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sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Discos para história: Achtung Baby, do U2 (1991)


A edição 150 traz um dos melhores discos dos anos 1990

História do disco

"Nós nos tornamos muito sérios no final dos anos 1980. Estávamos carregando uma bagagem moral bastante pesada, e a tensão estava mostrando isso. Quando você escreve uma música sobre Martin Luther King, as pessoas pensam que você deve ter aspirações de ser como ele, de viver essas canções. Assim, os anos 1980 nos colocaram nesta situação em que as canções e os nossos momentos reais eram muito diferentes", disse Bono, ao 'USA Today', em outubro de 2011.

O vocalista e líder do U2 fez uma avaliação interessante sobre a banda no fim daquela década. A verdade é que ele tinha razão porque foi especificamente naquele período que esses quatro irlandeses ganharam a áurea que mantém até hoje. Os discos War (1983), The Unforgettable Fire (1984), The Joshua Tree (1987) e Rattle and Hum (1988) mudaram o patamar deles para sempre perante os fãs, mas os críticos achavam que eles estavam pecando pelo excesso e os chamavam de "pretensiosos" e "egoístas".

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Assim como o mundo passou por um importante momento entre o fim dos anos 1980 e início da década seguinte, o U2 também passou por um. Apesar de formarem uma das melhores bandas do mundo e lotarem estádios, os quatro estavam insatisfeitos com o próprio nível musical. A incerteza do futuro bateu à porta, então eles resolveram parar com as apresentações para pensar no próximo trabalho de estúdio. "Ironicamente, ser forçado a olhar para trás me lembra como poderíamos ressurgir para a próxima fase", disse Bono, à edição americana da revista 'Rolling Stone', em 2011. "E isso não significa que você tem que usar óculos de soldador louco ou vestir-se com roupas de mulher. Reinventar-se é muito mais profundo do que isso".

O trabalho começou como uma reação aos críticos e ao próprio sentimento de estagnação que tomou conta do U2 no final daquela turnê. Começando por um material muito mais experimental do que eles estavam habituado, o que acabou estimulando algumas das ideias usadas no que viria a ser Achtung Baby. Demos foram gravadas no estúdio STS, em Dublin. Se o objetivo era tentar não repetir o passado, a nova cena musical britânica colocou um ponto de interrogação na cabeça do U2. A chegada de Happy Mondays, Stone Roses, Inspiral Carpets, Northside, 808 State, James and The Charlatans, entre outros, mostrou que era bem possível que o novo trabalho não se encaixasse em lugar algum. E existia a grande possibilidade de ser rejeitado pelos fãs.

Daniel Lanois foi contratado para ser produtor em tempo integral, enquanto Brian Eno funcionou como um produtor/consultor. Quando Lanois trabalhava com a banda durante a semana, Eno oferecia uma perspectiva de quem ficava a semana inteira longe, só ouvia o material quando estava gravado e estava autorizado a descartar "qualquer coisa que soasse muito U2". Eles começaram a trabalhar na Alemanha Ocidental em outubro de 1990, mas encontraram um ambiente tenso, um país em frangalhos e sem equipamento – Eno precisou importar várias coisas.

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O ambiente ruim ajudou a ter uma divisão clara na banda. The Edge e Bono de um lado, com o desejo de mudar musicalmente, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. do outro, querendo manter a mesma linha dos trabalhos anteriores. A divisão foi tão grande, que o fim da banda foi cogitado por todos os envolvidos. Quem salvou a lavoura foi Brian Eno. Ao ouvir o material pré-gravado, ele gostou bastante e apontou todas as qualidades das novas faixas. Além disso, uma brincadeira de The Edge no violão acabou unindo os quatro a trabalharem no que seria "One", um futuro clássico.

Com as coisas melhores, eles retornaram à Dublin para finalizar as gravações e apararem as arestas. Tudo no âmbito pessoal foi resolvido, mas o roubo das demos gravadas antes da chegada em Berlim quase colocou tudo a perder. No fim das contas, tudo deu certo, principalmente na parte musical. Lançado em 18 de novembro de 1991, o disco foi um sucesso entre os críticos, mas foi duramente criticado por parte dos fãs. Atualmente, há uma compreensão maior do trabalho feito no álbum e a maioria considera o grande último momento deles em estúdio. A motivação do U2 estava mais alta do que nunca para um reinício de carreira.



