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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Discos para história: Tropicália ou Panis et Circencis, por Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Mutantes e Tom Zé (1968)


A edição 142 da seção fala sobre um dos melhores trabalhos lançados no Brasil em todos os tempos

História do disco

Qualquer coisa precisa de um lugar para começar. O tropicalismo começou para o público nos bastidores do III Festival de Música Popular da TV Record, realizado em 1967. Se "Ponteio", de Edu Lobo e Capinam, ficou com a primeira colocação, havia mais a ser observado naquela nova geração de músicos que estavam aparecendo na TV naquele dia. Caetano Veloso e Gilberto Gil, então no início de carreira, mostravam que um novo tipo de música estava surgindo no Brasil – muito diferente da Jovem Guarda de Erasmo Carlos, Roberto Carlos e Wanderléia e da Pilantragem (ou samba-jovem) apresentado por Carlos Imperial e sua trupe.

Inspirados pelos Beatles e o então recém-lançado Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967) e a Banda de Pífanos de Caruaru, Gil, Caetano, Gal Costa e Tom Zé, todos baianos, ganharam o apoio da cantora símbolo da bossa nova Nara Leão (1942 – 1989), da banda paulista de rock Os Mutantes e dos os letristas José Carlos Capinan e Torquato Neto (1944 – 1972) para tentar mexer na estrutura da música brasileira. Toda essa miscelânea teve o artista gráfico, compositor e poeta Rogério Duarte (1939 – 2016) como professor e líder intelectual, e o artista plástico Hélio Oiticica (1937 – 1980), nas exposições e manifestos artísticos, como colaborador para disseminação das ideias, dos ideais e do nome, retirado de uma obra de arte feita por ele.

Mais discos dos anos 1960:
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A ideia de unir a música popular brasileira e todos os seus regionalismos com a guitarra elétrica, que trazia uma ideia de alguém sem princípios e pronto para adorar qualquer coisa vinda dos Estados Unidos, criou uma discussão enorme entre as revelações surgidas naquele período e os mais experientes, principalmente os bossa-novistas – os ditos verdadeiros donos da MPB. Na outra ponta estava a Jovem Guarda, que arrebatava jovens com músicas bobinhas e simples. Em tempos bem parecidos com os atuais, era difícil fazer ou falar qualquer coisa sem ser tachado de defender algum lado. E em plena ditadura militar, os ânimos estavam cada vez mais exacerbados. Um exemplo é o encerramento da coluna de Fausto Wolff na 'Tribuna da Imprensa', em 17 de outubro de 1968, quando ele escreveu sobre um show de Gil e Caetano acompanhados pelos Mutantes "artisticamente, e um acontecimento, até mesmo importante, mas, politicamente, façam-me o favor, não passa de uma piada". Apesar das tendências à esquerda de vários nomes ali, principalmente de Rogério Duarte, não fazia sentido ter lado quando o rompimento era a base. Para romper, não ter lado era ponto crucial.

Se existia o início e o fim, o tropicalismo foi o meio. Tropicália ou Panis et Circencis tinha um pouco de cada coisa, um pouco de tudo que havia feito sucesso no Brasil e no mundo até ali. Com tanta gente diferente entre si, mas unida por um mesmo ideal de rompimento com a estética vigente, era difícil algum tipo de coerência ou o opção por um estilo único. A escolha passou por juntar tudo, acrescentar os belos arranjos de Rogério Duprat (1932 – 2006) e fazer uma coisa só. Se o Sgt. Peppers... foi vendido como algo único e uma peça sólida - o que não nunca foi, confirmado anos depois por Paul McCartney – esse disco também não era. Mas acabou virando o manifesto de uma importante parcela insatisfeita da música brasileira. Era a contracultura chegando no Brasil de maneira muito forte e presente.

"Eu diria que é mais o resultado da aproximação das personalidades de Gilberto Gil e Caetano Veloso. [...] Ainda assim, uma vez que eu já estava dentro da música, sobretudo por causa de Gil, só desencadeei esse movimento [...] porque o próprio Gil estava muito excitado pra que algo nesse sentido acontecesse", disse Caetano Veloso, em entrevista ao site 'Tropicália'.

A capa do LP foi feita em São Paulo por Oliver Perroy, e todos deram palpite sobre como seria. A contracapa tem um texto de um suposto roteiro escrito por Caetano Veloso em que os participantes do disco têm uma conversa bem peculiar, mas nada que fosse considerado absurdo naquela época. Lançado no fim de julho de 1968, o disco ganhou uma festa na boate Dancing Avenida, no Rio de Janeiro. Cinco dias depois, o mesmo evento foi repetido em São Paulo, no Avenida Danças. Eles não sabiam que seria um dos últimos momentos de festa e alegria do grupo completo. A partir dali, seriam tempos duros para todos.

Veja também:
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O ano em que o Tropicalismo surgiu foi cheio nos aspectos sócio-político e econômico. Havia conflitos em quase toda parte, protestos prós e contra qualquer coisa. No fim de 1968, chegou-se ao limite e o Ato Institucional Número 5 foi assinado em dezembro, quando suspenderam direitos e deram ao então presidente Artur da Costa e Silva (1899 – 1969) plenos poderes para intervir como e quando quisesse em qualquer assunto. Nesse mesmo mês, Gilberto Gil e Caetano Veloso foram presos.

Ainda que tenha durado pouco mais de um ano, a tropicália cumpriu seu papel e mostrou um novo rumo para música brasileira. Gil e Caetano foram exilados pela ditadura e seus companheiros tomaram outros rumos na carreira, mas esse disco ficou. Gal Costa resumiu o que foi fazer parte daqueles dias. "Uma experiência espiritual fantástica. Aprendi a lidar com a polêmica, com o outro, a estar exposta e a receber críticas. Também fiz análise durante dez anos. Tudo isso me deu raiz".



Resenha de Tropicália ou Panis et Circencis

O início de "Miserere Nóbis" traz toda poesia de Capinam e a bela voz de Gilberto Gil. A melodia explora vários sons e tem violão liderando, mostrando como seria o disco a partir da construção dessa primeira faixa. Logo depois vem "Coração Materno", de Vicente Celestino, um dos cantores mais populares no Brasil. Partindo da ideia de ter uma mistura do popular e a quebra da estética, ter uma faixa dele era interessante. E a interpretação de Caetano Veloso, aliado aos arranjos de Rogério Duprat, deu a ela um tom melancólico certeiro.

Clássico na voz dos Mutantes, "Panis et Circencis", de Gil e Caetano, virou o exemplo da mudança musical mostrada pela contracultura. O arranjo, variando entre a brincadeira com diversos instrumentos e a seriedade, tem um tom animado. E a vozes dos três Mutantes, Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, torna tudo muito agradável. Quando a faixa muda e acelera um pouco, beirando o experimental, eles conseguem manter o ouvinte e até chamam para dançar. É a música que melhor representa a novidade que eles queriam mostrar.



"Lindoneia" é um bolero (sim, um bolero) de Gil e Caetano gravado por Nara Leão. Se ela era uma bossa-novista de mão cheia, essa faixa não a tirou da zona de conforto, mas serviu para mostrar a qualidade de Duprat em criar belos arranjos. Outra canção marcante do movimento é "Parque Industrial", que conta com a participação de quase todos os envolvidos. E também mostrava todo talento de Tom Zé em brincar com diversos gêneros em um curto espaço. O baião de "Geleia Geral" tem um quê de circo e é outra que convida o ouvinte para dançar.

Cantada por Gal Costa, "Baby" tem certo teor contestador ao falar sobre uma juventude que estava estabelecida como um nicho de mercado há pouco tempo, mas que acabaria sofrendo com a ditadura poucos meses depois do lançamento do disco. Em um momento complicado, essa faixa mostrava que era possível ter uma vida, até certo ponto, normal. Já a seguinte, "Três Caravelas (Las Tres Carabelas)", apresenta uma letra parte em espanhol e parte em português em um ritmo bem caribenho cheio de gracejos.

Outra de teor crítico leve, "Enquanto seu Lobo Não Vem" tem provocações aos militares espalhadas ao longo dos quase dois minutos e meio de canção. O arranjo sombrio e a letra de mais pesada impõe certo medo, diferente da bonita e triste "Mamãe, Coragem" – a letra é a típica história contada por migrantes quando saíam de seus estados de origem para tentar a sorte nos estados mais ricos.



Os Mutantes e Gil uniram-se novamente no clássico "Bat Macumba", uma poesia concreta que vai perdendo sílabas ao longo da letra, porém elas vão retornam aos poucos para cairmos no início novamente. O ritmo é bem brasileiro, colocando o afro-samba, uma viola, o folk e o Batman na mesma toada. E mudando completamente o rumo, aparece "Hino ao Senhor do Bonfim", apresentado pela primeira vez em 1923. Sim, o disco é encerrado assim, tendo participações de quase todos os tropicalistas mais uma vez.

Ao cantar sobre algumas das principais questões brasileiras e misturar vários gêneros, quem participou desse disco conseguiu mostrar ao Brasil o que acontecia no mundo em vários quesitos – a música fazia parte de uma mudança de pensamento e de estética cultural pelos jovens de 20 e poucos anos. Entre todos os discos lançados no período, Tropicália ou Panis et Circencis é um marco para quem participou e para quem assimilou essa mensagem. A vida de todos mudou para sempre.



Ficha técnica

Tracklist:

Lado A

1 - "Miserere Nóbis" (Capinan e Gilberto Gil) (3:44)
2 - "Coração Materno" (Vicente Celestino) (4:17)
3 - "Panis et Circencis" (Caetano Veloso e Gilberto Gil) (3:35)
4 - "Lindoneia" (Caetano Veloso) (2:14)
5 - "Parque Industrial" (Tom Zé) (3:16)
6 - "Geleia Geral" (Gilberto Gil e Torquato Neto) (3:42)

Lado B

1 - "Baby" (Caetano Veloso) (3:31)
2 - "Três Caravelas (Las Tres Carabelas)" (Algueró Jr., Moreau. Versão: João de Barro) (3:06)
3 - "Enquanto seu Lobo Não Vem" (Caetano Veloso) (2:31)
4 - "Mamãe, Coragem" (Caetano Veloso e Torquato Neto) (2:30)
5 - "Bat Macumba" (Caetano Veloso e Gilberto Gil) (2:33)
6 - "Hino ao Senhor do Bonfim" (Artur de Sales e João Antônio Wanderley) (3:39)

Gravadora: Phillips
Produção: Manuel Barembein
Duração: 38min38s

Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Nara Leão, Mutantes, Tom Zé, Capinam e Torquato Neto: vocal, vocal de apoio e instrumentos diversos

Convidados:

Rogério Duprat: arranjos e regência
Manuel Barembein: vocal de apoio



Grande parte do material da pesquisa encontra-se disponível na íntegra em http://tropicalia.com.br/, o maior arquivo na internet sobre o tropicalismo, seus representantes, momentos importantes, entrevistas e análise sobre o período.

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