quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Ao culpar público, Jorge Vercillo esquece do papel das gravadoras


De maneira muito conveniente, cantor esqueceu que movimento por lucro rápido na música começou há quase 40 anos

Na última segunda-feira (5), saiu uma matéria no 'G1' repercutindo um texto de Jorge Vercillo no Facebook sobre o novo hit do momento, "Que Tiro Foi Esse", da cantora Jojo Toddynho. Entre outras reclamações, o cantor diz que boa parte da culpa pelo sucesso de canções de qualidade duvidosa é do público.

É sempre muito curioso: quando surge um texto ou declaração sobre a qualidade das canções que fazem sucesso atualmente, o reclamante não se furta em colocar a culpa no público. Só que, geralmente, o reclamante – coincidentemente, aposto – se esquece do fundamental papel das gravadoras nesse processo todo. Como, há quase 50 anos, tínhamos Secos & Molhados no topo das paradas e chegamos ao atual momento? Não foi do nada.

No livro Pavões Misteriosos - 1973-1984: A explosão da música pop no Brasil, André Barcinski é muito didático ao contar exatamente como foi o processo. Existia muito mais liberdade para escolher artistas e na maneira de trabalhar. Não era incomum, logo após assinar o contrato, o responsável pela contratação só ouvir o disco pronto, assim como era comum o lucro com o grande vendedor financiar os trabalhos menores. Não havia interferência ou ordens para fazer uma música comercia. Era música e ponto final.

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No fim dos anos 1970, com as gravadoras enxugando os gastos pelo mundo todo, houve um considerável corte de custos e de elencos. A partir disso, começou a corrida por um tipo específico de música que fizesse sucesso entre as mais diferentes camadas da sociedade. Tudo pelo lucro rápido. Foi nesse período em que artistas como Gretchen e Sidney Magal explodiram, os compositores Michael Sullivan e Paulo Massadas emplacaram sucesso atrás de sucesso em um curto espaço de tempo e também surgiram outros artistas com prazo de validade.

Claro que acabou virando um modelo sustentável para as gravadoras, mas não para os artistas, porque é muito mais fácil ir pulando de sucesso em sucesso do que focar em um plano de longo prazo para manter determinado artista no topo. A única exceção é Roberto Carlos, que está aí até hoje independente de ter sucesso ou não.

Quantos artistas de gêneros musicais diferentes não fizeram sucesso nos últimos 40 anos no Brasil? Rock, pop romântico, grupos infantis e adolescentes, funk, axé, rap, pagode, samba, gospel (Padre Marcelo fazia plantão no Programa do Gugu), sertanejo (universitário ou sem formação) até chegar aos dias de hoje em que todo mundo grava de tudo um pouco para tentar atingir todo tipo de público possível.

Apontar o dedo apenas para a audiência é muito mais fácil do que olhar para o que as gravadoras fizeram nos últimos anos. Nem os serviços de streaming mudaram isso. Depois de um tempo, a indústria da música só cresce e parece estar melhor do que nunca, justamente quando é muito mais fácil construir artistas de um sucesso só. E Jorge Vercillo pode não lembrar, mas, para muita gente, ele só é o cantor da música do Homem-Aranha.



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