No YouTube

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Discos para história: Doolittle, do Pixies (1989)


A 109ª edição do Discos para história fala de um dos clássicos dos anos 1980 e da música alternativa: Doolittle, do Pixies. Se Surfer Rosa não havia entrado nas paradas, o segundo trabalho de estúdio mudou o patamar do grupo.

História do disco

As boas críticas para Surfer Rosa surtiram efeito no andamento da carreira do Pixies, mesmo sendo um fracasso comercial nos dois lados do Oceano principalmente na Europa, local em que a banda fez sucesso e atingiu bons lugares nas paradas – o Reino Unido abraçou o grupo de uma maneira que os Estados Unidos nunca fizeram. E enquanto isso, Black Francis trabalhava em novas letras para um futuro disco.

Pouco antes de 1988 chegar ao fim, a banda foi até Boston para gravar uma demo no estúdio Eden Sound, que ficava atrás de um salão de cabeleireiro. O estúdio apertado lembrava as péssimas condições de gravação do disco anterior. Ao finalizar o trabalho, a banda apresentou algumas canções para o empresário Ken Goes e, quase instantaneamente, indicou Gil Norton ou Ed Stasium para ser o produtor.

Norton já havia trabalhado com eles meses antes e tinha a preferência de da gravadora 4AD. No fim das contas, o inglês levou o posto e Stasium nem chegou a ouvir alguma coisa. E por que é importante saber isso? Norton fez uma coisa que determinou o que seria Doolittle: um som bem mais limpo e audível do que o trabalho anterior. Ao chegar em Boston, o produtor ficou horas reunido com Francis para conhecer um pouco mais o Pixies e ouvir os arranjos das músicas. Ele ficou mais duas semanas ouvindo material e se preparando para entrar em estúdio.

Todos se juntaram no final de outubro para gravar, e a gravadora disponibilizou US$ 40 mil para serem usados no novo álbum – quatro vezes o valor gasto no anterior. Era dinheiro de pinga se comparado com Michael Jackson, Prince ou qualquer outro figurão dos anos 1980, mas era uma montanha quase inatingível para uma banda independente. Com tanto dinheiro e um produtor bom nas mãos, o Pixies queria era fazer o trabalho o mais rápido e com maior qualidade possível.

O trabalho entre Norton e o Pixies foi muito bem. Nada de brigas, ao contrário, as sugestões do produtor eram levadas em conta por parte dos quatro. Sutis mudanças de arranjos, nas letras e pequenas coisas que fizeram a diferença no disco eram postas na mesa diariamente, sendo bem aceitas por todos. Apesar de achar que ele queria tornar o grupo comercial, nenhum dos quatro abandonou o lado mais sujo do rock alternativo.

As gravações terminaram em 23 de novembro e a pós-produção começou cinco dias depois, indo até quase a metade do mês seguinte, só para acertar pequenos detalhes, colocar reverb e ampliar alguns efeitos. Mas um rolo com contratos assinados durante a turnê de 1988 impediria o lançamento do disco no primeiro trimestre de 1989.

Mesmo com contrato com a gravadora inglesa 4AD, a banda assinou com a Elektra para distribuir o então próximo LP nos Estados Unidos. Só que um problema acabou atrasando o planejamento, sendo fechado apenas duas semanas antes do lançamento oficial de Doolittle. Lançado no Reino Unido em 17 de abril de 1989, um dia depois nos Estados Unidos, foi impulsionado pelo bom trabalho de marketing da Elektra, também ajudado pelo sucesso do single "Monkey Gone to Heaven". O álbum bateu o oitavo lugar das paradas britânicas, considerado um sucesso absoluto. Doolittle é um disco muito bom e mostra a importância do Pixies para qualquer um que goste de música.


Resenha de Doolittle

O Pixies abriu o trabalho com a ótima "Debaser", inspirada no filme de Luis Buñuel e Salvador Dalí chamado Um Cão Andaluz, e Black Francis já mostrava uma disposição a trabalhar referências um tanto estranhas nas (boas) letras. Apesar de ser uma música de ar sujo, há um quê de limpeza nela que não havia nos discos – cheios ou não – anteriores. Com menos de dois minutos, "Tame" destaca a linha de baixo de Kim Deal e os berros de Francis no vocal.

Aliás, seria praxe na carreira da banda fazer canções entre dois minutos e dois minutos e meio, e isso era uma ideia de Francis que, fã de Buddy Holly, acreditava fielmente que poderia passar qualquer mensagem no curto período de tempo. Como na ótima "Wave of Mutilation", de guitarras pesadas e ótimos vocais, uma das muitas que ganhou o coração dos fãs sem ter sido lançada em um single.



