quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Discos para história: The Sensual World, de Kate Bush (1989)


Sétimo álbum de estúdio da cantora mostrou que ela poderia fazer o que quisesse na carreira

História do disco

Em 1988, aos 30 anos, Kate Bush não precisava provar nada para ninguém. Com seis discos de estúdios lançados, a cantora britânica estava no auge do sucesso e da popularidade porque, três anos antes, ela havia lançado Hounds of Love (1985) e atingiu o primeiro lugar da parada no Reino Unido ao superar Madonna e o estrondoso sucesso de Like a Virgin (1984).

Mesmo em uma época em que havia dinheiro para torrar em grandes lançamentos, Bush usou uma boa parte do que ganhou para construir um estúdio caseiro e evitar o estouro do orçamento que ocorreu na produção de The Dreaming (1982). A manobra mostrava um olho no futuro e na independência, já que ela era a produtora de seus próprios discos desde o início dos anos 1980.

Mais discos dos anos 1980:
Discos para história: Educação Sentimental, do Kid Abelha e Os Abóboras Selvagens (1985)
Discos para história: From Her to Eternity, de Nick Cave and The Bad Seeds (1984)
Discos para história: Voo de Coração, de Ritchie (1983)
Discos para história: Appetite for Destruction, do Guns N' Roses (1987)
Discos para história: Saúde, de Rita Lee (1981)
Discos para história: Remain in Light, do Talking Heads (1980)

E essa independência mostrava-se ainda mais presente nas composições, cada vez mais pessoais. E a inspiração para o novo álbum veio do clássico Ulisses, do romancista britânico James Joyce (1882-1941), que é inspirado na Odisseia, de Homero. Ambientado em Dublin, o livro narra as aventuras de Leopold Bloom e seu amigo Stephen Dedalus ao longo do dia 16 de junho de 1904, e Bloom precisa superar dificuldades e tentações até retornar para casa. Mas foi o capítulo final, parte em que a esposa do protagonista – Molly Bloom – ganha destaque, que fez sentido no tipo de música que Bush gostaria de fazer em seu próximo álbum.

A cantora não conseguiu autorização para usar trechos do livro no disco, então adaptou uma história em que Molly conta suas impressões sobre o mundo real e dá impressões sobre sensualidade, sexo e outros assuntos tabu – daí o nome de The Sensual World para o álbum.

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"Ao ler o livro, me peguei pensando no discurso de Molly Bloom, e já tínhamos essa música [a faixa-título pronta] no estúdio, então as ideias se uniram muito rapidamente. Então, por não conseguir permissão para usar [trechos do livro escrito por] Joyce, demorei mais um ano fazendo alterações para o que é agora [o resultado final]", explicou a cantora à revista 'NME', em na edição de 7 de outubro de 1989, reproduzida na íntegra pelo site 'The Quietus'.

O disco também serviu para a cantora se auto afirmar em um disputado espaço. Ao tratar de um tema tão complexo e cheio de opiniões como sexo, ainda mais na perspectiva de uma personagem ficcional, Bush desejava se expressar como uma mulher fazendo música, não ser comparada a qualquer homem.

Veja também:
Discos para história: A Girl Called Dusty, de Dusty Springfield (1964)
Discos para história: It's a Shame About Ray, do Lemonheads (1992)
Discos para história: Gunfighter Ballads and Trail Songs, de Marty Robbins (1959)
Discos para história: Physical Graffiti, do Led Zeppelin (1975)
Discos para história: Low, de David Bowie (1977)
Discos para história: Either/Or, de Elliott Smith (1997)
Discos para história: Strangeways, Here We Come, dos Smiths (1987)

"De certa forma, como em Hounds of Love, era importante superar a sensação de poder nas músicas que eu associava à energia e música masculinas. Mas não senti isso desta vez e queria muito me expressar como uma mulher com minha música e não como uma mulher que desejava parecer tão poderosa como um homem", contou.

Lançado em 16 de outubro de 1989, The Sensual World chegou ao segundo lugar na parada na semana de estreia e, recentemente, foi colocado na lista dos melhores discos dos anos 1980 da 'Slant Magazine' e está presente no livro 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer.

Foi com essa vontade em fazer algo próprio mais a inspiração de um clássico do século 20 que transformou o sexto disco de estúdio da cantora em uma experiência ótima para ela e para os fãs.


Resenha de The Sensual World

A introdução da faixa-título do álbum mostrou como Kate Bush queria mostrar algo mais além do que já havia feito antes. Por exemplo, a presença da gaita irlandesa no arranjo ou o início com sinos, algo que a cantora diz ter a ver com celebração. E a letra dessa música é simplesmente espetacular, uma das melhores da carreira da cantora. A segunda faixa, "Love and Anger", coloca a melancolia na mira e acerta em uma composição triste, mesmo cheia de ritmo – David Gilmour tocou guitarra nessa faixa.

Então com 30 anos recém-completos, a cantora abriu o coração para falar de crescimento, físico e psicológico, em "The Fog". Usando um violino como instrumento principal, ela trata do assunto da maneira que só alguém que observa muito a si mesma e os outros pode falar ("'Cause you're all grown up now"/ Just put your feet down, child/ The water is only waist high/ I'll let go of you gently/ Then you can swim to me).

E se a anterior tem a participação do pai da cantora, "Reaching Out" chega para tentar conectar-se com a mãe usando uma introdução simples, mas em uma virada que inclui um arranjo de cordas bem experimental – é uma das melhores faixas do álbum. Já "Heads We're Dancing" é uma canção de humor-negro, puro anos 1980, em que a personagem principal da história acaba dançando com Adolf Hitler em 1939.



O lado B começa com uma pegada muito pop feito naquela época e pode até soar datado para quem ouve. "Deeper Understanding" aposta nos vocais de apoio do Trio Bulgarka e da participação especial da cantora Yanka Rupkina em uma faixa que segue uma linha mais eletrônica com muitos efeitos. E "Between a Man and a Woman" conta como um relacionamento pode sofrer feridas profundas ao ser atingido por uma terceira pessoa –

A segunda parte do disco serve para um aprofundamento maior dos temas apresentados na primeira. Como em "Never Be Mine", em que o sonho e a realidade entram em conflito em um eterno jogo de gato e rato, enquanto "Rocket's Tail" recoloca a conhecível guitarra de Gilmour à mostra novamente e também aposta nos vocais do Trio Bulgarka. Por fim, "This Woman's Work", faixa que aparece no filme Ela Vai Ter um Bebê (1988), é bem dramática e dá o tom exato para fechar o álbum.

(a versão em CD ganhou "Walk Straight Down The Middle" como faixa bônus e não deveria ter ficado de fora. É ótima)

As três músicas da parte final derrapam um pouco em comparação com o resto, mas The Sensual World foi o disco em que Kate Bush mostrou ao mundo que podia fazer qualquer coisa que ficaria bom de qualquer jeito. E, aos 30 anos, tinha muito a ensinar a quem estava passando pelos mesmos dilemas e problemas.



Ficha técnica

Tracklist:

Lado A

1 - "The Sensual World" (3:57)
2 - "Love and Anger" (4:42)
3 - "The Fog" (5:04)
4 - "Reaching Out" (3:11)
5 - "Heads We're Dancing" (5:17)

Lado B

6 - "Deeper Understanding" (4:46)
7 - "Between a Man and a Woman" (3:29)
8 - "Never Be Mine" (3:43)
9 - "Rocket's Tail" (4:06)
10 - "This Woman's Work" (3:32)

Gravadora: EMI/Columbia EUA
Produção: Kate Bush
Duração: 42min10s

Kate Bush: piano, teclado e vocal

Convidados:

Paddy Bush: bandolin, valiha, tupan, pregador e vocal de apoio
Dr. Bush (Robert Bush, pai de Kate): fala
Clare Connors: violino
Stuart Elliott e Charlie Morgan: bateria
John Giblin e Mick Karn: baixo
David Gilmour e Alan Murphy: guitarra
Michael Kamen: arranjo de orquestra
Nigel Kennedy: violino e viola
Dónal Lunny: bouzouki
Michael Nyman: arranjo de cordas
Del Palmer: baixo, percussão e guitarra
Justin Pearson e Jonathan Williams: violoncelo
Dimitar Penev: arranjo
Yanka Rupkina: vocal
John Sheahan: rabeca
Davy Spillane: assobio, apito e gaita irlandesa
Alan Stivell: harpa celta e vocal de apoio
Trio Bulgarka: vocal de apoio
Eberhard Weber: baixo duplo
Bill Whelan: arranjo
Balanescu Quartet: arranjo de cordas



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