No YouTube

quinta-feira, 23 de março de 2017

Discos para história: Appetite for Destruction, do Guns N' Roses (1987)


Estreia da banda em estúdio completa 30 anos em julho

História do disco

Lançado no dia 21 de julho de 1987, Appetite for Destruction vendeu mais de 15 milhões de cópias apenas nos Estados Unidos ao longo dos anos. O assustador número colocou o álbum em uma das estreias mais bem-sucedidas da história da música, transformando o Guns N' Roses em um fenômeno de público logo no primeiro disco. A formação original da banda, Axl Rose, Slash, Izzy Stradlin, Duff McKagan e Steven Adler, já estaria na história por esse momento avassalador.

O mais assustador dessa história toda é saber que não havia banda até 1985. Os amigos Adler e Slash conheceram os outros amigos Axl e Stradlin e aconteceu aquele momento mágico em que eles, vindo de momento de delinquência juvenil e amantes de música, viram coisas em comum um nos outros. E aí Axl dispensou o baixista Ole Beich e o baterista Rob Gardner para chamar os dois. Faltava um certo? McKagan já havia tocado com Slash e Adler e acabou sendo indicado para assumir o baixo.

Uma turnê foi marcada para testar a nova formação. E foi uma bagunça enorme, porque era tudo muito desorganizado. Mas é aquele outro momento mágico em que os cinco, depois da primeira crise, se unem por um único objetivo: fazer a maior quantidade possível de apresentações insanas, chamar atenção de uma gravadora para conseguir um contrato e entrar em estúdio para gravar um álbum. Assim foi feito.

Mais discos dos anos 1980:
Discos para história: Remain in Light, do Talking Heads (1980)
Discos para história: Dois, da Legião Urbana (1986)
Discos para história: Daydream Nation, do Sonic Youth (1988)
Discos para história: Nebraska, de Bruce Springsteen (1982)
Discos para história: Moving Pictures, do Rush (1981)
Discos para história: Master of Puppets, do Metallica (1986)

"Foi mágico desde o primeiro dia. A primeira música que tocamos em ensaio foi 'Shadow Of Your Love', e Axl apareceu tarde. Nós estávamos tocando a música e, bem no meio da música, Axl apareceu, agarrou o microfone e começou a correr para cima e para baixo e a gritar. Eu pensei: 'esta é a melhor coisa que vi'. Sabíamos bem o que tínhamos em mãos", relembrou Adler, em entrevista ao site 'Music Radar', em junho de 2012.

O Guns N' Roses era a banda sensação dos clubes de Hollywood com seus shows recheados de riffs potentes da guitarra, um vocalista que usava e abusava da sexualidade no palco e uma 'cozinha musical' extremamente competente para acompanhar tudo. Mas antes de conseguir o tão sonhado contrato, a vida foi difícil para todos eles. A começar pelo lugar onde moravam: um cômodo sem banheiro, cheio de vermes e fedendo a bebida barata. Sem qualquer dinheiro para comprar comida, todos dependiam de favores de bailarinas em início de carreira e prostitutas que topavam dividir um litro de uísque e uns cigarros. Foi nesse lugar que Adler e McKagan aperfeiçoaram suas técnicas, e Axl e Stradlin trabalhavam nos futuros sucessos.

Eles assinaram com a gravadora Geffen em março de 1986 e tudo, mais uma vez, veio muito rápido. Nessa mesma semana, fecharam com o experiente agente Alan Niven e o produtor Mike Clink, um ex-engenheiro de som de boa técnica em estúdio e, fundamental, de uma enorme paciência. Clink não sabia, mas teria que tê-la para conseguir tirar o máximo da banda, principalmente de Axl e Slash. O vocalista não tinha um tom certo de voz para gravar, então foram dias e dias até o produtor encontrar o melhor vocal para cada música. E o guitarrista estava frustrado por não conseguir tirar o melhor do equipamento disponível – em um acesso de raiva, ele destruiu uma guitarra, depois queimou um amplificador por tocar em volume máximo o tempo inteiro. Foram gastos US$ 370 mil na gravação de Appetite for Destruction, uma fortuna para um disco de estreia de uma banda iniciante.

