No YouTube

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Discos para história: Exile on Main St., dos Rolling Stones (1972)


Edição número 139 da seção fala de um dos clássicos de uma das melhores bandas de todos os tempos

História do disco

Mesmo com fama e sucesso, os Rolling Stones estavam quebrados. E estavam sendo passados para trás pelo empresário e advogado Allan Klein, que não estava pagando os altos impostos da banda no Reino Unido. O resultado? Uma dívida astronômica que eles não teriam como pagar imediatamente. Putos com Klein, entraram na justiça, porém perderam os direitos de "Brown Sugar" e "Wild Horses" e não havia uma solução para os problemas até a entrada de Marshall Chess na jogada.

Cofundador da gravadora dos Rolling Stones, Chess sugeriu ao grupo um acordo de distribuição com a Atlantic, famosa gravadora fundada por Ahmet Ertegün e Herb Abramson nos anos 1940. E o advogado da gravadora sugeriu a mudança de país para escapar dos altos impostos promovidos pelo Reino Unido. A França foi o lugar escolhido. Keith Richards foi para Nellcôte, em Villefranche-sur-Mer, próximo de Nice, Mick Jagger e sua nova mulher Bianca escolheram um castelo nas redondezas de Paris e o resto do grupo ficou no sul do país.


Mais Rolling Stones:
Discos para história: Sticky Fingers, dos Rolling Stones (1971)
Discos para história: Let It Bleed, dos Rolling Stones (1969)
Discos para história: The Rolling Stones, dos Rolling Stones (1964)
Discos para história: Their Satanic Majesties Request, dos Rolling Stones (1967)
Discos para história: Some Girls, dos Rolling Stones (1978)

Com bastante material escrito nos últimos dois anos, escolhido a dedo para ficar longe dos olhos de Klein, a banda começou a trabalhar no novo álbum. Como não havia nenhum lugar próximo em condições de recebê-los, tecnicamente e financeiramente, o estúdio móvel do grupo foi usado mais uma vez para ser o ponto de partida dos trabalhos, além da mudança da antes adega da casa de Keith em um lugar bom o suficiente para sair alguma coisa – seria a primeira e única ideia do guitarrista em anos no grupo.

Já que a coisa iria acontecer na casa de Keith, então implementou-se o 'horário do Keith'. O guitarrista acordava por volta das 16h e ficava interagindo com os inúmeros convidados – desde membros de outras bandas até traficantes -, depois trabalhava com Mick até às 22h, quando pegava sua guitarra e ia ao local de gravação com o vocalista. Claro, essa nova metodologia desagradou muito a Jagger, acostumado com a rigidez e com horários certos desde os tempos de criança.

Mais discos dos anos 1970:
Discos para história: Construção, de Chico Buarque (1971)
Discos para história: The Clash, do Clash (1977)
Discos para história: “Heroes”, de David Bowie (1977)
Discos para história: Led Zeppelin III, do Led Zeppelin (1970)
Discos para história: A Tábua de Esmeralda, de Jorge Ben (1974)
Discos para história: Tonight's the Night, de Neil Young (1975)

"Basicamente, Mick e eu achávamos que era nosso dever mostrar uma música nova, um novo riff, uma nova ideia ou, de preferência, duas. Produzíamos muito. Achamos quer era impossível não apresentar alguma coisa todos os dias ou dia sim, dia não [...]. É aí que você entende quem com uma boa banda, você só precisa de uma fagulha de ideia. Antes que a noite acabe, vai ter alguma coisa bonita nas mãos", escreveu Richards em sua biografia, chamada Vida, lançada em 2010.

Por conta do uso excessivo de drogas, a polícia francesa apareceu mais de uma vez no local, forçando Richards a limpar o local – de drogas e de pessoas. Ele e sua mulher Anita chegaram a se mudar de casa para ver se o pessoal ia embora. E eles foram, no fim das contas. Mas a frustração se deu em grande parte da banda, a coisa não andava como nas gravações na Inglaterra. Por exemplo, Watts faltou em várias gravações por morar a três horas de carro da casa de Keith. Jimmy Miller acabou gravando algumas faixas no instrumento.

De repente, as coisas começaram a andar. Richards começou a acertar a composição de novos riffs, Jagger parou de reclamar e resolveu cantar, Charlie Watts encontrou o lugar ideal para o som da bateria e Mick Taylor parou de lamentar a preguiça de seus companheiros de banda. Como em um passe de mágica, a coisa fluiu muito bem nas semanas seguintes de trabalho. Pela primeira vez, Keith Richards foi o chefe e condutor de tudo, deixando Jagger em segundo plano nos Stones pela primeira vez.

