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quinta-feira, 13 de abril de 2017

Discos para história: Caymmi e Seu Violão, de Dorival Caymmi (1959)


LP contém regravações de sucessos do compositor apenas com voz e violão

História do disco

Dorival Caymmi (1914 – 2008) foi o compositor que melhor soube cantar o Brasil praieiro. Sua voz era acompanhada pela serena batida do violão para falar de tudo que envolve esse pedaço do País ainda não descoberto por muitos. Das lendas até a religião, passando pelos costumes locais, Caymmi soube fazer suas músicas com extrema delicadeza e afeto por tudo que o cercou durante quase toda a longa vida que teve.

Na época do lançamento de Caymmi e Seu Violão, ele já era um consagrado compositor de sua geração, apesar de um pouco eclipsado pelo surgimento da Bossa Nova. O sucesso vinha desde o início dos anos 1940, quando lançou seu primeiro single de sucesso e passou a morar no Rio de Janeiro. A então capital do Brasil fervia culturalmente e virou o palco ideal para as músicas e pensamentos do compositor, quase todos traduzidos em música.

Mais discos dos anos 1950:
Discos para história: Canção do Amor Demais, de Elizete Cardoso (1958)
Discos para história: Ella and Louis, de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong (1956)
Discos para história: Chega de Saudade, de João Gilberto (1959)
Discos para história: In the Wee Small Hours, de Frank Sinatra (1955)
Discos para história: Here's Little Richard, de Little Richard (1957)
Discos para história: Kind of Blue, de Miles Davis (1959)

Muita coisa aconteceu daquele período em diante, como as consequências da Segunda Guerra chegando, o nascimento de dois de seus três filhos, o sucesso de uma turnê no Nordeste... Enfim, o Brasil conhecia cada vez mais o trabalho do compositor. Quase no início dos anos 1950, a mudança do circuito musical para a Zona Sul, que rolou por conta do fechamento dos cassinos, não mudou a admiração do público por Caymmi – ele também passou a fazer apresentações em São Paulo, onde a noite também fervia nos bares.

A chegada da Bossa Nova, principalmente com João Gilberto e vários outros rapazes talentosos, não mudou o jeito de pensar ou compor. Mesmo perdendo espaço nas rádios para a novidade apresentada por essa nova turma de jovens compositores, que o tinham como amigo e inspiração para suas composições, Dorival seguiu fazendo sua música normalmente e lançando discos.

Veja também:
Discos para história: Rumours, do Fleetwood Mac (1977)
Discos para história: The Colour and the Shape, do Foo Fighters (1997)
Discos para história: Appetite for Destruction, do Guns N' Roses (1987)
Discos para história: Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles (1967)
Discos para história: Sound of Silver, do LCD Soundsystem (2007)
Discos para história: Blue Train, de John Coltrane (1957)

Em 1959, Aloysio de Oliveira (1914 – 1995) teve uma ideia: por que não aproveitar essa nova onda e gravar um disco de Caymmi acompanhado apenas pelo violão? Os diretores da gravadora Odeon não gostaram nada da ideia e alegaram receio em fazer algo fora da curva – o uso de uma orquestra para acompanhá-lo e dar mais força às faixas. Além disso, todas as canções sugeridas para gravação já haviam sido cantadas por Dorival ou outros cantores. Em resumo, eles não queriam uma releitura de material velho, mesmo com o cantor concordando com a ideia.

Mas os bons argumentos de Aloysio em favor do trabalho acabaram convencendo os reticentes. Eles mal sabiam, mas acabaram concordando em fazer um dos LPs mais importantes da música brasileira. Aos 45 anos, Dorival Caymmi estava mais em forma do que nunca para cantar aquilo que sempre amou: o mar.



Resenha de Caymmi e Seu Violão

"Canoeiro" abre o disco mostrando que a força de Dorival Caymmi não estava nos grandes arranjos, mas como ele consegue descrever com exatidão a vida de um pescador. O dedilhado do violão só ajuda a criar esse clima intimista de alguém que sabe exatamente do que está falando e sabe contar essa história usando as palavras certas. A segunda faixa, "A Jangada Voltou Só", é a melancólica história da morte de Chico e Bento, parceiros de pescaria. A letra trata de como a cidade recebeu a partida dos dois e como o acontecimento abalou as pessoas, porque ambos eram pessoas muito queridas na comunidade.

A animada "Dois de Fevereiro" celebra o dois de fevereiro, dia de Iemanjá - a rainha do mar. Dorival descreve como é a data, incluindo um pedido que fez e a resposta que recebeu. A morte é tema mais uma vez na melancólica quarta faixa, chamada "É Doce Morrer no Mar", parceria com o imenso Jorge Amado (1912 – 2001). O estilo é bem parecido com o da segunda canção do álbum. A suavidade do violão é perfeita para descrição de como é morrer no mar.



"Coqueiro de Itapoan" traz a saudade como tema principal. A saudade do local de nascimento foi tema de muitos nomes da música nordestina ao longo dos anos e não foi diferente com Caymmi, que relembra todas as paisagens e mulheres de Itapuã (antes grafada Itapoan). Daí aparece o clássico "O Mar" e é difícil não ficar encantado com o prazer que ele descrevia as belezas e tragédias do mar (O mar quando quebra na praia/ É bonito, é bonito/ O mar... pescador quando sai/ Nunca sabe se volta, nem sabe se fica/ Quanta gente perdeu seus maridos seus filhos/ Nas ondas do mar) em outra letra que termina com uma morte.

A rotina do dia a dia é descrita em "O Vento" e em "O Bem do Mar", duas canções de tom bem melancólico e sereno. A sequência de canções em que o mar é tema direto encerra em "Quem Vem pra Beira do Mar", momento em que o ser humano acaba atraído pela água e nunca mais quer saber de outra coisa (Quem vem pra beira do mar, ai/ Nunca mais quer voltar, ai/ Quem vem pra beira do mar, ai/ Nunca mais quer voltar).



Se a "A Lenda do Abaeté" fala de todos os mistérios e encantos da Lagoa do Abaeté, "Promessa de Pescador" tem um homem já aposentado pedindo para Iemanjá proteger seu filho que está indo para o mar. Ao pedir, ele faz a promessa de levar um presente bem bonito quando chegar seu dia. O disco fecha com "Noite de Temporal", quando um pescador vai para pesca em uma noite de chuva forte. Aflita, sua mãe o espera sentada na areia. Aqui, Caymmi cria um clima denso e de expectativa. Afinal, o que aconteceu com ele?

Poucos souberam cantar um tema específico com a grandeza que Dorival Caymmi fala da rotina de quem vai ao mar pescar. A dureza do trabalho ao momento de pedir proteção, ele mostra como ter intimidade no tema pode fazer muita diferença ao escrever uma história. É um LP impecavelmente bonito e mostra a grandiosidade de personagem único da música brasileira.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Canoeiro"
2 - "A Jangada Voltou Só"
3 - "Dois de Fevereiro"
4 - "É Doce Morrer no Mar" (Dorival Caymmi e Jorge Amado)
5 - "Coqueiro de Itapoan"
6 - "O Mar"
7 - "O Vento"
8 - "O Bem do Mar"
9 - "Quem Vem pra Beira do Mar"
10 - "A Lenda do Abaeté"
11 - "Promessa de Pescador"
12 - "Noite de Temporal"

Todas as músicas são de Dorival Caymmi, exceto a marcada

Gravadora: Odeon
Produção: Aloysio de Oliveira
Duração: 38min42s

Dorival Caymmi: violão e voz



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