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quinta-feira, 11 de maio de 2017

Discos para história: Raimundos, do Raimundos (1994)


Primeiro disco levou banda ao inesperado e rápido sucesso

História do disco

O fim dos anos 1980 e o início da década seguinte foram cruéis com muitas bandas, cantores e cantoras que havia feito sucesso justamente quando o Brasil estava próximo de sair de ditadura militar (1964-1985). Inflação altíssima, falta de novos sucessos, problemas contratuais e vários outros motivos minaram a maioria deles, as colocando como apenas uma nota na história da música jovem brasileira.

Se a falta de dinheiro era ruim para quem comprava, também era para quem tentava fazer alguma coisa. Sem as quantias despejadas no início da década anterior, pouca gente se metia a fazer o trabalho de encontrar novas bandas, apostar nelas, gravar um disco e lançá-las em turnê. Era mais fácil apostar em nomes consagrados, como Titãs, Legião Urbana e Paralamas do Sucesso, três das sobreviventes dos anos 1980 que chegaram bem na década seguinte.

Mais discos dos anos 1990:
Discos para história: O Samba Poconé, do Skank (1996)
Discos para história: Achtung Baby, do U2 (1991)
Discos para história: Da Lama ao Caos, de Chico Science & Nação Zumbi (1994)
Discos para história: American Football, do American Football (1999)
Discos para história: The Miseducation of Lauryn Hill, de Lauryn Hill (1998)
Discos para história: OK Computer, do Radiohead (1997)

Fora essas três, quem vendia mesmo e tocava nas rádios era sertanejo e axé. Com o excesso de nomes – lembra algum período em especial? – e a invasão no mercado, pouco se dava atenção que estava acontecendo no underground do rock nacional. Essas bandas novatas não estavam fazendo nada novo, mas estavam, naquele momento, trazendo um frescor e renovação que estavam fazendo falta na cena brasileira, ainda refém dos mesmos nomes de antes.

Skank, Chico Science e Nação Zumbi e Raimundos são os três grandes nomes daquele época. Como em todos os casos, nada teria acontecido se ninguém tivesse apostado neles. No caso dos Raimundos, banda de Brasília que misturava elementos do hardcore com a cultura nordestina e letras muito diretas sobre tesão adolescente, uma pessoa muito especial apostou e mudou a vida deles para sempre: o jornalista e produtor Carlos Eduardo Miranda.

Com um entendimento melhor do mercado do que no início da carreira, os Titãs lançaram um selo para dar chance para novas bandas. Chamado de Banguela Records, a gravadora nasceu com a missão de descobrir novas bandas e, com apoio da Warner, dar chance de cada uma ter seu lugar ao sol – o documentário Sem Dentes - Banguela Records e a Turma de 1994 (2015) conta bem essa história. E eles chamaram Miranda, que havia mostrado a eles várias fitas demos de bandas novas – Nação, Charlie Brown Jr, Little Quail e Planet Hemp entre elas – e tido a ideia do selo para ajudar na divulgação, ser o produtor e o sócio mais presente para tomar decisões sem precisar da banda o tempo inteiro no estúdio. Ele descobriu muitas bandas e o Raimundos foi uma delas.

"Mostrei pra eles umas fitas no estúdio e eles falaram: 'é isso que tá acontecendo na música brasileira?' Sugeri ajudar, eles retrucaram, e eu falei: 'pô, vamos montar um selo?'. Na hora o [guitarrista Marcelo] Frommer ligou na Warner e disse: 'estamos aqui com o Miranda e vamos montar um selo'", conta o produtor em entrevista ao canal no YouTube 'Vitrola Verde'.

Veja também:
Discos para história: Voo de Coração, de Ritchie (1983)
Discos para história: Os Afro-Sambas, de Baden Powell e Vinicius de Moraes (1966)
Discos para história: Vagarosa, de Céu (2009)
Discos para história: Caymmi e Seu Violão, de Dorival Caymmi (1959)
Discos para história: Rumours, do Fleetwood Mac (1977)
Discos para história: The Colour and the Shape, do Foo Fighters (1997)

E o selo saiu, ainda que aos trancos e barrancos. E o Raimundos foi contratado e a banda saiu de Brasília para morar e gravar o primeiro disco em São Paulo, no lendário estúdio Be Bop. Eles começaram fazer exatamente o que os levariam ao sucesso ainda no fim dos anos 1980, mas, por não ter retorno, acabaram partindo para algo tosco entre o metal e covers de sucesso da época. Só na primeira gravação de uma fita demo, depois do encerramento das atividades em 1990 e de um retorno dois anos depois, é que eles realmente começaram a chamar atenção de gente da cena underground.

Lançado em 12 de maio de 1994, foi o primeiro disco do novo selo. Foi um verdadeiro estouro, chegando às 200 ml cópias vendidas no final daquele ano. Graças ao público, uma nova geração embalada pelo sucesso do grunge de pouco tempo antes, e a estabilização da economia, o Raimundos conseguiu fazer bastante sucesso, ser capa da revista 'Bizz' – eram outros tempos, e isso era muito importante – e ser uma das expoentes dessa segunda, única e inspirada geração de novas bandas.