Veja também:
Discos para história: Daydream Nation, do Sonic Youth (1988)
Discos para história: Revolver, dos Beatles (1966)
Discos para história: Mezmerize, do System of a Down (2005)
Discos para história: In the Wee Small Hours, de Frank Sinatra (1955)
Discos para história: Goodbye Yellow Brick Road, de Elton John (1973)

Claro que nem tudo seriam flores quando estavam perto de ir para Los Angeles trabalhar na parte final do álbum. Com a polícia de olho, Richards e Anita foram autuados por tráfico de heroína, proibidos de deixar a França até a resolução do caso e continuaram pagando o aluguel da casa. Ajudados por amigos influentes, eles puderam sair, mas sob pena de não retornar ao país por dois anos.

Nos Estados Unidos, usando o material bruto das gravações, veio a ideia de aproveitar quase tudo para fazer um disco duplo. Conversa vai, conversa vem, veio o acordo depois de longa negociação. Tudo foi colocado na mesa e o Stones foram irredutíveis. Depois de cinco meses de trabalho só no material bruto, Exile on Main St. foi lançado em 12 de maio de 1972, chegando ao primeiro lugar rapidamente. Mas parte da crítica achou as canções inconsistentes e reprovou o álbum - só o crítico da Melody Maker acertou ao falar que era o melhor trabalho deles. Anos depois, o décimo disco de estúdio dos Stones seria aclamado como o melhor trabalho da banda em sua longa história.



Resenha de Exile on Main St.

A animada "Rocks Off" abre com um riff muito característico de Keith Richards logo na abertura, deixando claro que ele estava em plena forma. Harmonicamente, é uma canção perfeita e não há nada fora do lugar. Começar assim, sem dúvida alguma, é ótimo. Ainda mais para cima, "Rip This Joint" é um rockabilly dançante de boa qualidade em que piano e saxofone dão o tom do início ao fim.

"Shake Your Hips", lançada pelo bluesman Slim Harpo em 1965, e "Casino Boogie" entram no registro para ser aquela parte que remete ao passado bluseiro dos Stones, já "Tumbling Dice" virou um clássico instantâneo. O piano de Ian Stewart, a guitarra certeira de Richards, o vocal de Jagger, a levada de Watts, o apoio de Taylor. Tudo em perfeita harmonia para dar vida a um clássico.



Como vira a ser praxe, os Stones gravara uma faixa com um quê country. No caso, "Sweet Virginia" tem todas as características de um do início ao fim. A canção foi alvo do processo movido por Klein, que alegou ser dono dos direitos dela – segundo ele, a faixa foi composta quando a banda tinha contrato com ele. A seguinte, "Torn and Frayed", não é bem um country, mas não é bem um gospel, tampouco beira o soul. É um pouco de cada – essa canção que deveria ser mais valorizada. Tem banda que daria o que tem para tê-la em seu repertório.

De ler os jornais, nasceu a letra de "Sweet Black Angel", sobre a ativista Angela Davis – acusada de assassinato à época. Isso mostrava a habilidade dos 'Glimmer Twins' em trabalhar em cima de uma ideia real e transformá-la em música. Outro clássico vindouro, "Loving Cup" é facilmente decorável por ser simples como um rock dos anos 1950 e pop o suficiente para atrair qualquer pessoa em uma estação de rádio.

"Happy" é cantada por Richards e, pasmem, virou single e entrou no top-30 nos Estados Unidos, surpreendendo a própria banda – que abertura para o lado B. Claro, a letra fala sobre drogas, como o guitarrista 'sempre toma doces estranhos', por exemplo. Outra beirando o country, "Turd on the Run" tem uma levada bem acelerada da guitarra e as maracas ajudam a compor o ritmo. Em "Ventilator Blues", bem mais lenta, temos o único crédito a Mick Taylor como compositor – na autobiografia lançada nos anos 1990, ele alega ter participado de mais canções.



O ritmo mais baixo segue em "I Just Want to See His Face", um gospel que nasceu durante uma jam entre Jagger, Watts e Taylor. "Let It Loose" mantém a mesma pegada, mostrando uma tendência do grupo em explorar a música de raiz dos Estados Unidos – outra faixa menosprezada pelos pesquisadores e fãs ao longo dos anos. Penúltimo clássico saído de Exile..., "All Down the Line" é uma canção bem Stones. Primeiro, o ritmo dançante é certeiro para Jagger começar a dançar no palco; segundo, o riff de Richards é reconhecível nos primeiros acordes, mostrando sua característica mais particular na hora de trabalhar com a guitarra; terceiro, a levada de Watts, simples e certeira, mostra que ele é 'o' grande baterista do rock. Enfim, nasceu com cara de clássica. E virou uma.

