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sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Discos para história: Bringing It All Back Home, de Bob Dylan (1965)


A 74ª edição do Discos para história fala sobre um dos melhores discos lançados nos anos 1960. Caminhando para mudar os rumos de sua carreira, Bob Dylan lançou Bringing It All Back Home, álbum dividido entre um lado acústico e outro elétrico. Isso dividiria os fãs, mas colocaria o cantor como um dos mais inventivos de sua geração.

História do disco

Bob Dylan ganhou fama nos Estados Unidos por ser um cantor de protestos e que conseguiu traduzir em música os sentimentos das minorias durante o período em que se mais lutou pelos Direitos Humanos e contra o racismo na história. Melhor do que qualquer um, o então jovem cantor e compositor ganhou o mundo com seu violão e suas canções politizadas.

Mas ele estava cansado de ser uma marionete da esquerda americana e de ser pressionado a fazer coisas que não queria fazer. O primeiro passo foi dado em 1964, quando gravou Another Side of Bob Dylan, álbum cheio de amargura e rancor – Dylan havia terminado há pouco tempo o namoro com Suze Rotolo. O segundo foi, depois de ouvir Beatles no rádio e conhecer a banda pessoalmente, trabalhar com a guitarra em algumas melodias e ideias de letras. Apesar de deixar um pouco o instrumento de lado por alguns meses, a ideia de fazer um trabalho elétrico nunca saiu de sua cabeça.

Entre o final daquele ano e o início de 1965, Bob Dylan estava mais produtivo do que nunca. Indo para Woodstock e ficando longos períodos na cidade com Joan Baez, melhorava cada dia mais na escrita de suas canções – cartas da época mostram-no cada vez intenso em suas palavras e cheio de energia para começar um novo ano. Com duas canções prontas que não haviam sido lançadas no disco anterior, "Mr. Tambourine Man" e "Gates of Eden", o cantor chegou ao estúdio em dezembro de 1964 com mais duas faixas: "If You Gotta Go, Go Now" e "It's Alright Ma (I'm Only Bleeding)".

A história conta que, ao chegar ao estúdio, a ideia era trabalhar canções em um estilo folk rock, mas o produtor Tom Wilson e o cantor começaram mal ao tentarem algo próximo do Fats Domino. Obviamente, não havia a menor condição de fazer um trabalho vocal assim – muito mais pela limitação do vocalista do que por qualquer outro motivo. Então aconteceria um encontro que mudaria a vida de Dylan e de alguns rapazes.

Enquanto trabalhava em algumas ideias, Dylan encontrou no estúdio John P. Hammond, filho do produtor John H. Hammond e que havia levado Bob Dylan a Columbia há três anos, trabalhando em uma espécie de fusão entre o elétrico e o blues acústico com uma banda chamada Levon and the Hawks, formada por Rick Danko, Levon Helm, Garth Hudson, Richard Manuel e Robbie Robertson. Pouco tempo depois, eles mudariam o nome para The Band e entrariam para história do rock ao gravarem com o cantor em um futuro não muito distante.

Apesar de empolgado com a ideia de colocar algumas guitarras, isso logo foi abortado nas primeiras sessões para gravar o novo disco. Só no primeiro dia de gravação, ele cantou, tocou piano, gaita e/ou violão em "Love Minus Zero/No Limit", "It's All Over Now, Baby Blue", "Bob Dylan's 115th Dream", "She Belongs To Me", "Sitting On A Barbed-Wire Fence", "On The Road Again", "If You Gotta Go, Go Now", "You Don't Have To Do That", "Outlaw Blues", "I'll Keep It With Mine", "Farewell Angelina" e uma versão acústica de "Subterranean Homesick Blues". Muitas dessas canções só seriam lançadas nos anos 1980 e 1990 em especiais e edições de luxo de discos remasterizados.

No dia seguinte, agora com uma banda formada com os guitarristas Al Gorgoni, Kenny Rankin e Bruce Langhorne, o pianista Paul Griffin, os baixistas Joseph Macho Jr. e William E. Lee, e o baterista Bobby Gregg, Wilson e Dylan entraram no estúdio para gravar as primeiras canções elétricas da carreira do então cantor folk. Reza a lenda que não houve ensaio antes e, pouco menos de quatro horas depois, "Love Minus Zero/No Limit", "Subterranean Homesick Blues", "Outlaw Blues", "She Belongs to Me" e "Bob Dylan's 115th Dream" estavam prontas para entrarem em Bringing It All Back Home. Ainda no mesmo dia, houve uma segunda gravação, mas essa aconteceu com músicos diferentes. Porém os resultados não agradaram e a sessão foi descartada.

Com exceção do pianista Paul Griffin, substituído por Frank Owens, os mesmos músicos que participaram da primeira sessão do dia anterior foram recrutados para fazer mais uma – que viria ser a última. O método de trabalho de Dylan foi o que mais impressionou. Geralmente, ele mostrava apenas uma vez o que desejava para aquela faixa, mas não se prendia a isso e mudava tudo, caso necessário, duas tentativas depois. Então, com quatro tentativas no máximo para cada música, o novo trabalho foi finalizado em 15 de janeiro de 1965. E foi nesse dia que decidiu-se por metade do trabalho ser elétrica e metade acústica.

