No YouTube

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Discos para história: Murmur, do R.E.M. (1983)


A 107ª edição do Discos para história fala sobre a estreia do R.E.M. em estúdio, que mostrou ao mundo o poder e força de uma das melhores bandas do chamado rock alternativo da história.

História do disco

Uma banda que tem o nome escolhido na sorte tem tudo para dar errado, certo? No caso do R.E.M., que nada mais é do que a sigla de rapid eye movement (movimento rápido dos olhos, estágio do sono em que os sonhos parecem reais e a sensação é de estar acordado), a frase inicial não se encaixa. Michael Stipe conheceu Peter Buck em uma loja de discos na Georgia, local de trabalho do futuro guitarrista da banda ainda por nascer.

O gosto em comum por Patti Smith, Television e Velvet Underground foi descoberto ao acaso, quando Stipe iria comprar um álbum, mas a última edição estava reservada para Buck. O início da parceria estava começando, apesar de não haver nenhum ponto em comum para começá-la de fato. Isso mudaria no início da primavera de 1980, quando os dois conheceram os estudantes da Universidade da Georgia Mike Mills e Bill Berry, esses parceiros musicais desde o colégio.

Em comum, o gosto por música alternativa e new wave, um rápido papo e a junção dos quatro em um grupo de garagem ainda sem nome, projeto em início por parte de Mills e Berry, que aceitaram os dois novatos. Twisted Kites e Negro Wives foram algumas das tentativas, todas descartadas por serem péssimas ou ainda piores do que as duas citadas. Stipe foi ao dicionário e chutou uma página qualquer. Saiu R.E.M. e assim ficou. Logo, Stipe e Buck abandonaram a escola e focaram seus esforços na banda, recompensados com o aparecimento do empresário Jefferson Holt – impressionado por um show deles na Carolina do Sul, ele abandonou sua loja de discos para cuidar da carreira dos quatro.

Atenas, capital da Georgia, ficou pequena para o sucesso do R.E.M. De iniciantes, rapidamente eles estavam ocupando as melhores casas e horários da cidade, muito beneficiados pela falta de uma cena de rock alternativo local. Era meio que o lugar certo e a hora certa para aparecer alguém do estilo deles. E na base da raça, fizeram uma excursão por todo sul dos Estados Unidos, também um local sem uma cena específica para o tipo de proposta musical desse novo grupo.

No verão (no hemisfério norte) de 1981, a oportunidade para gravar um single apareceu no Drive-In Studios, de Mitch Easter, na Carolina do Sul, prometido para sair pela gravadora independente Hib-Ton em mil cópias. A música escolhida? "Radio Free Europe". As vendas? Todas as cópias acabaram rapidamente. A crítica? Adorou, e o jornal The New York Times o colocou na lista de dez melhores singles daquele ano.

Sobre o trabalho em equipe, Mike Mills explicou como isso funcionava em uma entrevista logo depois do fim do grupo, em 2011. “Quando começamos, me lembro de falar: ‘quem escreve as canções deve receber o crédito’. E Peter [Buck] retrucou: ‘Não, todos serão creditados da mesma forma, porque isso é o que dá briga e acaba com as bandas. Dinheiro não vai nos separar. Claro, então todos contribuíram nesse processo: [o baterista] Bill [Berry], Peter e eu escrevíamos a música, e Michael fazia as letras e melodias. E, em seguida, Bill e eu fazíamos os vocais de apoio, e Bill fazia a percussão no final. Por isso, foi uma ótima ideia de Peter insistir para dividirmos as composições. Foi ótimo mesmo, porque todos contribuíam de alguma forma no processo”, contou.

O mesmo estúdio foi usado para gravar o Chronic Town EP em outubro de 1981 e estava tudo certo para sair pela Dasht Hopes. Enquanto isso, a RCA e a I.R.S. disputavam palmo a palmo quem assinaria com o R.E.M. primeiro. A segunda ganhou por ter ajudado a financiar a primeira sessão de gravação do disco, feita ainda na páscoa. O primeiro trabalho de inéditas foi considerado um sucesso, elogiado pela crítica e abriu as portas do mercado para o grupo, que agora gerava expectativa por um disco cheio.

Eles começaram a trabalhar com o produtor Stephen Hague no disco, mas nada andava do jeito que a banda queria, porque ele achava os quatro um bando de amadores e queria colocar solos de guitarra, sintetizadores e tudo mais que o R.E.M. simplesmente não queria por achar um absurdo se sujeitarem a palpites sobre como fazer ou não suas próprias canções. Os quatro reclamaram e a gravadora os autorizou a retornarem para casa e gravarem algo por lá.

Foi aí que entraram Don Dixon e Mitch Easter novamente na vida do grupo. A dupla pouco interferia no processo criativo e só entrava em ação para corrigir alguma coisa – por exemplo, um instrumento fora do lugar ou um vocal de Stipe que havia ficado inferior ao que ele fazia normalmente. A intenção era criar um disco atemporal, que não refletisse uma época, e os pensamentos do grupo como um todo.