A história da capa do disco é uma das mais legais para contar. A capa divulgada como oficial não era a primeira opção, mas foi escolhida após rejeitarem uma pintura do artista Robert Williams que trazia um estuprador robótico sendo punido por um vingador de metal. Várias lojas recusaram comprar o disco, então uma substituição foi feita: um desenho de uma cruz celta com os membros da banda em forma de caveira. A ideia foi de Billy White, amigo do Guns N' Roses, inspirado na capa do álbum Johnny the Fox (1976), do Thin Lizzy.

Veja também:
Discos para história: Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles (1967)
Discos para história: Sound of Silver, do LCD Soundsystem (2007)
Discos para história: Blue Train, de John Coltrane (1957)
Discos para história: Refazenda, de Gilberto Gil (1975)
Discos para história: O Samba Poconé, do Skank (1996)
Discos para história: Saúde, de Rita Lee (1981)

Cinco meses depois do lançamento, o LP havia vendido mais de 200 mil cópias e todos estavam satisfeitos com o resultado. Bem, nem todos. Os executivos da gravadora queriam mais e pressionaram David Geffen, o dono, a usar sua influência para colocar o clipe de "Welcome to the Jungle" na programação da MTV. O domingo de exibição do clipe mudou a história desses cinco caras, que viram os pedidos de discos aumentarem cada vez mais ao longo da semana. Mas a explosão do fenômeno veio seis meses depois, quando o clipe de "Sweet Child o 'Mine" estreou.

"Quando eu era criança, havia esses álbuns que representavam algo em sua vida. Se a música fez parte da sua infância ou adolescência, The Dark Side of the Moon (Pink Floyd), Sticky Fingers (Rolling Stones), Rocks (Aerosmith) ou Led Zeppelin IV fizeram parte da minha. E fizemos um desses registros, que é tudo o que eu poderia ter pedido [para minha carreira]. Isso é algo que ninguém jamais pode tirar de mim", disse Slash, em entrevista ao site da revista 'Rolling Stone USA'. É um belo resumo da estreia do Guns N' Roses.



Resenha de Appetite for Destruction

O início com um riff de guitarra arrasa quarteirão aliado com a potência vocal de um Axl Rose com 25 anos faz toda diferença. A letra foi inspirada na viagem da banda para uma série de shows em Seattle ainda nos primeiros dias da formação original. A ponte instrumental, um solo arrasador de Slash, serve para ir aquecendo o público até chegar ao auge de uma nova repetição do refrão - parte fundamental para compreensão da ideia de a cidade grande ser uma selva em que você pode ser devorado a qualquer momento. A seguinte, "It's So Easy", era uma faixa acústica transformada em uma potente canção por uma ideia de Slash em acelerar a guitarra.

"Nightrain" nasceu inteiramente instrumental nas mãos de Slash, Stradlin e Duff, mas ficou parada. Um dia, eles estavam saindo de um show quando alguém gritou ''I'm on the night train!'. Eles correram para casa e Axl ia improvisando a letra enquanto os outros três tocavam o que tinham composto dias antes. Na noite seguinte, eles já tinham a letra e melodia completos. Algumas letras do Guns são colocadas de lado por conta dos hits e uma delas é a de "Out ta Get Me", sobre um inocente que está sendo procurado. É um belo resumo de um hard rock de bom nível e cheio de guitarras altas.



O tema drogas não poderia ficar de fora nesse disco em especial e é contemplado em "Mr. Brownstone". Inspirada no vício de Adler e da namorada, a letra também é um resumo dos dias de Slash e Stradlin antes da fama. Os dois escreveram os versos todos separados para uni-los depois. Eles mostraram a Axl, que não fez nenhuma alteração. Já "Paradise City" nasceu em uma van enquanto eles voltavam de uma apresentação, segundo Slash escreveu em sua autobiografia. O guitarrista começou a improvisar e os outros seguiram, até que Axl cantou a primeira parte ("Take me down to the Paradise City"). Slash emendou com a segunda ("Where the grass is green and the girls are pretty") e assim nasceu um clássico dos anos 1980 – a parte final foi um improviso no estúdio.

