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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Discos para história: A Tábua de Esmeralda, de Jorge Ben (1974)


A 111ª edição do Discos para história fala sobre um clássico da música brasileira: A Tábua de Esmeralda, considerado por muitos o melhor álbum gravado por Jorge Ben Jor.

História do disco

Jorge Ben, hoje com um Jor, tentava a sorte na música na mesma época que Tim Maia, Roberto e Erasmo Carlos, Wanderléa, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola e outros nomes da música brasileira que virariam gigantes nos anos seguintes. Em Samba Esquema Novo, de 1963, ele explodiu e até inventou um subgênero, o samba-rock. A coletânea Dez Anos Depois, de 1973, já o consagrava como um dos grandes nomes de sua geração. Mas, usando um clichê batido, era estava inquieto para fazer musicalmente mais coisas.

Em 1974, era um tempo difícil para se fazer música. A censura ficava em cima para controlar qualquer letra mais política, então partir para algo mais místico acabou sendo um caminho interessante para nomes como Tim Maia (o primeiro disco da chamada Era Racional foi gravado nesse ano e lançado no seguinte) e Raul Seixas (Gita também é desse ano e é da mesma gravadora). Porém ainda era uma novidade, principalmente para um cantor de sucesso. A gravadora estava interessada em apenas uma coisa: vender milhares ou milhões de cópias de seus LPs. Por isso, apresentar esse tipo de proposta era uma ousadia e tanto para qualquer um – até mesmo Jorge Ben.


Talvez a necessidade de se autoafirmar em alguma coisa era necessária, então ele foi até a Philips (pouco tempo depois, Polydor) com essa ideia. Claro, foi vetado logo de cara. Mas ele teve o apoio de André Midani, gerente da gravadora, que apostou alto no potencial de Jorge Ben no novo trabalho. Além de apostar em algo completamente diferente, ele também colocou na reta outra coisa: a temática do disco. Àquela época, ninguém tinha a menor ideia do que era alquimia ou qualquer coisa relacionada ao assunto.

A Tábua de Esmeralda é o texto mais importante da alquimia, porque ninguém chegou a ver a tábua de fato, então o nome é muito mais uma simplificação dos preceitos e ensinamentos dessa arte oculta do que um possível tesouro a ser procurado, como explica a escritora, filósofa e fundadora da Sociedade Teosófica Helena Blavatsky (1831 – 1891).

“A tradição declara que junto ao cadáver de Hermes, em Hebron, um Iniciado, um Isarim, encontrou a tábua conhecida como Smaragdine. Ela expressa, em poucas frases, a essência da sabedoria hermética. Para quem a lê apenas com seus olhos corporais, os seus preceitos não sugerem nada novo ou extraordinário, porque ela começa simplesmente afirmando que sua mensagem não fala de coisas fictícias, mas daquilo que é verdadeiro e seguro.”

Os anos 1970 foram intensos para exploração de filosofias diferentes das pregadas no ocidente. Jimmy Page partiu para o ocultismo propagado por Aleister Crowley, os cantores já citados para lados diferentes e Jorge Ben para a filosofia que usa elementos químicos para falar sobre vida e morte. E todos eles fizeram discos brilhantes no período. E todos eles renegam/renegaram esse pedaço de suas vidas até hoje.

Depois desse disco, Jorge Ben abriria mão do violão em seus discos de estúdio. Ele mesmo explica: "O sensor de violão que a gente usava não existe mais. Hoje, o som sai limpo, sem aquela respiração. Para gravar, é difícil. Vou tentar fazer, mas sei que naquele som do Tábua de Esmeraldas não dá mais para chegar”, disse ele, em entrevista à edição brasileira da Revista Rolling Stone.

Claro, soa uma imensa desculpa para não tocar mais esse clássico da música brasileira. Nem importa muito. O que importa ele fez há pouco mais de 40 anos, um dos álbuns mais fantásticos já feitos no Brasil.


Resenha de A Tábua de Esmeralda

O quê de ao vivo de "Os Alquimistas Estão Chegando Os Alquimistas", cheia de suingue e ginga tipicamente de Jorge Ben, abre o disco. É aquele tipo de música de tom religioso que todo cantor deseja fazer: uma letra tão comum e acessível, que a pessoa canta sem perceber o assunto. Tudo flui naturalmente na abertura, um trabalho e tanto em um das músicas mais populares do Brasil.

Um dos químicos e alquimista mais famosos do mundo, Paracelso (Philippus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim) ganhou seu pedaço no disco em "O Homem da Gravata Florida (A Gravata Florida de Paracelso)" no tipo de canção bem-humorada e cheia de ritmo que caracterizaram a discografia do cantor e compositor ao longo dos anos. E ainda existe o fato de ela ser recheada de efeitos, beirando a psicodelia, o que acontece de fato "Errare Humanum Est" (Errar é humano, mas perseverar no erro é diabólico, uma das muitas frases de Santo Agostinho). Aqui, fica mais claro o envolvimento de Jorge Ben com os ensinamentos da alquimia.



Saindo do assunto alquimia e Tábua de Esmeralda, "Menina Mulher da Pele Preta" recoloca o cantor no caminho do samba em uma canção que conta uma bela história (Essa menina mulher da pele preta/Dos olhos azuis, do sorriso branco/Não está me deixando dormir sossegado/Será que ela não sabe que eu fico acordado/Pensando nela todo dia, toda hora/Passando pela minha janela todo dia, toda hora/Sabendo que eu fico a olhar/com malícia) e, mantendo o ritmo brasileiro no embalo, "Eu Vou Torcer" virou uma espécie de hino para celebrar as belezas do Brasil – cheio de ritmo, é dançante até o último fiapo. O lado A fecha com outra declaração à mulher brasileira: "Magnólia" (Já consultei os astros/Ela chega na primavera/Ela já se encontra a caminho/Voando numa nave maternal dourada/Linda e veloz feita de um metal miraculoso/Com janelas de cristal/E forro de veludo rosa/Rosa).

Abrindo o lado B, "Minha Teimosia, Uma Arma pra te Conquistar" é a quarta faixa seguida sobre uma mulher, um samba-rock do mais alto nível. O curioso é que, depois de um tema pesado e reflexivo, Jorge Ben partiu para algo relaxante, amoroso e bem brasileiro ao explorar quase tudo que havia sido feito, por ele e outros, no período de dez anos da música brasileira – do rock simpático da Jovem Guarda, passando por Wilson Simonal até Novos Baianos. "Zumbi".



As raízes negras são trazidas em "Zumbi", de absurda influência da África, principalmente de Angola e do Congo. Além de um ótimo vocal, a parte instrumental está muito bem estruturada e tudo funciona muito bem, enquanto "Brother" é outro hino religioso, esse bem mais gospel que o anterior – e cantado todo em inglês. Dizem que "O Namorado da Viúva" é sobre Nicolau Flamel ter se casado com uma viúva por três vezes e rica, por isso a letra até brinca sobre o assunto sem citar o nome de ninguém. De imensa habilidade para escrever uma letra, Jorge Ben fez uma música em que qualquer um pode identificar um caso conhecido e/ou parecido. Coisa de gênio.

Retornando ao assunto do início do álbum, "Hermes Trismegisto e sua Celeste Tábua de Esmeralda” é uma bela explicação sobre os preceitos da Tábua da Esmeralda de maneira muito leve e quase despreocupada. O fim do disco reserva uma das melhores gravações já feitas em estúdios brasileiros. "Cinco Minutos (5 minutos)" é aquele momento em que Jorge Ben e a banda pareciam ser uma coisa só, muito mais do que uma banda de jazz que toca junto há 40 anos. É algo muito maior do que homens tocando música. É quase transcendental. É uma alquimia musical como poucos conseguiram entregar em anos de carreira. É o encerramento ideal para uma obra-prima.



Ficha técnica:

Tracklist:

Lado A

1 - "Os Alquimistas Estão Chegando Os Alquimistas" (3:14)
2 - "O Homem da Gravata Florida (A Gravata Florida de Paracelso)" (3:05)
3 - "Errare Humanum Est" (4:50)
4 - "Menina Mulher da Pele Preta" (2:57)
5 - "Eu Vou Torcer" (3:15)
6 - "Magnólia" (3:14)

Lado B

1 - "Minha Teimosia, Uma Arma pra te Conquistar" (2:41)
2 - "Zumbi" (3:30)
3 - "Brother" (2:54)
4 - "O Namorado da Viúva" (2:03)
5 - "Hermes Trismegisto e sua Celeste Tábua de Esmeralda” (Tratado Hermético Escrito pelo Faraó Egípicio Hermes Trimegisto e Traduzido por Fulcanelli) (Fulcanelli/Jorge Ben (5:30)
6 - "Cinco Minutos (5 minutos)" (2:56)

Todas as canções foram escritas por Jorge Ben, exceto a marcada.

Gravadora: Philips
Produção: Paulinho Tapajós
Duração: 40min

Jorge Ben: violão e vocais

Convidados:
Osmar Milito, Darcy de Paulo e Hugo Bellard nos arranjos



Veja também:
Discos para história: My Generation, do The Who (1965)
Discos para história: Doolittle, do Pixies (1989)
Discos para história: Tonight's the Night, de Neil Young (1975)
Discos para história: Murmur, do R.E.M. (1983)
Discos para história: Rubber Soul, dos Beatles (1965)
Discos para história: Yoshimi Battles The Pink Robots, do Flaming Lips (2002)
Discos para história: Whatever People Say I Am, That's What I'm Not, do Arctic Monkeys (2006)

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