Mais melódica, "I Bleed" Deal divide os vocais com Francis até a parte instrumental, quando cada um dá seu show particular. Eles retomam e encerram, e logo começam o clássico "Here Comes Your Man". Apesar de ser a canção mais pop da história do grupo, até mesmo renegada por seu compositor – que a fez aos 15 anos –, ela é um daqueles arrasa quarteirão do início ao fim. Do primeiro verso ao refrão, tudo se encaixa e faz sentido. Não há excessos, não há nada a ser acrescentado. É uma das melhores canções da história do rock e uma lição para quem deseja fazer algo pop sem deixar suas raízes de lado.

Para compensar, a loucura do rock alternativo volta com tudo em "Dead" e sua letra sem sentido, apesar de ter uma boa melodia na segunda metade. E não bastava ter uma faixa excelente, tinha que ter duas. "Monkey Gone to Heaven" é outra que 90% dos compositores dariam um braço para tê-la escrito, porque é cheia de referências religiosas, numerologia, é bem estruturada, tem um ótimo quarteto de cordas dando apoio ao riff da guitarra, Francis está ótimo no vocal e tem um refrão matador (If man is five/Then the devil is six/And if the devil is six/Then god is seven).



O início reggae de "Mr. Grieves" engana bem o ouvinte até a melodia ganhar tons animados – é a continuação da anterior, no caso, falando do relacionamento com o divino que o personagem principal tem. E a agitada "Crackity Jones" beira o punk de tão rápida e rasteira, e "La La Love You" é outra que ganhou o título de clássica – o vocal de David Lovering está muito bom nessa canção que lembra a adolescência de muita gente.

Kim Deal aparece sozinha no vocal na ótima "No. 13 Baby". Aqui, para quem gosta de baixo, é uma ótima chance de ouvir e conhecer melhor o instrumento, o carro-chefe do início ao fim. Outra bem rápida, "There Goes My Gun" é curta, mas também consegue passar bem sua mensagem, e a personagem que aparece no disco retorna na soturna balada "Hey", de letra profunda e reflexiva, estilo que se repete em “Silver”, única contribuição de alguém do grupo, Deal, na composição com Francis. Por fim, “Gouge Away” encerra com a frase Stay all Day/If you want to. E a estrofe pode servir para história e para o disco, porque é impossível parar de ouvir quando se coloca. Doolittle é desses casos de trabalho que não ficou velho, ainda é relevante e mostra todo potencial do Pixies em sua formação original. Problemas no relacionamento entre Francis e Deal minaram o grupo mais de uma vez, mas não apagarão esse bonito álbum.



Ficha técnica:

Tracklist:

1 - "Debaser" (2:52)
2 - "Tame" (1:55)
3 - "Wave of Mutilation" (2:04)
4 - "I Bleed" (2:34)
5 - "Here Comes Your Man" (3:21)
6 - "Dead" (2:21)
7 - "Monkey Gone to Heaven" (2:56)
8 - "Mr. Grieves" (2:05)
9 - "Crackity Jones" (1:24)
10 - "La La Love You" (2:43)
11 - "No. 13 Baby" (3:51)
12 - "There Goes My Gun" (1:49)
13 - "Hey" (3:31)
14 - "Silver" (Francis/Deal) (2:25)
15 - "Gouge Away" (2:45)

Todas as canções foram escritas por Black Francis, exceto a marcada.

Gravadora: 4AD/Elektra
Produção: Gil Norton
Duração: 38min38s

Black Francis: vocais e guitarra
Kim Deal: baixo, vocais e guitarra slide em "Silver"
Joey Santiago: guitarra e vocais de apoio
David Lovering: bateria, vocal em "La La Love You" e baixo em "Silver"

Convidados:

Arthur Fiacco: violoncelo em "Monkey Gone to Heaven"
Karen Karlsrud: violino "Monkey Gone to Heaven"
Corine Metter: violino on "Monkey Gone to Heaven"
Ann Rorich: vioncelo "Monkey Gone to Heaven"



Veja também:
Discos para história: Tonight's the Night, de Neil Young (1975)
Discos para história: Murmur, do R.E.M. (1983)
Discos para história: Rubber Soul, dos Beatles (1965)
Discos para história: Yoshimi Battles The Pink Robots, do Flaming Lips (2002)
Discos para história: Whatever People Say I Am, That's What I'm Not, do Arctic Monkeys (2006)
Discos para história: Crosby, Stills & Nash, de Crosby, Stills & Nash (1969)
Discos para história: Purple Rain, de Prince and The Revolution (1984)

Gostou do conteúdo? Compartilhe nas redes sociais! Isso ajuda pra caramba o blog a crescer e ter a chance de produzir mais coisas bacanas.


Meu sonho é que o Music on the Run, que começou como hobby, vire uma coisa mais legal e bacana no futuro, com muito conteúdo em texto, podcast e mais coisas, porque eu acredito que dá para fazer mais e melhor com o apoio de quem lê o blog. Apoie:
Você não quer se comprometer em uma assinatura? Não tem problema, pode doar qualquer valor em reais via PagSeguro: