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quinta-feira, 30 de março de 2017

Discos para história: The Colour and the Shape, do Foo Fighters (1997)


Segundo álbum do grupo completa 20 anos em breve

História do disco

A morte de Kurt Cobain acabou com o Nirvana e, ainda que não propositadamente, colocou um ponto final nos sonhos de uma geração inteira. Mas a vida seguiu para todos, inclusive para os ex-membros do grupo. Se Krist Novoselic optou por sair da indústria musical, Dave Grohl resolveu enxugar as lágrimas e recomeçou a carreira gravando uma fita demo com algumas faixas. Grohl foi ainda mais longe e recrutou Nate Mendel e William Goldsmith para formar uma banda, e ainda chamou o amigo Pat Smear para completar o grupo. Estava pronta a primeira formação do Foo Fighters.

O primeiro álbum não teve muito segredo: era a tal fita de Grohl com um ou outro ajuste em estúdio. Para o segundo álbum, ele teve ajuda dos novos companheiros de estrada. Depois de um ano e meio em turnê, inclusive compondo músicas e as testando ao vivo, os quatro teriam a oportunidade de ver se o entrosamento adquirido nos shows seria tão bom no estúdio de gravação.

Para dar uma polida no som e trazer novas ideias para o novo material, uma mistura de baladas e faixas mais pesadas, Grohl teve a ideia de convidar o produtor Gil Norton para ajudá-los no processo. Por que a escolha? Como as novas faixas tinham melodias mais trabalhosas, o ideal era ter alguém que soubesse trabalhar isso sem tirar o peso. Norton havia trabalhado com o Pixies, então todos entenderam que ele poderia ser o cara ideal nesse novo processo de composição.

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"Eu fiz discos pesados [no início da carreira] e são divertidos, rápidos e há paixão. Mas eu já fiz isso no primeiro disco [do Foo Fighters], e nunca tinha feito um trabalho mais elaborado antes, então por que não? As pessoas simplesmente não parecem fazê-lo mais, então podemos muito bem dar uma chance", disse Dave Grohl, à época do lançamento.

Norton sempre foi muito exigente em estúdio, não sendo diferente com o Foo Fighters. Sem uma formação musical, Goldsmith e Mendel tiveram muita dificuldade em conseguir agradá-lo, então suas partes eram repetidas diversas vezes. No documentário Back and Forth, o baixista conta que essa exigência o fez ir atrás de professores para tentar aprimorar seu estilo. Já Grohl e Smear, de formação punk, tiveram dificuldade em tocar mais devagar – sim, eles não conseguiam fazer o trabalho direito nas composições mais leves.

As gravações começaram em 18 de novembro de 1996, no Bear Creek Studios, no interior de Washington. Como as coisas não estavam andando de maneira adequada, em um acordo entre banda e produtor, rolou uma pausa para as festas de fim de ano. Grohl, em uma confissão a Smear, disse que não estava gostando do resultado, que eles precisavam melhorar ainda mais. No tempo ocioso em casa, o vocalista alugou um estúdio próximo e gravou "Walking After You" e "Everlong" – canções inspiradas no fim de seu relacionamento com sua então namorada. Norton, ao ouvi-las, adorou e percebeu que o álbum precisava girar ao redor dessas duas composições muito especiais.

Por conta disso, eles tomaram uma decisão importante: refazer todo trabalho do zero. Em fevereiro de 1997, no Grandmasters Recorders, em Los Angeles, o Foo Fighters se juntou para regravar algumas partes. Mas nem todos os membros estavam por lá. O baterista William Goldsmith foi excluído dessa reunião por Grohl, que alegava ser melhor para todos se ele gravasse o instrumento – o próprio Grohl contou, no documentário Back and Forth, que era o melhor a fazer naquele momento pelo bem do Foo Fighters.

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Claro, William não gostou nada da decisão. Porque não foi só ser tirado do disco, fizeram isso sem avisá-lo. Ele acabou descobrindo por outros meios que o registro estava sendo regravado. E ainda, quando chegou lá, passava horas no estúdio até ser dispensado. Pouco tempo depois, na primeira grande crise da banda, Grohl ofereceu a ele um lugar como baterista de turnê. William recusou e acabou deixando o grupo. Taylor Hawkins, então baterista da banda de Alanis Morissette, entraria em seu lugar.

Lançado em 20 de maio de 1997, o segundo álbum de estúdio do Foo Fighters rapidamente conquistou os fãs, apesar de a crítica falar em "excesso de polimento da produção". Os singles "Monkey Wrench", "Everlong", "My Hero" e "Walking After You" ganharam as rádios e a MTV. Em um ano, o trabalho venderia mais de dois milhões de cópias, colocando a nova banda de Dave Grohl como uma das sensações do fim dos anos 1990.



Resenha de The Colour and the Shape

Começando o disco com "Doll", o Foo Fighters sinalizava a ideia para um caminho mais suave em algumas faixas neste álbum e nos anos seguintes. Especificamente aqui, Dave Grohl desabafou sobre o fim de um longo relacionamento e sobre não estar emocionalmente pronto para a próxima fase. Curta, serve de introdução para a pancada "Monkey Wrench" – essa sobre estar livre das amarras de um relacionamento ruim em que ele estava sendo manipulado –, uma canção típica da banda.

"Hey, Johnny Park!" é sobre nada, basicamente, mas tem o peso necessário para manter o ritmo da anterior – o nome é uma homenagem a um antigo amigo de Grohl, chamado Johnny Park. Um truque de estúdio a colou com a seguinte, "My Poor Brain", uma faixa de início lento sobre o desejo de mudar a si mesmo que ganha bastante peso no refrão e fica nisso, entre o ar de balada e de punk, até o final. E "Wind Up" traz como Grohl se sente com relação ao tratamento que recebe da imprensa e deixa claro que não quer ser tratado como um astro do rock.

A simples e direta "Up in Arms" é uma canção de amor bem bobinha nas palavras, mas é outra em que Smear e Grohl estão bem afiados na guitarra. Um dos grandes hits da história do Foo Fighters é "My Hero", que homenageia as pessoas comuns, os heróis do dia-a-dia, os que não precisam empunhar uma guitarra para fazerem bem seus respectivos trabalhos. O refrão (There goes my hero/ Watch him as he goes/ There goes my hero/ He's ordinary) é matador e muito grudento, então ser sucesso foi algo natural aqui.



Outra faixa bobinha sobre amor, "See You" tem um ar meio country e quase não entrou no álbum, mas o patrão (Dave Grohl) quis e conseguiu colocá-la, já "Enough Space" nasceu pela necessidade de ter uma potente canção de abertura para as apresentações ao vivo – Grohl queria ver o pessoal pulando logo na abertura. O ritmo do disco muda completamente na ótima balada "February Stars", uma das faixas mais menosprezadas do Foo Fighters. Bonita do início ao fim, a letra romântica usa muito bem de uma metáfora para simbolizar o amor perdido.

"Everlong" foi o segundo single do álbum - e que escolha! Escrita por um Grohl recém-separado, ele a fez em 45 minutos e traz todo sentimento de alguém muito triste e completamente desolado com o fato de ter sido expulso de casa. A faixa não só acabou salvando o disco, como virou o encerramento ideal da maioria das apresentações da banda desde então. E a expulsão é tratada em "Walking After You", uma balada das mais bonitas. E "New Way Home" dá um bom encerramento ao álbum.

The Colour and the Shape é um ótimo álbum, e não foi de graça que esse trabalho colocou o Foo Fighters no caminho do sucesso. Cheio de boas músicas, aqui podemos ver o potencial de Dave Grohl em fazer hits. Por mais que não gostem da banda, é fundamental entender que ela é parte de duas gerações de pessoas identificadas com as letras. Muito disso começou aqui.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Doll" (1:23)
2 - "Monkey Wrench" (3:51)
3 - "Hey, Johnny Park!" (4:08)
4 - "My Poor Brain" (3:33)
5 - "Wind Up" (2:32)
6 - "Up in Arms" (2:15)
7 - "My Hero" (4:20)
8 - "See You" (2:26)
9 - "Enough Space" (Grohl) (2:37)
10 - "February Stars" (4:49)
11 - "Everlong" (Grohl) (4:10)
12 - "Walking After You" (Grohl) (5:03)
13 - "New Way Home" (5:40)

Todas as faixas foram compostas por Dave Grohl, Nate Mendel e Pat Smear, exceto as marcadas

Gravadora: Roswell/Capitol
Produção: Gil Norton
Duração: 46min47s

Dave Grohl: vocais, guitarra e bateria
Pat Smear: guitarra
Nate Mendel: baixo

Convidados:

William Goldsmith: bateria em "Doll", "Up in Arms" e "My Poor Brain"
Lance Bangs, Chris Bilheimer e Ryan Boesch: palmas em "See You



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