Resenha de Raimundos

Grande sucesso do Raimundos até hoje, "Puteiro em João Pessoa" fala sobre um adolescente que deixou de ser virgem, fazendo um resumo usando o português coloquial. O início da faixa começa com alguém reclamando e pedindo por rock. Pois bem, ela entrega isso muito bem. Utilizando elementos do hardcore, beirando o heavy metal, a letra conta essa história engraçadíssima utilizando todas as gírias e linguajar regional, que deixa tudo ainda melhor.

As seguintes, "Palhas do Coqueiro", "MM's" e "Minha Cunhada", têm muito do punk ao serem velozes quase que do início ao fim. Despretensiosas e com letras cheias de palavrões e palavras de baixo calão, fez a festa de muitos adolescentes por aí – eu incluso. "Rapante" mostra mais claramente essa mistura do forró com o hardcore e também com uma pitada de metal.



"Carro Forte" (canção popular adaptada pela banda), "Nêga Jurema" (história de uma mulher que vendia maconha), "Deixei de Fumar" (um pout-pourri executado na velocidade Ramones) e "Cajueiro" (outro pout-pourri sobre sexo que tem um início parecido com alguns sucessos do sertanejo) mostram a criatividade e força da banda em canções originais, rápidas e de forte apelo junto ao público alvo.

"Bê a Bá" é mais uma música absurdamente boa desse álbum ao conseguir condensar todas as referências da banda, enquanto "Bicharada" é puro escracho adolescente do início ao fim. E "Marujo" parece que vai soar mais leve, mas só parece. É tão rápida que quase não dá tempo de entender a letra – só o refrão tem uma velocidade "normal". Se "Cintura Fina" é a história de uma "moça feia com o cabelo ruim" por quem o homem se apaixonou, "Selim" foi outro grande sucesso que perdura até os dias atuais. Essa letra inacreditável sobre ter desejo por determinada garota fez, e faz, muito sucesso entre adolescentes e fãs da banda.

“Raimundos não tem para ninguém, é a banda mais chuta c* da história da música brasileira. E a minha maior contribuição foi permitir que eles fossem exatamente como eram. Não quis mudar o som, diminuir guitarras, tirar palavrão. Deixei bem cru e nervoso", conta Miranda, em entrevista ao UOL na época das comemorações dos 20 anos do álbum. Isso resume bem esse primeiro disco dos Raimundos, uma banda então crua que fez músicas para qualquer um na faixa entre 28 e 35 anos relembrar com nostalgia.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Puteiro em João Pessoa" (3:07)
2 - "Palhas do Coqueiro" (Evandro Vieira e Martin Luthero) (1:58)
3 - "MM's" (1:59)
4 - "Minha Cunhada" (Martin Luthero e Rodolfo Abrantes) (1:21)
5 - "Rapante" (3:03)
6 - "Carro Forte" (Domínio público / adaptação: Raimundos) (1:29)
7 - "Nêga Jurema" (1:52)
8 - "Deixei de Fumar" / "Cana Caiana" (Durval Vieira e Graças Góes / Tio Jovem e Zenilton) (1:30)
9 - "Cajueiro" / "Rio das Pedras" (Domínio público / adaptação: Martin Luthero e Raimundos / Durval Vieira e Zenilton) (2:30)
10 - "Bê a Bá" (2:30)
11 - "Bicharada" (1:37)
12 - "Marujo" (Martin Luthero e Rodolfo Abrantes) (2:31)
13 - "Cintura Fina" (2:35)
14 - "Selim" (Cristiano Telles e Raimundos) (4:12)
15 - "Puteiro em João Pessoa II" (faixa bônus da edição em CD) (3:07)
16 - "Selim (Acústica)" (faixa bônus da edição em CD) (4:12)

Todas as músicas foram escritas por Rodolfo Abrantes, exceto as marcadas.

Gravadora: Banguela Records / Warner Music
Produção: Carlos Eduardo Miranda e Raimundos
Duração: 39min55s

Rodolfo Abrantes: vocal
Digão: guitarra e vocal
Canisso: baixo e vocal
Fred: bateria

Convidados:

Carlos Eduardo Miranda: vocais em "Minha Cunhada"; Pandeiro em "Cintura Fina"
Guilherme Bonolo: vocais em "Puteiro em João Pessoa", "Palhas do Coqueiro", "Minha Cunhada", "Nêga Jurema", "Cana Caiana", "Marujo" e "Cintura Fina"; guitarra em "MM's" e "Selim"
Ivan David: vocais em "Puteiro em João Pessoa" e "Nêga Jurema"
João Gordo: vocais em "MM's"
Nando Reis: violão em "Puteiro em João Pessoa"; Viola em "Selim"
Paulo Miklos: vocais em "Carro Forte", "Bê a Bá" e "Bicharada"
Branco Mello: vocais em "Carro Forte", "Bê a Bá" e "Bicharada"
Sérgio Britto: vocais em "Carro Forte", "Bê a Bá" e "Bicharada"
Zenilton: acordeão em "Rio das Pedras" e "Marujo"



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