quinta-feira, 12 de abril de 2018

Discos para história: O Inimitável, de Roberto Carlos (1968)


Trabalho é considerado por estudiosos como de transição entre a Jovem Guarda e o futuro cantor de baladas românticas

História do disco

A música mainstream passou por mudanças bruscas no fim dos anos 1960. Bob Dylan, Beatles, Beach Boys, The Who, Kinks, Janis Joplin e Jimi Hendrix foram alguns dos símbolos do conhecido como contracultura. Claro, eles influenciaram diversos músicos ao redor do mundo. Não foi diferente no Brasil. Se em 1967, Roberto Carlos lançava um clássico – Roberto Carlos Em Ritmo de Aventura –, o ano seguinte seria fundamental para entender o caminho do cantor que conhecemos hoje.

Um motivo para entender a mudança na direção da carreira de Roberto Carlos foi o fim da Jovem Guarda. Impulsionado pelos talentos do cantor somados com Erasmo Carlos e Wanderléia como principais nomes de programa de mesmo nome, o movimento explodiu ao entrar na casa das pessoas e fazer bastante sucesso entre os jovens – das roupas a linguagem até acessórios para casa e filmes com os três no elenco.

Mais discos dos anos 1960:
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Pouco antes do fim do contrato, Roberto Carlos comunicou que estava de saída do programa. Foi um choque para os fãs, produtores e companheiros. Não demorou muito para a Record encerrar a produção e o movimento, tão popular durante alguns anos, entrar em declínio e virar parte da história. E 1968 foi um ano muito importante. Com 27 anos, casado e mais maduro, estava na hora de explorar um pouco mais musicalmente. Ele não conseguiria isso na Jovem Guarda, como o futuro mostrou, e ainda mostra, a todos nós.

Era difícil ficar imune aos acontecimentos do mundo. No Brasil, a Tropicália estava com tudo. O disco de mesmo nome está na história como um dos mais influentes e impactantes, e os participantes do álbum não estão atrás. E ainda havia as influências de fora. Mesmo atrasado em acompanhar o impacto da contracultura, o País viu muita gente refletir e se inspirar nesses acontecimentos. Não foi diferente com Roberto Carlos.

Veja também:
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Um dos pontos era apostar em arranjos mais complexos. O outro era mostrar capacidade vocal para cantar qualquer coisa – agora, como duvidaram de alguém de início de carreira como crooner nas noites cariocas? Foi em O Inimitável, uma cutucada em todos os cantores surgidos que tentaram – a imensa maioria sem sucesso – copiá-lo no estilo musical.

Claro que contratempos aconteceriam, como ser vaiado no Festival da Canção, realizado no Teatro Record, quando foi escolhido pela produção para defender "Madrasta", de Beto Ruschel e Renato Teixeira. Mas entrar no palco para defender a canção acabou sendo um dos fatores determinantes nessa mudança. Ele não seria mais o mesmo dos tempos do iê-iê-iê. E sabia que precisava mudar para acompanhar o público. E sabemos aonde isso chegou.


Resenha de O Inimitável

A introdução de "E Não Vou Mais Deixar Você Tão Só" com a flauta já mostra o refinamento que Roberto Carlos gostaria e apresentaria ao público nos anos seguintes. Com ligeiras mudanças, foi esse estilo mais romântico que garantiu a ele longevidade musical e muito dinheiro no bolso nos últimos 50 anos. Outro bom exemplo disso é "Ninguém Vai Tirar Você De Mim" que, apesar de ter envelhecido um pouco mal, conseguiu manter bem o ritmo do início.

"Se Você Pensa" virou um dos grandes sucessos nos anos seguintes, quase sempre presente no especial anual para TV. Composta em parceria com Erasmo Carlos, a faixa é cheia de energia e dá para destacar o vocal, mais gritado e firme, um estilo pouco visto nos anos anteriores. É um rock visceral, uma combinação que Erasmo usaria muito nos anos seguintes e nunca negou ser fã. Por isso, surpreendeu um pouco estar aqui, mas encaixou perfeitamente.



Mesmo cheio de referências, refinamento e tudo mais, o espírito da Jovem Guarda permanecia vivo, como na bonitinha "É Meu, É Meu, É Meu" – típica faixa para dançar no bailinho da escola. Já "Quase Fui Lhe Procurar" é um baladão mesmo, daqueles um banquinho, violão, um arranjo bem leve e uma letra cheia de clichês. Claro, funciona muito bem. O lado A encerra com outro clássico: "Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo". A dupla Erasmo e Roberto mostra o motivo de ser um sucesso há tanto tempo.

Inspirada em um fim de relacionamento de um membro da banda com a namorada, "As Canções Que Você Fez Pra Mim" é a típica dor de cotovelo muito popular nos anos 1950. A diferença está no arranjo, menos carregado e com um toque mais poético, enquanto "Nem Mesmo Você" é um pouco mais animada sobre uma paixão. Mas a boa mesmo vem logo na sequência: "Ciúme de Você", do ótimo Luis Ayrão, tem uma pegada meio Jovem Guarda, porém a o tipo de letra é muito mais complexo – as rimas são mais elaboradas até retornar ao refrão, que grudará na sua cabeça por algumas horas.



E você será surpreendido pela pegada soul de "Não Há Dinheiro Que Pague". Sim, Roberto Carlos cantando uma faixa animada, com forte presença do vocal de apoio e bem dançante. Bons tempos. Porém tudo muda completamente em "O Tempo Vai Apagar", faixa de tom quase religioso – aqui podemos dizer que ele pode – disse pode – ter descoberto um filão muito explorado nas décadas seguintes por ele. Para encerrar o álbum, "Madrasta" surge com seu arranjo mais elaborado e mostra um Roberto Carlos que só quem o acompanhava desde o início da carreira conhecia: um cantor que cantava qualquer coisa.

O Inimitável é o disco "meio do caminho", vamos dizer assim. Ainda tem muita influência da Jovem Guarda, mas tem mais coisas aqui. Os próximos trabalhos o consolidariam como o cantor mais popular da história da música brasileira.



Ficha técnica

Tracklist:

Lado A

1 - "E Não Vou Mais Deixar Você Tão Só" (Antônio Marcos) (3:32)
2 - "Ninguém Vai Tirar Você De Mim" (Hélio Justo/Edson Ribeiro) (2:57)
3 - "Se Você Pensa" (Roberto Carlos/Erasmo Carlos) (2:41)
4 - "É Meu, É Meu, É Meu" (Roberto Carlos/Erasmo Carlos) (3:08)
5 - "Quase Fui Lhe Procurar" (Getúlio Cortes) (3:26)
6 - "Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo" (Roberto Carlos/Erasmo Carlos) (3:59)

Lado B

1 - "As Canções Que Você Fez Pra Mim" (Roberto Carlos/Erasmo Carlos) (3:31)
2 - "Nem Mesmo Você" (Helena dos Santos) (2:39)
3 - "Ciúme de Você" (Luis Ayrão) (3:02)
4 - "Não Há Dinheiro Que Pague" (Renato Barros) (2:37)
5 - "O Tempo Vai Apagar" (Getúlio Cortes/Paulo Cézar Barros) (3:37)
6 - "Madrasta" (Beto Ruschel/Renato Teixeira) (4:12)

Gravadora: CBS
Produção: -
Duração: 39min26s

Roberto Carlos: voz; gaita em "É Meu, É Meu, É Meu"
Renato e seus Blue Caps e RC-7: instrumentos diversos e vocais de apoio
Orquestra de Metais e Cordas da CBS: instrumentos diversos
Lafayette: teclados, órgão hammond e cravo



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