou do post? Compartilhe nas redes sociais e indique o blog aos amigos!

Continue no blog: