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sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Discos para história: “Heroes”, de David Bowie (1977)


A 113ª edição do Discos para história homenageia David Bowie, morto nesta semana. Na dúvida entre qual álbum escrever, resolvi falar sobre o segundo trabalho da chamada Trilogia de Berlim.

História do disco

David Bowie teve sérios problemas com drogas durante os anos 1970. A aparência esquelética não era apenas charme, era efeito de cocaína e bebida que o deixavam dias sem comer algo sólido. Um incidente em que alegaram que ele estava fazendo a saudação nazista, então isso gerou um nó na cabeça do cantor. Cansado, resolveu sair de Londres e buscar um refúgio em outro lugar na Europa para escapar desse tipo de incômodo e tentar largar as drogas.

Em 1976, mudou-se para Suíça, lugar em que começou a fazer outras coisas além da música – pintura e fotografia foram as escolhas iniciais. Também se dedicou a colecionar quadros e a escrever, de peças a uma autobiografia, enquanto o consumo diário de cocaína diminuía drasticamente em sua vida. Ainda visando deixar completamente o uso de qualquer droga, Bowie tomou a decisão que afetaria sua carreira para sempre: mudou-se para Berlim Ocidental no final do mesmo ano.

A mudança também se deu por um fator que Bowie levou em toda sua vida: ajudar amigos e ídolos em dificuldade. Foi assim com Lou Reed no início da década, foi assim com Iggy Pop. Para ajudar o ex-vocalista do Stooges a se livrar do uso pesado de cocaína, muito mais que o seu, ele estava disposto a morar com ele, funcionando no esquema ‘um vigia o outro’. O que também moveu Bowie foi o interesse no krautrock, principalmente nos grupos Kraftwerk e Neu! – dois grupos de música eletrônica interessantíssimos e que influenciariam toda uma geração seguinte.

O início da Trilogia de Berlim começou com Low, lançado no início de janeiro de 1977. Depois, o trabalho foi na produção de The Idiot e Lust for Life, dois discos solos de Iggy Pop que recolocaram a carreira do cantor no eixo para ser celebrado como um dos pais do punk. Nesse meio tempo, ele resolveu sair do minimalismo do primeiro disco para colocar um pouco mais de força no que viria a ser “Heroes”. Era o segundo trabalho que refletia a tristeza da cidade dividida em duas por um muro.



Gravado no Hansa Tonstudio, o local era vigiado por guardas da antiga União Soviética por estar apenas a alguns metros do Muro de Berlim. E foi com Tony Visconti, companheiro quase inseparável, que Bowie trabalho em “Heroes”, nome em uma homenagem ao Neu!. Quem também trabalhou nesse disco foi Brian Eno – a parceria começou em Low e continuou nos dois discos seguintes feitos em Berlim. E não só trabalhou nos ajustes das músicas, também ajudou na composição da faixa-título, um dos grandes sucessos de Bowie até hoje.

A grande surpresa do disco é a presença do guitarrista Robert Fripp. Considerado aposentado depois de um dos muitos fins do King Crimson, ele foi convencido por Visconti a viajar até a Alemanha Ocidental para tocar no disco. “Estava parado há três anos, era um aposentado. Disse a ele: ‘se você assumir o risco, você pode contar comigo’. Ele disse que sim, e eu fui”, contou. Já Eno afirmou que o trabalho nesse segundo disco concebido na Alemanha foi muito mais difícil do que o primeiro. "Foi muito mais difícil do que trabalhar em ‘Heroes’ do que em Low", disse Eno à 'NME'. "A coisa toda, com exceção de ‘Sons of the Silent Age’ escrita de antemão, evoluiu no estúdio", explicou.

Ele também contou de alguns hábitos de Bowie no estúdio naquela época. "Ele entra em um estado muito peculiar quando ele está trabalhando. Ele não come. Me soa muito comum que duas pessoas relativamente bem estariam em casa cambaleando às seis da manhã [depois de um dia duro de trabalho quase sem comer], enquanto ele quebrava um ovo cru na boca, sua comida daquele dia, praticamente [para seguir no estúdio]", falou.

‘There's Old Wave. There's New Wave. And there's David Bowie’ foi o slogan feito pela RCA para divulgação de “Heroes”, então 12º disco de estúdio do cantor. Lançado em 14 de outubro de 1977, o trabalho chegou ao terceiro lugar nas paradas no Reino Unido, mas não entrou no top-20 nos Estados Unidos – ficou na 35ª posição. Mesmo assim, 'Melody Maker' e 'NME' o elegeram o melhor disco daquele ano. Mais um ótimo trabalho de um grande nome da música.


Resenha de “Heroes”

Weaving down a byroad, singing the song/That's my kind of highroad gone wrong/My-my/Smile at least/You can't say no to the Beauty and the Beast. E assim David Bowie começava seu então novo disco, com uma canção agitada, cheia de overdubs por parte de Brian Eno e da guitarra de Robert Fripp. Inspirada nos tempos em que morava em Los Angeles e enchia o nariz de cocaína, a faixa é um belo início do que estava por vir. “Joe the Lion" é a continuação do trabalho feito em Low. Totalmente inspirada no krautrock, a canção é bem emocional e tem, mais uma vez, a guitarra primorosa de Fripp, agora mais limpa e clara aos ouvidos menos treinados.

Escrita por Bowie e Eno, “‘Heroes’” virou um clássico da música mundial pela letra simples e melodia fácil. Instrumental até os dias finais de gravação, ela ganhou uma letra romântica – por isso o título entre aspas, uma fina ironia da dupla de compositores. Aliás, a letra foi inspirada no caso de Tony Visconti e a vocalista de apoio Antonia Maass, revelado apenas em 2003. O trecho standing, by the wall (by the wall)/And the guns, shot above our heads (over our heads) foi tirado de um momento dos dois perto do Muro de Berlim enquanto eram vigiados pelos guardas da Alemanha Oriental. Já a melodia é mérito de Eno, que construiu sua famosa Parede Sonora cheia de sintetizadores, guitarras, baixo, bateria, piano e efeitos no microfone. É uma verdadeira aula de como se fazer uma música de letra simples ganhar uma conotação e força incríveis.



Por uma questão de praticidade, faltou pouco para "Sons of the Silent Age" ser o nome do disco. Única letra pronta quando o trio Bowie, Visconti e Eno se encontrou no estúdio, não deu muito trabalho, e isso é mostrado ao longo dos pouco mais de três minutos – Bowie toca saxofone nela. O lado A é fechado com a obscura "Blackout". Beirando o industrial, ela traz um cantor falando sobre energia, segundo ele próprio. Mas biógrafos afirmam que a letra fala sobre o dia em que ele desmaiou e foi levado ao hospital.

O lado B começa com a (quase toda) instrumental "V-2 Schneider", uma homenagem a Florian Schneider, do Kraftwerk, e ao míssil V-2, o primeiro desenvolvido pelo programa alemão durante a Segunda Guerra Mundial. O interessante é perceber que a base é o saxofone tocado por Bowie, e a letra se resume a falar o título da canção algumas vezes. Por mais incrível que possa parecer, ela fez sucesso na Alemanha ao ser lançada como lado B de “'Heroes’”.



Beirando o ambient ao melhor estilo Brian Eno, "Sense of Doubt" é sombria, pesada e muito artística. Se fosse uma obra de arte, seria da época do Expressionismo Alemão dos anos 1920. A continuação do estilo segue em "Moss Garden”, momento do disco em que Bowie toca um koto, instrumento de corda de origem japonesa. Amarrando um trio de canções pesadas instrumentais, "Neuköln" é o encerramento ideal ao levar o nome de um bairro alemão no título.

O álbum acaba na ótima "The Secret Life of Arabia", única canção não escrita por Bowie e/ou Eno. Ela tem a ótima guitarra de Carlos Alomar, outro colaborador fundamental na construção da carreira de Bowie. E essa última mostra o lado mais humorado do cantor depois de três momentos pesados, que conseguiu absorver como poucos a alma de uma cidade e traduzir em música. Um trabalho fundamental para entender o que era Berlim nos anos 1970.



Ficha técnica:

Tracklist:

Lado A

1 - "Beauty and the Beast" (3:32)
2 - "Joe the Lion" (3:05)
3 - ""Heroes"" (Bowie, Brian Eno) (6:07)
4 - "Sons of the Silent Age" (3:15)
5 - "Blackout" (3:50)

Lado B

6 - "V-2 Schneider" (3:10)
7 - "Sense of Doubt" (3:57)
8 - "Moss Garden" (Bowie, Eno) (5:03)
9 - "Neuköln" (Bowie, Eno) (4:34)
10 - "The Secret Life of Arabia" (Bowie, Eno, Carlos Alomar) (3:46)

Todas as músicas foram escritas por David Bowie, exceto as marcadas.

Gravadora: RCA
Produção: David Bowie, Tony Visconti
Duração: 40min36s

David Bowie: vocais, teclado, guitarra, saxofone, koto e vocais de apoio
Carlos Alomar: guitarra
Dennis Davis: bateria e percussão
George Murray: baixo
Brian Eno: sintetizadores, teclado, guitarra
Robert Fripp: guitarra
Tony Visconti: vocais de apoio
Antonia Maass: vocais de apoio



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