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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Discos para história: Da Lama ao Caos, de Chico Science & Nação Zumbi (1994)


Edição 144 da seção trata do melhor disco lançado no Brasil nos anos 1990

História do disco

Muito do manguebeat nasceu do manifesto escrito por Fred Zero Quatro, vocalista e compositor do Mundo Livre S/A, em julho de 1992. Em um trecho, ele escreve que "hoje, os mangueboys e manguegirls são indivíduos interessados em hip-hop, colapso da modernidade, Caos, ataques de predadores marítimos (principalmente tubarões), moda, Jackson do Pandeiro, Josué de Castro, rádio, sexo não-virtual, sabotagem, música de rua, conflitos étnicos, midiotia, Malcom McLaren, Os Simpsons e todos os avanços da química aplicados no terreno da alteração e expansão da consciência".

Pode parecer confuso, mas, na Recife dos anos 1980 e 1990, estavámos prestes a ver uma das cenas musicais mais interessantes e quentes dos últimos anos. Enquanto o sudeste vivia o auge do rock com estações de rádios e participações em programas populares, Chico Science, Fred Zero Quatro e uma turma muito boa estavam unindo várias referências para criarem uma coisa única em termos de música brasileira: o manguebeat. Mas nada foi fácil, principalmente pela falta de material humano, de pessoas que faziam música a sério.

"Em 1986, 87, era muito fácil localizar músicos no bairro porque era uma coisa altamente escassa – [como] instrumentos e todo tipo de envolvimento com [alguma] banda. Chico ouviu falar de uma banda que ensaiava [...] e ele foi até esse ensaio para ver o que era uma banda tocando. E foi aí que a gente se conheceu. Eu tinha 16 anos", disse o guitarrista Lúcio Maia, em entrevista ao programa 'Som do Vinil', do Canal Brasil.

Mais discos dos anos 1990:
Discos para história: The Miseducation of Lauryn Hill, de Lauryn Hill (1998)
Discos para história: OK Computer, do Radiohead (1997)
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Discos para história: Dirty, do Sonic Youth (1992)
Discos para história: Parklife, do Blur (1994)
Discos para história: Loveless, do My Bloody Valentine (1991)

Por ser uma pessoa com uma ligação sentimental com a música – de qualquer tipo e de boa qualidade – Chico serviu de tutor para abrir os horizontes musicais de muita gente que orbitava por ali. E isso só acrescentou ao que cada um tinha dentro das próprias influências musicais desde sempre. As bandas mais conhecidas da cena local eram Loustal, de rock, e o Lamento Negro, de pegada mais samba misturada com reggae. Tendo Chico como cabeça, veio a ideia de juntá-las em uma coisa só. Arredios, os membros da Loustal não gostaram da sugestão, mas foram adiante. Quando os ponteiros foram acertados, a banda foi para frente com o nome de Nação Zumbi e um objetivo: trabalhar o regionalismo.

A ideia era viver do mangue. Mas o que era o mangue? Chico dizia que "Recife foi construída dentro de um mangue, a gente vive do mangue desde que éramos crianças". No caso, a ideia de mangue era ser um movimento para fincar espaço, divulgar ideias e mostrar senso de coletividade de pessoas. Ainda que diferentes em vários aspectos, tinham os mesmos ideais. "O mangue era um movimento pensado para se tomar espaço. As [duas] bandas têm suas diferenças. A ideia era ter uma ideologia que pudesse marcar presença em determinado mercado", contou Hilton Lacerda, roteirista e designer de capa de Da Lama ao Caos, também ao 'Som do Vinil'.

Quem viu potencial neles foi o produtor Pena Schmidt, que tentou levá-los para gravadora Tinnitus. Mas eles receberam uma proposta ainda melhor da Chaos, braço da Sony, e acabaram fechando com ela – ao receber um bom adiantamento, muitos deles correram para comprar seus primeiros instrumentos de boa qualidade. A ideia era ter o cultuado produtor Arto Lindsay, conhecido por seu trabalho no grupo DNA nos anos 1980, porém a gravadora, com jeitinho, recusou e ofereceu outro nome: Liminha. O rodado produtor, também ex-baixista dos Mutantes, foi bem recebido por Chico e aprovado.

Veja também:
Discos para história: Dois, da Legião Urbana (1986)
Discos para história: Tropicália ou Panis et Circencis, por Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Mutantes e Tom Zé (1968)
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Discos para história: Chega de Saudade, de João Gilberto (1959)
Discos para história: Exile on Main St., dos Rolling Stones (1972)
Discos para história: American Football, do American Football (1999)

Completamente verdes em gravações no estúdio, eles contaram com a paciência e apreço de Liminha. "Era uma pedra bruta a ser polida. Por outro lado, eram muito compenetrados e profissionais. Deram o sangue para fazer o disco. E cresceram na gravação", contou o produtor, em entrevista ao site do jornal 'Diário de Pernambuco', em 2014. Até por isso, gravar as alfaias foi um problema imenso. Ninguém havia feito isso antes – eles foram precursores. Outro problemão: Lúcio Maia teve caxumba e precisou retornar para Recife, então isso gerou uma divisão na gravação: toda percussão e samplers foram gravadas primeiro. Depois ele, Chico, Jorge du Peixe, o produtor Chico Neves e Liminha foram para o estúdio e finalizaram as gravações do que faltava. Foram quase três meses para finalizar todo trabalho.

A ideia da capa foi concebida para ser em vinil, não em CD – formato que ainda engatinhava no Brasil. A ideia era unir o "tosco" ao "elegante" para chamar atenção. Lançado em abril de 1994, o disco não tem apenas um ar de referendo de um movimento, mas da mistura de samba, maracatu, hip-hop, rock e vários gêneros musicais. Por isso, Chico Science & Nação Zumbi foi a melhor coisa na música brasileira nos anos 1990.


Resenha de Da Lama ao Caos (versão do CD)

Tudo que o pessoal já ouvia do grupo estava em "Monólogo ao Pé do Ouvido", mas não deixa de ser um choque para quem ouve pela primeira vez. Muito além do discurso da letra, estamos ouvindo um grupo brasileiro que usa percussão como base do som. Sem parar, emendamos na ótima "Banditismo por Uma Questão de Classe". A pesada guitarra se faz mais presente, enquanto Chico Science soa um MC ao melhor estilo Run-DMC.

Os samplers guiam "Rios, Pontes & Overdrives" e os vocais de apoio ajudam muito a repetir a ideia do mangue. A percussão une tudo isso ao poderoso vocal que traz a mensagem vinda lá da distante Recife. O clássico "A Cidade" fala sobre as injustiças e diferenças entre pessoas que estão dentro da mesma cidade. Tudo isso é embalado por uma mistura de ritmos incrível – quando percebemos, estamos cantando a plenos pulmões. A guitarra de Lúcio Maia guia o ouvinte no refrão melódico de "A Praieira", faixa sobre um dia comum na vida de uma pessoa em Recife naqueles dias – a letra fala sobre ver um grupo dançando na praia durante uma cerveja.



"Samba Makossa" é a união do samba com a makossa, um tipo de música original do Camarões. Imagino a dificuldade em gravar todos os instrumentos porque tem muita coisa junta. E é maravilhoso saber que essa mistura deu certo. O clássico da "Da Lama ao Caos" traz a história de um menino com fome que vai a feira roubar tomate e cenoura, mas uma 'velha' foi lá e pegou a cenoura dele. Esses dois personagens tão diferentes em si só têm isso em comum. Até por isso, ele pensa que se desorganizando pode organizar. Esse clima anárquico é completado pela guitarra suja típica do pós-punk, incluindo um solo incrível na parte final.

A violência é retratada em "Maracatu de Tiro Certeiro", de ritmo pesado e tem Chico dividindo vocais com Jorge du Peixe. Eles homenageiam Mestre Salustiano na instrumental "Salustiano Song", conta as aventuras de um mangueboy em "Antene-se" e trata do amor na tocante e suave "Risoflora". Vejam só como eles transitam de um lado para o outro, da cultura popular local, passando pela violência e crueldade local. É difícil quem faça isso nesse nível tão absurdo. E lembrando: eram iniciantes, quase amadores.



A instrumental "Lixo do Mangue" tem uma agonia e melancolica muito sútil e interessante. Mas a seguinte, "Computadores Fazem Arte", é uma obra-prima da geração do manguebeat. Fred Zero Quatro não só antecipa uma tendência do uso excessivo dos computadores, mas também alerta para gente que leva fama justamente por usar apenas a tecnologia em detrimento do talento – outra que serve bem nos anos 2000 em vários aspectos. Toda essa mistura aparece na última faixa, "Côco Dub (Afrociberdelia)". A canção apontava um caminho para lá de frutífero para Chico Science & Nação Zumbi a partir dali. A morte do líder não acabou com o movimento, apenas mostrou a importância. E tudo começou indo da Lama ao Caos, que soa mais atual do que nunca.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Monólogo ao Pé do Ouvido" (1:07)
2 - "Banditismo por Uma Questão de Classe" (3:59)
3 - "Rios, Pontes & Overdrives" (Chico Science e Fred Zero Quatro) (4:03)
4 - "A Cidade" (4:46)
5 - "A Praieira" (3:36)
6 - "Samba Makossa" (3:03)
7 - "Da Lama ao Caos" (4:31)
8 - "Maracatu de Tiro Certeiro" (Chico Science e Jorge du Peixe) (4:11)
9 - "Salustiano Song" (instrumental) (Chico Science e Lúcio Maia) (1:28)
10 - "Antene-se" (3:35)
11 - "Risoflora" (4:08)
12 - "Lixo do Mangue" (instrumental) (Lúcio Maia) (1:45)
13 - "Computadores Fazem Arte" (Fred Zero Quatro) (3:13)
14 - "Côco Dub (Afrociberdelia)" (6:45)

Todas as canções foram escritas por Chico Science, exceto as marcadas

Gravadora: Chaos/Sony Music
Produção: Liminha
Duração: 50 minutos

Alexandre Dengue: baixo
Canhoto: caixa
Chico Science: voz e samplers em "Lixo do Mangue"
Gilmar Bolla 8 e Gira: alfaia
Jorge du Peixe: alfaia e tonel em "A Cidade"
Lúcio Maia: guitarras
Toca Ogam: percussão e efeitos

Convidados:

André Jungmann: berimbau em "Maracatu de Tiro Certeiro"
Chico Neves: samplers em "Rios, Pontes & Overdrives", "A Cidade", "Samba Makossa", "Antene-se" e "Côco Dub (Afrociberdelia)"
Liminha: grito em "Lixo do Mangue"



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