Lançado em 22 de março, o disco marcou o início de uma nova era na carreira de Bob Dylan. Apesar da recusa inicial dos fãs em aceitar essa nova fase, o cantor mostrou ao mundo que não estava na música para fazer a vontade dos outros, mas apenas a dele mesmo. Bringing It All Back Home é considerado um dos melhores discos de 1965, um dos melhores da história e um dos pontos mais altos da carreira de Dylan.


Resenha de Bringing It All Back Home

Uma mistura entre folk, rock e blues dão o tom de "Subterranean Homesick Blues", faixa de abertura de Bringing It All Back Home. Assim como quase todas as canções de Bob Dylan, a faixa não chegou a posições boas nas paradas (mesmo assim foi o primeiro top-40 do cantor), mas fez muito sucesso na Inglaterra. E para quem estava largando os protestos, a letra é altamente politizada. No embalo do álbum anterior vem "She Belongs to Me", sobre uma mulher independente que impressiona a todos quando passa. Especula-se que a personagem dessa letra seja Joan Baez, Nico (conhecida pelo trabalho com o Velvet Underground) ou Sara Lownds, que viria a ser a primeira mulher de Dylan, mas ninguém sabe ao certo quem é – só o cantor.

Com estrutura de blues, "Maggie's Farm" tem muito do country em sua melodia e letra. Segundo os estudiosos em Dylan, ela é um recado do tipo “estou caindo fora” ao mundo folk, movimento que não demorou em acontecer. Mesmo com o acompanhamento de uma banda em estúdio pela primeira vez, o cantor conseguiu emular o clima folk em “Love Minus Zero/No Limit”, essa uma homenagem à futura senhora Dylan. Aqui, ele usa Edgar Allen Poe a Bíblia como referências e brinca, em diversos momentos, com coisas opostas se atraindo.

Se a história diz que não houve ensaio para gravar as faixas, isso fica claro em "Outlaw Blues", que soa como uma jam session que entrou no álbum. Parece que eles se juntaram, começaram a improvisar e saiu isso. Aparentemente, já nessa fase da vida, Dylan começou a ficar de saco cheio do sucesso e da fama porque a letra de "On the Road Again" trata justamente disso – e, se como contam, foi inspirada em On The Road, de Jack Kerouac. Fechando o lado A do álbum, "Bob Dylan's 115th Dream" é a continuação de "Bob Dylan's Dream", de seu primeiro disco. Nesta faixa, que começa com o erro da banda em não entrar no tempo certo, o narrador satiriza e mistura vários acontecimentos históricos em uma coisa só. A ironia e o humor sempre foram marcas da discografia dele e não seria diferente aqui.



Com o fim da parte elétrica, vem a parte totalmente acústica do trabalho. E ela começa com a belíssima e histórica "Mr. Tambourine Man". Composta no início de 1964, ela primeiro ganhou vida com a bela interpretação do The Byrds. A versão de Dylan segue o padrão de seus discos anteriores: ele usa apenas violão e gaita na melodia. O uso da guitarra tocada por Bruce Langhorne ao fundo só dá mais beleza e emoção à letra – o filme A Estrada da Vida, de Frederico Fellini, e alguns poemas de Arthur Rimbaud foram inspirações para o compositor.

Já "Gates of Eden" parece ter sido feita rapidamente e não soa como uma letra de canção, mas um poema musicado. O mais bizarro da letra é que cita uma moto como uma “Madonna negra”. Pouco tempo depois, um acidente de moto tiraria o cantor das turnês por um longo período. Retomando os temas políticos como base, ele conseguiu colocar sua indignação contra a hipocrisia da cultura americana em "It's Alright, Ma (I'm Only Bleeding)". Diferente das outras letras com o tema, que sempre havia uma ponta de esperança para o final feliz, nesta o otimismo passa longe. E encerrando o trabalho, "It's All Over Now, Baby Blue" é mais um momento em que o uso do simbolismo transforma em uma espécie de poeta romântico. Assim como em todas as músicas do mesmo tipo, ninguém tem a mínima ideia de quem é a “baby blue”. É melhor assim.



Ficha técnica

Tracklist:

Lado A

1 - "Subterranean Homesick Blues"
2 - "She Belongs to Me"
3 - "Maggie's Farm"
4 - "Love Minus Zero/No Limit"
5 - "Outlaw Blues"
6 - "On the Road Again"
7 - "Bob Dylan's 115th Dream"

Lado B

8 - "Mr. Tambourine Man"
9 - "Gates of Eden"
10 - "It's Alright, Ma (I'm Only Bleeding)"
11 - "It's All Over Now, Baby Blue"

Gravadora: Columbia
Produção: Tom Wilson
Duração: 47min14s

Bob Dylan: violão, gaita, teclado e vocais

Convidados:

John Boone: baixo
Al Gorgoni: guitarra
Bobby Gregg: bateria
Paul Griffin: piano e teclados
John P. Hammond: guitarra
Bruce Langhorne: guitarra
Bill Lee: baixo
Joseph Macho Jr.: baixo
Frank Owens: piano
Kenny Rankin: guitarra
John B. Sebastian: baixo


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