terça-feira, 12 de junho de 2018

Anthony Bourdain e o amor pela música

Bourdain, Debbie Harry e Chris Stein, do Blondie

Morto aos 61 anos no último sábado, chef e apresentador dividiu com o mundo seus gostos musicais

Assistir aos programas de Anthony Bourdain na TV a cabo, seja Parts Unknown ou No Reservations, era ter a certeza de ver alguém com um perfil completamente diferente dos programas de viagens. Geralmente, quem quer que esteja apresentando é afetado, esnobe e pouco afeito à cultura local, preferindo pessoas e ambientes considerados sofisticados. Ou seja, um porre.

Bourdain foi um sopro de lucidez nos programas culinários ao longo de quase duas décadas como apresentador por ficar amigo dos locais em busca de uma refeição que o deixasse satisfeito. Comer em Hanoi, no Vietnã, com o ex-presidente Barack Obama, entrevistar Iggy Pop ou estar com palestinos em uma zona de conflito soava natural para ele. E para nós também.

Ele também manjava muito de música. Segui-lo no Instagram era ótimo porque, além das belas fotos de comida, ele fazia stories bem diferentes ao filmar uma janela ou uma parede ao som de uma música. Em várias oportunidades, corri para tentar descobrir qual era o nome da banda, cantor ou cantora da nova postagem. Era delicioso saber que ele dividia suas músicas conosco. Porque dividir uma música com alguém é saber que aquela letra e aquele momento serão inesquecíveis pelo resto da vida. E Bourdain fazia isso quase diariamente para milhões de pessoas. Dividir um almoço e uma música são os maiores níveis de intimidade que um ser humano pode dar ao outro.

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Talvez ele não tivesse a menor ideia do impacto que causava nas pessoas, na curiosidade que atiçava em cada música postada. Eram 15 segundos muito divertidos em que Bourdain não aparecia. A música era a protagonista desse curtíssimo espetáculo.

Em entrevista para o site da revista Rolling Stone USA, na divulgação da terceira temporada de Parts Unknown, em 2014, Bourdain contou como a música era parte fundamental do programa.

"Frequentemente, solicito um estilo de música que emula especificamente determinada canção ou trilha sonora de filmes antigos para obter certo tipo de sensação. Por exemplo, o Depeche Mode parece bom quando se está passando por um arrozal ou quando você está em um bairro vazio na Arábia Saudita. Nós tentamos fazer isso da mesma maneira que você faria um filme, usando música de verdade ao invés de uma biblioteca pronta", explicou.

Ele também falou como a música fez parte da sua vida desde muito cedo por conta do trabalho do pai, Pierre Bourdain (1929-1987), na gravadora Columbia durante boa parte de sua infância até a primeira metade da fase adulta.

"Nos dois primeiros terços da minha vida, construí minha identidade quase inteiramente pelos álbuns que ouvia e pelas drogas que tomava. Se todo mundo amava os Allman Brothers, eu os odiava. Meus gostos musicais refletiam esses sentimentos, acho. Estando em estado de oposição a tudo, eu gostaria de dizer que cresci, mas, na verdade, ainda procuro por música que essencialmente sirva como trilha sonora para qualquer filme que esteja passando na minha cabeça".

Seu gosto ia de "Anemone", do Brian Jonestown Massacre – Bourdain se dizia "obcecado" por ela –, até "What's Going On", clássico de Marvin Gaye. Ele gostava de música que atingia em cheio seu coração. E de punk, claro. Bourdain escreveu para revista Spin um artigo sobre a cena musical de Nova York nos anos 1970. Começa assim: "Não deixe ninguém te dizer diferente: 1977 não foi um bom ano. Não foi uma boa década, não foi um bom momento para a cidade de Nova York".

Mesmo sem nunca tê-lo visto de perto, a notícia de sua morte bateu como se um amigo de longa data estivesse partindo. Ele conseguiu ser um Lou Reed (1942-2013) que viajava pelo mundo, era um ótimo chef e ainda escrevia bem. Temos poucos dias de sua morte, mas já é estranho viver em um mundo sem Anthony Bourdain.

Abaixo, uma boa alma fez uma playlist com algumas canções que Bourdain postava no Instagram Stories.




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