No YouTube

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Discos para história: Tonight's the Night, de Neil Young (1975)


A 108ª edição do Discos para história é sobre Tonight's the Night, de Neil Young, que completou 40 anos recentemente. Gravado em 1973, o disco foi guardado por dois anos, mas valeu a pena ao ratificar a melhor fase da carreira do cantor e compositor.

História do disco

O ano de 1972 foi muito duro para Neil Young. Com uma carreira já consolidada e colhendo os frutos do sucesso de Harvest, ele estava se preparando para mais uma turnê, mas via o amigo Danny Whitten se afundar nas drogas cada vez mais. Os abusos eram constantes, e isso gerou sua demissão da Crazy Horse, banda de apoio de Young. Dias depois, Whitten foi encontrado morto em sua casa – consequência de uma overdose, de acordo com os legistas.

“Nós estávamos ensaiando, e ele simplesmente não se lembrava de nada (...). Tive que dizer a ele para voltar à Los Angeles. Eu amei Danny e me senti responsável (por sua overdose). Logo depois, tive que sair para essa grande turnê de enormes arenas. Eu estava muito nervoso e inseguro”, disse o cantor, em 1975, em entrevista ao repórter da Rolling Stone Cameron Crowe.

Problemas com a banda e ter gravado um disco que não gostou, Time Fades Away, fizeram Young ficar amargo, inseguro e receoso para seguir adiante. Esses fatores o fizeram testar novas abordagens, como gravar as faixas ao vivo e dar mínimo tratamento em estúdio. Ao colocar seus sentimentos mais profundos para fora, Young conseguiu dar uma beleza melancólica aos seus melhores discos e representou muito bem alguns dos jovens daquela época.

Pouco mais de seis meses depois da morte de Whitten, o roadie Bruce Berry também morreu em consequência de uma overdose. Aliás, ele e Whitten eram companheiros de drogas e eram vistos juntos quando estava usando heroína. Então, para colocar todos esses sentimentos, perdas, frustrações e falar sobre a vida, Young gravou Tonight's the Night, um disco em que a tristeza é o tema principal.

Um álbum assim não poderia se gravado ao poucos, era necessário colocar tudo para fora de uma vez. E assim foi feito, e Young gravou boa parte do disco ao longo do dia 26 de agosto de 1973. Com o trabalho finalizado, ele levou as masters para a audição na gravadora, mas, para sua surpresa, os diretores o acharam pesado e triste em excesso e barraram seu lançamento.

Entre os dois anos de negociação, Young lançou On The Beach (1974), um disco mais leve, porém de menos sucesso que seu anterior e seu sucessor. Depois de muita luta, enfim, Tonight's the Night foi liberado, prensado e colocado no mercado em 20 de junho de 1975. Elogiado pela crítica, é considerado o auge criativo de Neil Young e é apontado por muitos como início do fim do sonho hippie, pois a contracultura, Vietnã e os ideais dos anos 1970 estavam desaparecendo, assim como aqueles jovens sonhadores estavam crescendo e virando adultos em tempos de Guerra Fria, crises econômicas e incertezas.


Resenha de Tonight's the Night

A faixa-título abre o disco de maneira serena e introspectiva, até que a voz de Neil Young fica mais clara. Ao entrar no segundo verso, quase à capela, o cantor cita Bruce Berry nominalmente (Bruce Berry was a working man/He used to load that Econoline van/A sparkle was in his eye/But his life was in his hands), mostrando que a letra é sobre seu amigo que morreu em um folk bem sincero e emocionante.

Ouvir Young cantando um blues é dessas coisas inesquecíveis para quem ouve, e isso acontece na ótima "Speakin' Out", que é completada com maestria pela guitarra slide de Ben Keith, enquanto outra chora ao fundo – aqui, vemos claramente o estilo de gravação adotado: deixar tudo ao vivo e o mais cru possível, fazendo alguns poucos retoques em pequenas coisas. O country folk "World on a String" traz um cantor mais realista sobre a vida e suas derrotas e vitórias.



A gaita é um instrumento fascinante, pois pode colocar alegria ou aumentar ainda mais a melancolia de uma canção. Em "Borrowed Tune", ela abre com a segunda opção para, pouco depois, dar vez a um momento de Young no piano – só ele e o instrumento. Depois ela volta para fazer companhia ao dois nessa que mais deixa claro o fim da era hippie (I look out on peaceful lands/With no war nearby/An ocean of shakin' hands/That grab at the sky).

Retirada de uma das primeiras turnês com a Crazy Horse, inclusive com a gravação feita em uma dessas apresentações, o country rock "Come on Baby Let's Go Downtown" é a homenagem a Danny Whitten, único que divide os créditos em uma composição com Young em todo disco, já "Mellow My Mind" tem um cantor rouco falando sobre o passado e uma hipotética volta para casa. O country blues "Roll Another Number" é mais uma das letras sobre o fim das expectativas da geração dos anos 1960 ao usar a metáfora de uma volta para algo bem triste.



"Albuquerque" é aquela típica canção de viagem em que o viajante é uma pessoa solitária e, em qualquer parada, será apenas mais um a estar ali pedindo algo para forrar o estômago. A crua, reflexiva e ótima "New Mama" antecede a saudosista "Lookout Joe" – a mais próxima possível de uma canção gospel. Por fim, o álbum atinge seu momento máximo na triste "Tired Eyes", e o ouvinte deve estar tão triste que chorar parece ser a única solução viável para colocar para fora tudo que está sentindo ("Tonight's the Night, Part II" nada mais é que a reprise da faixa-título).

A conclusão ao ouvir Tonight's the Night na íntegra é compreender melhor Neil Young, seus sentimentos e sua maneira de compor. Aqui, ele atingia seu auge em um dos melhores álbuns dos anos 1970 e, para muitos, o melhor de 1975. Ele não precisaria fazer mais nada, pois sua carreira já estava mais do que consolidada na música mundial.



Tracklist:

Lado A

1 - "Tonight's the Night" (with the Santa Monica Flyers) (4:39)
2 - "Speakin' Out" (with the Santa Monica Flyers) (4:56)
3 - "World on a String" (with the Santa Monica Flyers) (2:27)
4 - "Borrowed Tune" (3:26)
5 - "Come on Baby Let's Go Downtown" (live from the 1970 tour with Crazy Horse) (Neil Young, Danny Whitten) (3:35)
6 - "Mellow My Mind" (with the Santa Monica Flyers) (3:07)

Lado B

1 - "Roll Another Number" (with the Santa Monica Flyers) (3:02)
2 - "Albuquerque" (with the Santa Monica Flyers) (4:02)
3 - "New Mama" (2:11)
4 - "Lookout Joe" (with The Stray Gators) (3:57)
5 - "Tired Eyes" (with the Santa Monica Flyers) (4:38)
6 - "Tonight's the Night, Part II" (with the Santa Monica Flyers) (4:52)

Todas as canções foram escritas por Neil Young, exceto a marcada.

Gravadora: Reprise
Produção: David Briggs, Neil Young, Tim Mulligan/Elliot Mazer em "Lookout Joe"
Duração: 44min52s

Neil Young: vocais, guitarra "World on a String", "Come On Baby Let's Go Downtown", "Mellow My Mind", "Roll Another Number", "Albuquerque", "New Mama", "Lookout Joe" e "Tired Eyes", piano em "Tonight's the Night", "Speakin' Out" e "Borrowed Tune", gaita em "World on a String", "Borrowed Tune" e "Mellow My Mind", e vibrafone em "New Mama"

Ben Keith: pedal steel e vocal em "Tonight's the Night", "Speakin' Out", "Roll Another Number", "Albuquerque" e "Tired Eyes" pedal steel em "World on a String" e "Mellow My Mind", vocal em "New Mama", guitarra slide e vocal em "Lookout Joe"

Nils Lofgren: piano em "World on a String", "Mellow My Mind", "Roll Another Number", "Albuquerque", "New Mama" e "Tired Eyes", vocal em "Roll Another Number", "Albuquerque" e "Tired Eyes",e guitarra em "Tonight's the Night" e "Speakin' Out"

Danny Whitten: vocal e guitarra em "Come On Baby Let's Go Downtown"

Jack Nitzsche: teclado em "Come On Baby Let's Go Downtown" e piano em "Lookout Joe"

Billy Talbot: baixo em todas as faixas, exceto "Borrowed Tune", "New Mama" e "Lookout Joe"

Tim Drummond: baixo em "Lookout Joe"

Ralph Molina: bateria e vocal em todas as faixas, exceto "Borrowed Tune", "New Mama" e "Lookout Joe", e vocal em "New Mama"

Kenny Buttrey: bateria em "Lookout Joe"

George Whitsell: vocal em "New Mama"



Veja também:
Discos para história: Murmur, do R.E.M. (1983)
Discos para história: Rubber Soul, dos Beatles (1965)
Discos para história: Yoshimi Battles The Pink Robots, do Flaming Lips (2002)
Discos para história: Whatever People Say I Am, That's What I'm Not, do Arctic Monkeys (2006)
Discos para história: Crosby, Stills & Nash, de Crosby, Stills & Nash (1969)
Discos para história: Purple Rain, de Prince and The Revolution (1984)
Discos para história: Time Out of Mind, de Bob Dylan (1997)

Gostou do conteúdo? Compartilhe nas redes sociais! Isso ajuda pra caramba o blog a crescer e ter a chance de produzir mais coisas bacanas.


Meu sonho é que o Music on the Run, que começou como hobby, vire uma coisa mais legal e bacana no futuro, com muito conteúdo em texto, podcast e mais coisas, porque eu acredito que dá para fazer mais e melhor com o apoio de quem lê o blog. Apoie:

Você não quer se comprometer em uma assinatura? Não tem problema, pode doar qualquer valor em reais via PagSeguro: