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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Discos para história: Rap é Compromisso!, de Sabotage (2001)


Edição 153 da seção traz o primeiro e único disco cheio do rapper lançado em vida

História do disco

“A minha carreira não teria sido a mesma sem o trabalho em parceria com Sabotage. Foi uma oportunidade única de participar de um disco que fez história”, disse o produtor Tejo Damasceno, em 2014, à revista 'Rolling Stone', à época do relançamento do álbum Rap é Compromisso! - único disco cheio lançado por Sabotage (1973-2003) ainda em vida. Pode ser estranho, mas esse icônico trabalho completou 15 anos ano passado, justamente quando o aguardado disco póstumo do rapper foi lançado.

Assassinado em 24 de janeiro de 2003, com quatro tiros, Sabotage – nome Mauro Mateus dos Santos – foi um dos gerentes de tráfico mais famosos da zona sul de São Paulo. Carismático e de bom papo, ficou bastante conhecido na região. Mas, como acontece com algumas pessoas, a vida deu uma oportunidade para sair desse mundo. E ele a agarrou ao entrar de cabeça no rap.

Mais discos dos anos 2000:
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Conhecendo toda turma que estava à frente do gênero, entre eles os membros do Racionais MCs, pintou a chance de gravar o primeiro trabalho cheio – o EP Supervisionando a Sociedade saiu em 1997. "O Racionais MCs na época estava bem focado na (gravadora) Cosa Nostra. (...) E aí o Mano Brown na intenção de fazer um segundo disco pelo selo, já pensou no Sabotage", contou o produtor Daniel Ganjaman, em entrevista ao site 'Mais Soma' e reproduzida na íntegra pelo 'Rap Nacional', em janeiro de 2013.

O processo de gravação foi demorado, porque todos que estavam ajudando nas gravações tinham outros compromissos. Ganjaman, por exemplo, estava na turnê mundial do Planet Hemp. Foram nove meses entre o início o fim de tudo, o que levou a um pequeno caos na organização do que precisava ser feito. O trabalho começou na casa de Damasceno e foi finalizado em outro lugar. Apesar de não gastarem muito, quase todos ali eram estreantes. Se havia a dificuldade técnica, não havia determinados vícios dos mais experientes, e isso fez uma baita diferença no resultado final.

Veja também:
Discos para história: Canção do Amor Demais, de Elizete Cardoso (1958)
Discos para história: Houses of the Holy, do Led Zeppelin (1973)
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Discos para história: Kinks, do Kinks (1964)
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"O clima era sempre de descontração. Guardo com muito carinho o sorriso do Sabotage. Ele sempre estava bem-humorado. Mesmo com toda a confusão e o estresse que as gravações nos causavam, era impossível ficar bravo com o cara", conta Damasceno.

Em pouco tempo, Sabotage conseguiu ficar famoso na música e no cinema. Suas participações nos filmes O Invasor (2001), em que foi uma espécie de "professor de malandragem" para Paulo Miklos, e Carandiru (2003), quando a cena em que beija a bunda de Rita Cadilac entrou para a história. Morto aos 29 anos, ele fez muito em pouco tempo. O suficiente para não ser esquecido.



Resenha de Rap é Compromisso!

"Introdução" é muito mais do que o início do disco, é quase um manifesto de onde Sabotage veio e do lugar que escolheu morar – a favela. Não há glamour ou exibicionismo. Ele trata a vida como algo duro, mas, com bastante humildade, consegue superar as dificuldades. A faixa título trata da realidade da favela do Canão nos anos 1990. Dos problemas com a polícia até os alagamentos, a faixa traz um cantor em sua melhor forma. A participação de Negra Li dá o equilíbrio ideal e o tom certo.

Exaltando o lugar em que morava, o Brooklin, "Um Bom Lugar" tem a participação de Black Alien, mas o que chama a atenção é o refrão (Um bom lugar/ Se constrói com humildade é bom lembrar/ Aqui é o mano Sabotage/ Vou seguir sem pilantragem, vou honrar, provar/ No Brooklin, tô sempre ali/ Pois vou seguir, com Deus enfim). O rapper se aprofunda na sua realidade em "No Brooklin", mostra como o vício em drogas por ser cruel em "Cocaína" – a melhor do disco, com uma letra extremamente potente para jogar a realidade na sua cara sem pena.



"Na Zona Sul" (Na zona sul cotidiano difícil/ Mantenha o procede, quem não conte tá fudido/ É zona sul maluco cotidiano difícil/ Mantenha o procede, quem não conter tá fudido) explica os anos 1990 para quem não teve a chance de viver. Do microcosmo da zona sul até o mundo, Sabotage é preciso em seus relatos e é impressionante pensar como parece outro mundo. As duas seguintes, "A Cultura" e "Incentivando o Som", trazem uma mensagem positiva para quem deseja se unir a eles.

Se "Respeito é Pra Quem Tem" conta como as coisas funcionam nas ruas – do tratamento da polícia até como se comportar na frente de outras pessoas, "País da Fome" tem um andamento bem melancólico e diz que a "vida é realidade, não filme". Chorão (1970-2013) faz uma excelente participação especial no encerramento, a faixa "Cantando Pro Santo". O tom religioso é dos mais interessantes, porque a fé é fundamental para entender a favela – seja qual for. Aliás, Sabotage e o ex-vocalista do Charlie Brown Jr. fariam uma ótima dupla em um álbum. Uma pena que não rolou a ampliação dessa parceria.

Sabotage conseguiu fazer uma obra-prima do rap nacional em sua estreia. As rimas fáceis e as parcerias precisas fizeram de Rap é Compromisso! um disco fundamental para entender a cena no gênero no início dos anos 2000. E ele mostrou que o rap não é só rima, rap é compromisso.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Introdução" (2:30)
2 - "Rap é Compromisso!" (part. Negra Li) (4:23)
3 - "Um Bom Lugar" (part. Black Alien) (5:05)
4 - "No Brooklin" (part. Negra Li) (5:47)
5 - "Cocaína" (part. Sombra e Bastardo) (4:58)
6 - "Na Zona Sul" (part. Cascão) (5:15)
7 - "A Cultura" (part. Rappin' Hood & Potencial 3) (4:42)
8 - "Incentivando o Som" (part. Sandrão) (3:56)
9 - "Respeito é Pra Quem Tem" (part. RZO) (5:29)
10 - "País da Fome" (3:43)
11 - "Cantando Pro Santo" (part. Chorão) (6:06)

Gravadora: Cosa Nostra
Produção: Tejo Damasceno, Daniel Ganjaman, Zegon e DJ Cia
Duração: 49min54s

Sabotage: voz e rimas

Convidados: 

Negra Li, Black Alien, Sombra e Bastardo, Cascão, Rappin' Hood, Potencial 3, RZO e Chorão: vocais



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