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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Discos para história: Bloco do Eu Sozinho, do Los Hermanos (2001)


Após uma semana de folga, a seção retorna na edição 141 com mais um álbum nacional

História do disco

Quando uma banda faz muito sucesso, a tendência é sempre colocarem o grupo em diversos programas de TV e rádio por tempo suficiente até todos ficaram satisfeitos e/ou de saco cheio. Não foi diferente com Los Hermanos entre o fim dos anos 1990 e início dos anos 2000. Depois de "Anna Júlia", a vida desse quarteto carioca mudou para sempre.

Aquela época era muito diferente dos tempos atuais no quesito entretenimento. Tudo era concentrado na TV, então participar de determinados programas aumentava muito a exposição na mídia. Ir no Gugu ou no Faustão era certeza de ter mais apresentações agendadas, de mais venda de discos e de mais coisas. E cobranças pelo próximo sucesso, é claro. Nessa pressão toda, começaram os trabalhos do sucessor do registro autointitulado.

Mais discos dos anos 2000:
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Os quatro mais o produtor Chico Neves foram para um sítio e gravariam todo material de lá. O motivo? Eles estavam insatisfeitos com a imposição da Abril Music em exigir qual seria o próximo single do disco anterior – acabou sendo "Primavera", uma balada semelhante ao primeiro sucesso. O primeiro impasse começou com a escolha de Neves na produção, que só ficou porque o presidente da gravadora acabou dando o aval pessoalmente a eles.

Com tudo pronto, eles entregariam o material para avaliação dos diretores. Qual foi a surpresa? A gravadora recusou o álbum e pediu que tudo fosse refeito. "A gente disse que isso não fazia sentido. Dissemos que era um absurdo. O disco estava criado, os arranjos estavam feitos. Dissemos que não íamos regravar; nem a gravadora gostava do disco, nem a gente da ideia de regravar", disse Marcelo Camelo ao jornal 'Folha de S. Paulo', em matéria publicada em 23 de julho de 2001.

O impasse só terminou quando uma nova mixagem foi feita, mas, até hoje, nunca se ouvir a versão da primeira gravação. Rodrigo Amarante sentenciou: "O resultado final é exatamente o que a gente queria. Não existe diferença significativa entre como era e como ficou", disse, na mesma matéria da 'Folha'. A Abril Music não viu potencial no trabalho e diminuiu o marketing de divulgação. Foram vendidas apenas 35 mil cópias na época do lançamento.

Veja também:
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Quem comprou o primeiro disco por "Anna Júlia", certamente largou o Los Hermanos ao não conseguir identificar um novo hit radiofônico. Mas tem quem se apaixonasse pelo grupo e seguisse com eles, criando uma espécie de 'Los Hermanos mania' no underground brasileiro. Era o exemplo claro de como a música ou uma banda não morre quando ela perde exposição. Ao contrário, eles ficaram ainda mais famosos e ganharam um ar de especiais ao longo dos anos.

A ruptura com o mainstream foi dolorosa do ponto de vista comercial, mas o Los Hermanos não foi mais o mesmo depois do Bloco do Eu Sozinho. Mais do que nunca, eles ganharam fãs fiéis até os dias atuais de incerteza sobre um futuro. "O disco termina convicto de que eles fizeram o melhor que podiam ao não repetir o primeiro álbum. 'Quero não saber de cor, também', canta Camelo entre as cordas e um surdo de escola de samba, 'pra que minha vida siga adiante'", escreveu o jornalista Alexandre Matias, no release divulgado à imprensa, à época do lançamento.


Resenha de Bloco do Eu Sozinho

O disco começa com a melancolica de "Todo Carnaval Tem Seu Fim", muito longe do esperado para quem tinha um hit de sucesso nas rádios de quase todo Brasil. É um romantismo adolescente com pitadas de referências da vida de Marcelo Camelo. Pode soar estranha de início, mas é fundamental para entender o movimento seguinte do grupo – neste e no próximo álbum. Nos shows, "A Flor" virou um dos pontos altos; no disco, é a mais próxima do rock pop nacional desenvolvido depois da explosão de bandas nos anos 1980. Tem um lado cru, remetendo ao início, mas tem uma beleza no conjunto de sopro que faz a ponte até a segunda parte. Um potencial single desperdiçado, porém não esquecido pelos fãs.

"Retrato Pra Iaiá" tem um ritmo mais suave para tratar de amor, em que o personagem principal coloca em dúvida o futuro (deixa ser/ como será) ao mesmo tempo em que a personalidade é aquela e não vai mudar (numa moldura clara e simples/ sou aquilo que se vê). A influência do samba é ouvida na triste "Assim Será", que ainda passa certo otimismo ao longo da letra. E "Casa Pré-Fabricada" retoma a letra romântica embalada pela guitarra pesada, mas bem simples e direta.



Podem achar pretensiosa – como soa mesmo – a letra de "Cadê Teu Suín-?", mas tem uma sacada muito boa, tanto que encaixa a letra em um andamento fora do normal para própria banda. Acaba sendo uma das melhores do álbum e da carreira do Los Hermanos. Um dos momentos mais pesados das apresentações vem em "Sentimental". Cantada por Amarante, tem uma letra muito triste. E tudo isso é corroborado pela melodia, também melancólica, para baixo.

Engraçado como as coisas andaram nesse álbum. Depois de uma faixa triste, vem a descompromissada "Cher Antoine". O francês precário de Amarante abriu espaço para uma brincadeira, algo completamente fora da seriedade esperada por uma banda que rompia com o mainstream por não concordar com certas coisas. Enfim, uma piada para relaxar e abrir um sorriso. "Deixa Estar" é reta ao passar o recado desejado, porém também opta por um arranjo leve e uma letra trava-língua.



Apesar de a letra ter o formato de poesia bem bobinha, "Mais uma Canção" é simples e bonitinha. Como parte do todo, consegue complementar bem o disco sem queda na qualidade do álbum. Se "Fingi na Hora Rir" traz um lado mais sombrio, "Veja Bem Meu Bem" coloca na mesa a influência do samba em um andamento melódico dos mais interessantes feito pelo grupo em quatro trabalhos de de estúdio lançados.

"Tão Sozinho" é um hardcore surpreendente para um registro quase todos baseado no samba, mas acaba sendo o alívio para não ficar muito maçante até o final – e é uma faixa curta, passa rápido. O encerramento de "Adeus Você" é sobre uma despedida, em que a vida segue adiante, apesar do triste adeus a quem quer que seja.

Um clássico do início do século 21 no Brasil, o Bloco do Eu Sozinho serviu para mostrar que o Los Hermanos não ficaria confinado em "Anna Júlia" pelo resto da vida. E que esse e o próximo disco influenciariam a música brasileira jovem, para o bem e para o mal, ao longo dos anos seguintes.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Todo Carnaval Tem Seu Fim" (Marcelo Camelo) - 4:23
2 - "A Flor" (Camelo e Rodrigo Amarante) - 3:27
3 - "Retrato Pra Iaiá" (Camelo e Amarante) - 3:57
4 - "Assim Será" (Camelo) - 3:36
5 - "Casa Pré-Fabricada" (Camelo) - 2:55
6 - "Cadê Teu Suín-?" (Camelo) - 2:35
7 - "Sentimental" (Amarante) - 5:09
8 - "Cher Antoine" (Amarante) - 2:29
9 - "Deixa Estar" (Camelo) - 3:30
10 - "Mais uma Canção" (Camelo e Amarante) - 4:11
11 - "Fingi na Hora Rir" (Camelo) - 4:10
12 - "Veja Bem Meu Bem" (Camelo) - 4:40
13 - "Tão Sozinho" (Camelo) - 1:19
14 - "Adeus Você" (Camelo) - 2:58

Gravadora: Abril Music
Produção: Chico Neves
Duração: 49 minutos

Marcelo Camelo: voz, arranjo de metais, pandeiro, violão e guitarra
Rodrigo Barba: bateria
Bruno Medina: teclado, pianos, escaleta e moog
Rodrigo Amarante: voz, arranjo de metais, tamborim, baixo, banjo, flauta doce e guitarra

Convidados:

Kassin e Rapudo: baixo
Bidinho: trompete
Vittor Santos: trombone
Bubu: arranjo de metais, flugelhorn e trompete
Daniel Garcia: sax tenor
Edu Morelenbaum: arranjo de metais, clarinete, clarone, cravo e arranjo de cordas
Castro Neves: guitarra
De Souza: baixo
Só Lins: bateria
Cunha: agogô
Lebba Beauty: voz em "Sentimental"
Felipe Abrahão: vocal de apoio
Eliézer Rodrigues: tuba
Pimenta: arranjo de metais
Janaína Botelho Perotto: oboé
Andréa Ernest Dias: flauta
Jacques Morelenbaum: violoncelo
Christine Springuel: viola
Michel e Bernardo Bessler: violinos



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