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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Discos para história: OK Computer, do Radiohead (1997)


A 117ª edição do Discos para história fala sobre a obra-prima do Radiohead. OK Computer não só mudou o patamar da banda para sempre, como também é um dos grandes álbuns feitos nos anos 1990

História do disco

O Radiohead construiu uma base de fãs muito interessante quando surgiu. Apesar do single “Creep” ter feito muito sucesso e ser uma das músicas marcantes do início dos anos 1990, a banda não se via como parte do movimento grunge, nem parte do Britpop que viria a dominar as paradas de sucesso entre 1994 e o fim de 1999. O disco The Bends, de 1995, conseguiu colocar o grupo em um bom patamar, mas ainda, na cabeça de alguns, era o meio do caminho entre um tipo e outro.

Apesar de não terem os fãs numerosos de outras bandas, eles estavam satisfeitos com o público nas apresentações e com a venda de discos, ainda que bem mais modestas que Oasis e Blur, por exemplo, as duas grandes potencias surgidas na música britânica. O sucesso nos Estados Unidos era apoiado por gente famosa. Na turnê do grupo de 1995, Michael Stipe instigava os fãs do R.E.M. a comprarem os discos do Radiohead, mantendo o grupo sempre em posições honrosas nas paradas de sucesso.

No início de 1996, com ajuda do produtor Nigel Godrich nas primeiras quatro músicas, eles começaram a trabalhar no que vira a ser OK Computer – sem pressão da Parlophone, que deu a eles £ 100 mil (em valores atuais, pouco mais de R$ 600 mil) e não cobrou prazo para entrega do trabalho. Como eles não queriam um novo The Bends, quebraram a cabeça para fazer um álbum diferente. Eles não queriam um novo sucesso, queriam fazer algo musicalmente dentro do que imaginavam para o futuro deles nos próximos dez anos.

Mas eles não imaginavam que produzir o próprio disco daria tanto trabalho. Quando ficavam sem ideias para uma música, eles pulavam para próxima, mas havia dias bem ruins porque a coisa não evoluía. Todos trabalhavam juntos, cada um tinha liberdade para desenvolver sua parte como achava melhor, por isso era trabalhoso e estressante. Além disso, todos criticavam uns aos outros abertamente, gerando muitas pausas e interrupções.

Godrich não havia sido chamado para produzir o disco, mas acabou sendo convidado para “dar uma passada lá e ver como as coisas estavam indo”. Dias depois, acabou sendo oficializado como produtor para intermediar as discussões e ajudar o grupo nesse processo de fazer o trabalho ficar mais produtivo e menos enfadonho – desde então, ele é considerado o sexto membro do Radiohead.

A turnê com Alanis Morissette no fim do verão europeu serviu para afinar o repertório que já estava pronto e trabalhar em ideias para retornar ao estúdio em breve. "Paranoid Android" foi assim, saiu de uma faixa de mais de 14 minutos para a pouco mais de seis minutos presente no álbum. A ideia do que viria a ser o disco veio em "Exit Music (For a Film)", composta para trilha de Romeu + Julieta (1997). Foi aí que Thom Yorke percebeu o potencial dele e da banda para fazer algo incrível.

O trabalho recomeçou na St Catherine's Court, uma mansão histórica na Inglaterra, onde o grupo pôde se unir e finalizar o disco. Pelo clima, lugar e missão deles, era como se estivessem trabalhando juntos pela primeira vez. Com a coisa fluindo bem, muitas músicas foram finalizadas em poucos dias. Sem overdubs, algo que eles concordaram em não fazer “para não tirar a naturalidade”, só faltava o arranjo de cordas – feito em Abbey Road, em janeiro de 1997. A mixagem foi feita ao longo de dois meses, porque Godrich trabalhava em uma música por dia, e a capa é uma colagem de imagens feita no computador feito por Thom Yorke usando o pseudônimo The White Chocolate Farm.

Lançado em 21 de maio de 1997, OK Computer foi aclamado pela maioria dos críticos e bem recebido pelo público, que destacaram a mudança de sonoridade e a opção do Radiohead em fazer algo mais artístico e menos comercial. O impacto foi tão gigantesco, que a banda mudou de patamar rapidamente e virou referência no tipo de som apresentado nas 12 canções do álbum. Se nos Estados Unidos a recepção foi fria, apenas a 21ª colocação nas paradas, o Reino Unido abriu os braços para eles ao colocá-los na primeira colocação. Em nove meses, foram vendidas quase dez milhões de cópias no mundo.


Resenha de OK Computer

Inspirada em um acidente de carro que Thom Yorke se envolveu no fim dos anos 1980 que lhe fez pensar em vários aspectos da vida, "Airbag" abre o disco com um riff de guitarra poderoso e uma banda bem afiada para começar bem o novo trabalho. Ao unir vários pedaços de músicas em uma só, o Radiohead compôs uma de suas obras-primas: "Paranoid Android". Estruturalmente, segundo a banda, têm um pouco de Beatles, Queen e Pixies. Primordialmente feita no violão, segue nessa toada até crescer com uma guitarra distorcida de Jonny Greenwood e o vocal gritado de Yorke, retorna para uma parte dramática e fecha agitada novamente. Que música.

O tom de ficção cientifica que toma conta de "Subterranean Homesick Alien" é muito bom de acompanhar, fora o andamento dos instrumentos ao fundo – ainda soa muito fresco e inovador quase 20 anos depois. Faixa que deu a ideia da profundidade do disco, "Exit Music (For a Film)" começa acústica e bem leve e usa elementos interessantes para criar uma atmosfera, como o efeito de um pedal. Yorke encerra a canção quase sozinho, apenas com um pequeno barulho de mar ao fundo.



"Let Down" tem uma parte instrumental especialmente bonita, chegando a ser emocionante – difícil não ficar com lágrimas nos olhos. No fim das contas, a abordagem da letra ajuda a pensar um pouco em certas coisas. E emendar com a excelente "Karma Police", de letra e melodia fantásticas, só prova que o Radiohead estava no auge do amadurecimento musical. O refrão (This is what you get/This is what you get/This is what you get/When you mess with us) grudento emendando com uma voz distorcida dá um teor de sofrimento para quem fez de tudo por alguém e não foi recompensado.

A curta "Fitter Happier" é a canção mais artística do disco, indo mais ao estilo musique concrète (música concreta) – um subgênero que traz um áudio com pouca música ao fundo. É estranha, mas funciona dentro do contexto do álbum. Difere muito da seguinte "Electioneering", pesada e cheia de guitarras altas para dilacerar todo cinismo sobre a política americana dos anos 1990. Um dos sonhos de Jonny Greenwood era trabalhar em uma longa peça em que pudesse usar vários elementos, então nasceu "Climbing Up the Walls". Inspirada na música clássica, a canção tem um vocal muito profundo e acaba trazendo uma sensação ruim depois de ouvi-la.



"No Surprises" entra com um piano bem leve e delicado por quase 30 segundos, quando surge o vocal cantando devagar. Os instrumentos acompanham levemente esse desabafo bem sofrido de alguém já sem esperanças de seguir em frente. Sem alterar nada, chega o refrão e amarra a história toda. Foi gravada em um único take.

Baseada nos conflitos na Sérvia no início dos anos 1990, "Lucky" é pesada, na letra e na pesada melodia com três guitarras. Funciona perfeitamente bem. E "The Tourist", cheia de efeitos e de ritmo lento e melancólico, fecha o disco de maneira brilhante, deixando claro que o Radiohead é uma das melhores bandas da história. E OK Computer merece ser reverenciado por conseguir tratar de assuntos cotidianos de maneira artística e delicada.



Ficha técnica:

Tracklist:

1 - "Airbag" (4:44)
2 - "Paranoid Android" (6:23)
3 - "Subterranean Homesick Alien" (4:27)
4 - "Exit Music (For a Film)" (4:24)
5 - "Let Down" (4:59)
6 - "Karma Police" (4:21)
7 - "Fitter Happier" (1:57)
8 - "Electioneering" (3:50)
9 - "Climbing Up the Walls" (4:45)
10 - "No Surprises" (3:48)
11 - "Lucky" (4:19)
12 - "The Tourist" (5:24)

Gravadora: Parlophone/Capitol
Produção: Radiohead, Nigel Godrich
Duração: 53min27s

Colin Greenwood: baixo, sintetizadores e percussão
Jonny Greenwood: guitarra, teclado, piano, mellotron, órgão, glockenspiel e arranjo de cordas
Ed O'Brien: guitarra, efeitos sonoros, percussão e vocais de apoio
Phil Selway: bateria e percussão
Thom Yorke: vocais, guitarra, piano, efeitos, barulhos e ilustrações



Veja também:
Discos para história: Rain Dogs, de Tom Waits (1985)
Discos para história: Back to Black, de Amy Winehouse (2006)
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