Lançado em abril de 1983, Murmur chegou ao posto número 36 da parada americana e foi aclamado pela crítica, diferente da recepção fria do público – o disco vendeu pouco mais de 200 mil cópias até o final daquele ano, informação recebida como ‘abaixo das expectativas’ por parte da gravadora. Hoje, o disco é considerado um dos grandes trabalhos dos anos 1980, uma das melhores estreias de uma banda iniciante no quesito crítica e é um belo cartão de visita para um dos grupos mais importantes da história.


Resenha de Murmur

Até hoje, muita gente não entende direito o significado da letra de "Radio Free Europe". Na primeira versão, a lançada no EP em 1981, a banda está mais visceral, quase punk; na lançada no disco, optou-se por um andamento mais calmo por entenderem o imenso potencial de single. Eles lançaram, mas não gostaram. O interessante da faixa é perceber que, apesar de relutarem em fazer um disco com ares de anos 1980, a pegada new wave e pós-punk é muito presente do início ao fim.

A suave "Pilgrimage" trouxe uma banda bem reflexiva. À época, apesar da pouca idade, o R.E.M. já conseguia fazer esse tipo de letra (Speakin' in tongues, it's worth a broken lip/Your hate clipped and distant, your luck/Rest assured this will not last, take a turn for the worst/Your hate clipped and distant, your luck two-headed/The pilgrimage has gained momentum/Take a turn, take a turn/Take our fortune, take our fortune), enquanto "Laughing" tem uma linha de baixo espetacular em uma das muitas letras que exigem do ouvinte a capacidade de tentar adivinhar o tema.



"Talk About the Passion" é dessas não recomendadas para quem saiu de um relacionamento recentemente, e a interpretação de Michael Stipe é muito, muito acima da média – assim como ele mostraria capacidade de transformar algumas de suas mais populares composições ao longo dos anos seguintes. A guitarra de "Moral Kiosk" é empolgante, dançante e deve ter embalado muitos jovens no início dos anos 1980, já a tocante "Perfect Circle" não significa nada, segundo a banda, mas é dessas letras que significam muita coisa.



Nem mesmo o R.E.M. escapa do anseio adolescente, e isso é mostrado na simples "Catapult", um ótimo punk acústico (vamos categorizar assim). A seguinte, "Sitting Still", tem um quê de folk rock, mas o que chama mai a atenção é a forma como ela é estruturada – a banda responde aos vocais rapidamente, como uma canção dos anos 1960, por exemplo. A dor gera música boas, principalmente quando há compositores capazes de trabalhá-la bem, exatamente o que acontece na excelente "9–9" (também de andamento veloz).

"Shaking Through" também tem um pouco de anos 1980, principalmente pelo piano insistente, porém na vai na mosca ao conseguir, mais uma vez, colocar o pessoal para dançar mais uma vez. A bonitinha "We Walk", o início desse tipo de música por parte da banda, antecede a lírica e "West of the Fields", que encerra dizendo Dreams of Elysian, to assume are gone when we try/Tell now what is dreaming when we try/Listen through your eyes when we die. Assim acaba a estreia do R.E.M., assim começou a história dessa banda espetacular.



Ficha técnica:

Tracklist:

Lado A

1 - "Radio Free Europe" (4:06)
2 - "Pilgrimage" (4:30)
3 - "Laughing" (3:57)
4 - "Talk About the Passion" (3:23)
5 - "Moral Kiosk" (3:31)
6 - "Perfect Circle" (3:29)

Lado B

7 - "Catapult" (3:55)
8 - "Sitting Still" (3:17)
9 - "9–9" (3:03)
10 - "Shaking Through" (4:30)
11 - "We Walk" (3:02)
12 - "West of the Fields" (Berry, Buck, Mills, Stipe, and Neil Bogan) (3:17)

Todas as canções foram escritas por Bill Berry, Peter Buck, Mike Mills e Michael Stipe, exceto a marcada.

Gravadora: I.R.S
Produção: Don Dixon, Mitch Easter
Duração: 44min11s

Bill Berry: bateria, vocais de apoio, percussão, baixo e piano
Peter Buck: guitarra
Mike Mills: baixo, vocais de apoio, piano e bateria
Michael Stipe: vocais e vocais de apoio



Veja também:
Discos para história: Rubber Soul, dos Beatles (1965)
Discos para história: Yoshimi Battles The Pink Robots, do Flaming Lips (2002)
Discos para história: Whatever People Say I Am, That's What I'm Not, do Arctic Monkeys (2006)
Discos para história: Crosby, Stills & Nash, de Crosby, Stills & Nash (1969)
Discos para história: Purple Rain, de Prince and The Revolution (1984)
Discos para história: Time Out of Mind, de Bob Dylan (1997)
Discos para história: Elvis Presley, de Elvis Presley (1956)

Gostou do conteúdo? Compartilhe nas redes sociais! Isso ajuda pra caramba o blog a crescer e ter a chance de produzir mais coisas bacanas.