"My Michelle" foi inspirada em uma moça de mesmo nome. Amiga da banda, ela estava sempre por perto por acompanhar a então namorada de Slash à época. Um dia, Axl decidiu escrever uma balada sobre uma pessoa e a escolheu. E ficou tão ruim, que o compositor decidiu ser completamente honesto na nova versão - incluindo detalhes bem pessoais da vida da garota, como o vício em drogas, não encarar a morte da mãe e ter um pai trabalhando na indústria pornô. Segundo a autobiografia de Slash, a moça gostou bastante da música, e isso a fez mudar de vida. Ela mudou e se afastou completamente desse estilo de vida destrutivo. A potente "Think About You" chega para levantar mortos e vivos com uma banda inspirada em tocar o mais alto que pode. Especula-se que Stradlin tenha escrito os principais versos tendo como base sua primeira experiência com heroína, mas, até hoje, ele nunca confirmou essa versão oficialmente.

Última faixa a ser escrita para o disco, "Sweet Child o' Mine" é o grande sucesso da história do Guns N' Roses. Seja pelo riff assobiável de Slash na guitarra, seja pela letra, é uma balada de nível absurdo para uma banda iniciante. Ela começou quando Slash, brincando com a guitarra, fez o poderoso riff. Stradlin o acompanhou, mas a dupla nem tinha ideia de que Axl estava ouvindo tudo e, partindo do que tinha, começou a escrever a letra. É mais uma canção que esbanja sensualidade, mas, ao mesmo tempo, tem um ar poético de amor perdido muito tocante. Axl partiu de uma piada entre os guitarristas e criou um clássico do rock.



As coisas aceleram para valer na rápida e poderosa "You're Crazy", em que eles não parecem estar satisfeitos com o volume máximo e fazem mais para tocar cada vez mais alto ao longo de pouco mais de três minutos, enquanto "Anything Goes" tem uma mistura de Black Sabbath com AC/DC que funciona muito bem para completar o álbum. O encerramento vem na ótima "Rocket Queen", outra pedrada musical da banda que dá para dividir em duas partes: a primeira bem mais veloz e cheia de sexualidade; a segunda é mais lenta, melancólica e cheia de conselhos para outra pessoa.

É uma estreia avassaladora, para não deixar pedra sobre pedra. Muitas bandas dariam o que tem, e muito mais, para ter metade dos sucessos desse álbum. Porque o Guns N' Roses, em forma e focado apenas na música, foi a maior banda do mundo entre o fim dos anos 1980 e meio dos anos 1990. E isso é indiscutível.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Welcome to the Jungle" (4:31)
2 - "It's So Easy" (Guns N' Roses, West Arkeen) (3:21)
3 - "Nightrain" (4:26)
4 - "Out ta Get Me" (4:20)
5 - "Mr. Brownstone" (3:46)
6 - "Paradise City" (6:46)
7 - "My Michelle" (3:39)
8 - "Think About You" (3:50)
9 - "Sweet Child o' Mine" (5:55)
10 - "You're Crazy" (3:16)
11 - "Anything Goes" (Guns N' Roses, Chris Weber) (3:25)
12 - "Rocket Queen" (6:13)

Todas as músicas foram compostas pelo Guns N' Roses, exceto as marcadas

Gravadora: Geffen
Produção: Mike Clink
Duração: 53min55s

W. Axl Rose: vocal, sintetizadores e percussão
Slash: guitarra, violão, guitarra slide e talkbox
Izzy Stradlin: guitarra, vocal de apoio e percussão
Duff "Rose" McKagan: baixo e vocal de apoio
Steven Adler: bateria, percussão e vocal de apoio



Gostou do post? Compartilhe nas redes sociais e indique o blog aos amigos!