quinta-feira, 20 de abril de 2017

Discos para história: Vagarosa, de Céu (2009)


Segundo álbum de estúdio da cantora foi considerado por muitos o melhor daquele ano

História do disco

Em 2017, Céu já é uma cantora consagrada da nova geração da música brasileira. Mas ela ainda buscava espaço em 2009, quando lançou o segundo trabalho de estúdio, chamado Vagarosa. À época, em entrevistas, ela admitiu que o amadurecimento chegou ao longo do processo de composição do então novo álbum, justamente no momento em que virou mãe. O segundo disco registro dela foi considerado por muitos críticos e especialistas o melhor daquele ano.

“Com certeza a maternidade me influenciou. Muita coisa mudou depois do primeiro disco. As dificuldades estão aí para a gente aprender. Então eu fui escrevendo e a vida me inspirou. Quando você faz uma filha, você pensa ‘eu sou capaz de muita coisa’. Os pingos nos 'is' vão para os seus devidos lugares. Talvez no primeiro disco eu ainda estivesse em dúvida sobre o que eu seria capaz de fazer. Já o segundo reafirma quem eu sou", disse a cantora em entrevista ao site 'G1', em 2009.

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Foram cinco anos entre o primeiro e o segundo trabalho, mas Céu nunca parou de trabalhar. Fez participações aqui e ali, e, fundamental, tirou um tempo para aproveitar o nascimento da filha. Tudo isso fez parte desse processo de amadurecimento pessoal e profissional. Porém houve pressão dos fãs, da gravadora... Céu quis um trabalho honesto. E assim o fez.

"Eu observei que existe uma pressão forte, óbvia. Porque realmente o meu primeiro [álbum] teve um alcance que eu não imaginei, que foi surpreendente, no mínimo. E aí você fala: e agora? Eu tentei encarar o que fazia sentido novamente. Qualquer outro tipo de atitude ia virar um golpe, e um golpe, para mim, tem perna muito curta. E eu quis ser honesta comigo. [Vagarosa] É um disco importante porque é um disco de reafirmação. Um disco em que você vai contar quem você é. Primeiro, você vem do nada. E ai você pode ter tudo...", explicou a cantora em entrevista à revista 'Trip', em janeiro de 2010.

Em tempos de discussão de como a internet poderia ser uma ferramenta de divulgação e como as gravadoras ainda estavam perdidas, Vagarosa caiu nas mãos do público pouco antes da data oficial do lançamento. Do conformismo ao serviços de streaming, muita coisa mudou em menos de uma década. Céu já mostrava a tendência dessa nova geração a tentar trabalhar com a internet, não contra ela.

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"O que eu vou fazer? Nadar contra a maré? Não tem jeito, as coisas estão mudando e é isso. Agora vamos tentar nos adaptar. Tem gente que vai ganhar dinheiro, gente que vai perder. Onde é que eu vou me enfiar? Isso que preciso me perguntar, porque eu também tenho contas para pagar", disse ela à revista Rolling Stone, em 2009.

Céu ainda estava se desenvolvendo dentro da música, e o tempo sem lançar um trabalho com inéditas não comprometeu sua carreira. Ao contrário, mais madura, ela voltou ainda melhor e mostrou que poderia caminhar bem em qualquer tipo de música que desejava cantar. E provou isso em seu segundo álbum de estúdio.


Resenha de Vagarosa

O disco começa com um samba bem gosto de ouvir chamado "Sobre o Amor e Seu Trabalho Silencioso". Com menos de um minuto, serve de introdução ideal para mostrar o tipo de trabalho que Céu queria apresentar ao mundo depois de tanto tempo sem gravar nada, além de ampliar ainda mais seus horizontes musicais. E a seguinte, a ótima "Cangote", tem uma levada suave transformados em uma balada amorosa das melhores.

"Comadi" mostra que Céu é capaz de cantar qualquer coisa, o que ainda impressiona depois de todos esses anos. Esse forró moderno, vamos dizer assim, tem uma parte instrumental muito bem construída e se amarra muito bem com a letra. Essa união é muito agradável de deixar tocando o dia inteiro, assim como a união das cantoras Céu, Anelis Assumpção e Thalma de Freitas. "Bubuia" traz uma suavidade das mais precisas em qualquer hora do dia.



Neste álbum, a cantor já mostrava uma afinidade com sintetizadores, e isso fica claro em "Nascente". Aqui, temos uma certeza: a Céu de hoje foi se desenvolvendo desde sempre, e outra letra muito bonita é a de "Grains de Beauté" que contém o verso Mesmo de cara lavada/ Diz que sou sua pintada/ E feito velho jogo de ligar os pontos/ Você vai achar/ Vai me encontrar aqui. É dessas coisas muito poéticas e sinceras que até emociona ouvir. E "Vira Lata", outro samba, tem a participação bem especial de Luiz Melodia e sua inconfundível voz.

Curta e toda em inglês, "Papa" é aquele tipo de faixa experimental que pouco acrescenta ao disco, mas ainda bem que "Ponteiro" surge logo na sequência e mostra todo potencial da cantora em outra faixa suave e tranquila – é inevitável não ficar pensando em praia durante a audição. O ritmo aumenta com a chegada de "Cordão da Insônia", essa feita para dançar sem vergonha alguma de mostrar a influência do dub na sonoridade. A versão psicodélica de "Rosa Menina Rosa", de Jorge Ben Jor, ficou das melhores, enquanto "Sonâmbulo" é um reggae que mistura um monte de coisa sem perder a essência. E, por fim, "Espaçonave" encerra o disco muito bem.

Não é de graça que Céu atingiu um patamar imenso na música nos últimos anos. Com praticamente uma década de bons lançamentos, era muito difícil que ela não estivesse na situação de hoje: considerada por muitos a melhor cantora de sua geração. Tudo começou antes, mas se consolidou em um disco leve e descompromissado em agradar.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Sobre o Amor e Seu Trabalho Silencioso" (Céu) (0:55)
2 - "Cangote" (Part. Gigante Brazil) (Céu) (4:05)
3 - "Comadi" (Céu e Beto Villares) (3:30)
4 - "Bubuia" (Part. Negresko Sis) (Céu, Anelis Assumpção e Thalma de Freitas) (3:16)
5 - "Nascente" (Céu e Siba) (3:21)
6 - "Grains de Beauté" (Céu e Beto Villares) (3:36)
7 - "Vira Lata" (Part. Luiz Melodia) (Céu) (3:37)
8 - "Papa" (Céu) (1:21)
9 - "Ponteiro" (Céu) (3:38)
10 - "Cordão da Insônia" (Céu, Beto Villares) (2:43)
11 - "Rosa Menina Rosa" (Part. Los Sebozos Postizos) (Jorge Ben Jor) (4:43)
12 - "Sonâmbulo" (Céu, Serginho Machado, Bruno Buarque, Lucas Martins, DJ Marco e Guilherme Ribeiro) (3:51)
13 - "Espaçonave" (Céu, Fernando Catatau) (3:35)

Gravadora: Urban Jungle / Universal Music
Produção: Beto Villares, Gustavo Lenza, Gui Amabis e Céu
Duração: 41min54s

Céu: voz e instrumentos diversos

Convidados:

Thalma de Freitas: vocal
Anelis Assumpção: vocal
Los Sebozos Postizos: instrumentos diversos
Fernando Catatau: guitarra
Luiz Melodia: vocal
Gigante Brazil: bateria
DJ Marco: scratches



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