Resenha de Achtung Baby

"Zoo Station" é o grande símbolo da mudança de direção artística por parte do U2. Do trabalho que deu fazer tudo – eles testaram várias versões e ideias até chegar ao resultado final –, a faixa mostrou-se um grande acerto. Primeiro, segue exatamente a ideia de algo completamente fora do feito anteriormente; segundo, é muito boa. Dá para ouvir toda a construção sonoras, as camadas e tudo que envolveu a produção de Daniel Lanois e Brian Eno. Já a poética "Even Better Than the Real Thing" nasceu de um riff criado por The Edge quando a banda já estava na Irlanda para a segunda fase das gravações e acabou virando um sucesso do trabalho.

Claro que era muito difícil o U2 sair completamente de suas raízes. Até por isso, "One" é a mais deslocada de todo álbum e em nada se parece com suas companheiras, mas dificilmente ficaria de fora. É uma letra muito boa sobre amor e relacionamentos. A banda está impecável, e foi exatamente essa canção que colocou a produção do disco no eixo. O ritmo é mantido em "Until the End of the World", uma conversa hipotética entre Jesus e Judas com as consequências de seus atos nos versos seguintes – uma canção que ganhou vários herdeiros no próprio U2 ao longo dos anos.



Um dos objetivos era ter um disco difícil para tocar ao vivo. Eles não conseguiram, mas "Who's Gonna Ride Your Wild Horses" é justamente a faixa que eles estavam procurado. Foram 14 versões diferentes gravadas até chegar ao resultado definitivo: o primeiro take foi o melhor de todas, segundo o baixista Adam Clayton. Se Bono conseguiu captar a tristeza do recém-separado The Edge na tocante "So Cruel", "The Fly" é o retorno ao início do álbum. A mixagem ruim levou Lanois a ter a ideia de acrescentar mais guitarra, o que deixou a canção com uma misto de material ao vivo e gravado. O resultado é um dos melhores do ponto de vista de edição.

O refrão grudento de "Mysterious Ways" é, sem dúvida, um dos trunfos da dançante faixa. Mas há mais, como o teor experimental implementado graças aos efeitos extraídos do Korg A3 no estúdio, e isso a transformou em um enorme sucesso. Diferente da menosprezada "Tryin' to Throw Your Arms Around the World" e sua letra sobre ansiedade e como tentar abraçar o mundo pode ser um erro quando se olha para trás. Já melodia reconhecível faz "Ultraviolet (Light My Way)" mãe de muitas outras canções gravadas pelo U2 depois desse disco, enquanto a política "Acrobat" chega mostrando o lado para experimental do quarteto. Outra bem fora do comum é a bonita "Love Is Blindness", outra com tons bem experimentais. E é com ela que o U2 fecha o disco.

Um dos grandes trabalhos dos anos 1990 nasceu da vontade da banda em soar diferente de tudo que havia feito. Eles conseguiram trazer aos fãs um disco cheio de boas letras e ainda conseguiram mostrar uma evolução musical, coisa que poucos optam por fazer quando estão no auge. U2 provou a si mesmo que havia talento para ir além do óbvio.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Zoo Station"
2 - "Even Better Than the Real Thing"
3 - "One"
4 - "Until the End of the World"
5 - "Who's Gonna Ride Your Wild Horses"
6 - "So Cruel"
7 - "The Fly"
8 - "Mysterious Ways"
9 - "Tryin' to Throw Your Arms Around the World"
10 - "Ultraviolet (Light My Way)"
11 - "Acrobat"
12 - "Love Is Blindness"

Gravadora: Island
Produção: Daniel Lanois e Brian Eno
Duração: 55min27s

Bono: vocais e guitarra
The Edge: guitarra, teclado e vocais
Adam Clayton: baixo
Larry Mullen Jr.: bateria e percussão

Convidados:

Brian Eno: teclado nas faixas 3, 9 e 12
Daniel Lanois: guitarra nas faixas 1, 3 e 9 e percussão nas 4 e 8
Duchess Nell Catchpole: violino e viola na faixa 6



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