O cover de "Stop Breaking Down" é uma baita homenagem a Robert Johnson e conta com um Mick para lá de inspirado na gaita, ficando com a cara deles. Composta na época em que Brian Jones (1942 – 1969) era membro da banda, "Shine a Light" nasceu gospel, mas ganhou um tom mais pesado na apresentações ao longo dos anos. A letra, de tom otimista, tem no refrão (May the good Lord shine a light on you/Make every song you sing your favorite tune/May the good Lord shine a light on you/Warm like the evening sun) o ponto mais alto. E os vocais de apoio colocam o ouvinte dentro de um culto, praticamente. Até pela genialidade da anterior, "Soul Survivor" acaba sendo um encerramento abaixo - não por culpa da música, que é boa, mas a escolha na montagem da ordem não funcionou; ao contrário teria sido melhor.

Um clássico será sempre um clássico, ainda mais um dos Rolling Stones. Exile on Main St. juntou o aproveitamento de antigas faixas mais uma vontade de mostrar que, mesmo fora de casa, eles estavam dispostos a fazer um grande álbum. Mais do que isso, foi um LP que colocou a banda definitivamente na história.



Ficha técnica

Tracklist:

Disco 1

Lado A

1 - "Rocks Off" (4:31)
2 - "Rip This Joint" (2:22)
3 - "Shake Your Hips" (Slim Harpo) (2:59)
4 - "Casino Boogie" (3:33)
5 - "Tumbling Dice" (3:45)

Lado B

6 - "Sweet Virginia" (4:27)
7 - "Torn and Frayed" (4:17)
8 - "Sweet Black Angel" (2:54)
9 - "Loving Cup" (4:25)

Disco 2

Lado A

10 - "Happy" (3:04)
11 - "Turd on the Run" (2:36)
12 - "Ventilator Blues" (Jagger/Richards/Mick Taylor) (3:24)
13 - "I Just Want to See His Face" (2:52)
14 - "Let It Loose" (5:16)

Lado B

15 - "All Down the Line" (3:49)
16 - "Stop Breaking Down" (Robert Johnson) (4:34)
17 - "Shine a Light" (4:14)
18 - "Soul Survivor" (3:49)

Gravadora: Rolling Stones
Produção: Jimmy Miller
Duração: 67min07s

Mick Jagger: vocais, gaita e percussão; guitarra em "Tumbling Dice" e "Stop Breaking Down"
Keith Richards: guitarra, violão, vocais de apoio; vocal principal em "Happy"; teclado em "I Just Want to See His Face"; baixo em "Casino Boogie", "Happy" e "Soul Survivor"; guitarra principal em "Tumbling Dice"
Mick Taylor: guitarra, violão e guitarra slide; baixo em "Tumbling Dice", "Torn and Frayed", "I Just Want to See His Face" e "Shine a Light"
Bill Wyman: baixo
Charlie Watts: bateria

Convidados:

Nicky Hopkins: piano
Bobby Keys: saxofone; percussão em "Happy"
Jim Price: trompete e trombone; órgão em "Torn and Frayed"
Ian Stewart: piano em "Shake Your Hips", "Sweet Virginia" e "Stop Breaking Down"
Jimmy Miller: bateria em "Tumbling Dice", "Happy" and "Shine a Light"; percussão em "Sweet Black Angel", "Loving Cup", "I Just Want to See His Face" e "All Down the Line"
Bill Plummer: contra-baixo em "Rip This Joint", "Turd on the Run", "I Just Want to See His Face" e "All Down the Line"
Billy Preston: piano e órgão em "Shine a Light"
Al Perkins: pedal steel em "Torn and Frayed"
Richard Washington: marimba em "Sweet Black Angel"
Clydie King e Venetta Fields: vocais de apoios em "Tumbling Dice", "I Just Want to See His Face", "Let It Loose" e "Shine a Light"
Joe Green: vocais de apoios em "Let It Loose" e "Shine a Light"
Gram Parsons: vocais de apoio em "Sweet Virginia"
Chris Shepard: tambourine em "Turd on the Run"
Jerry Kirkland: vocais de apoio em "I Just Want to See His Face" e "Shine a Light"
Mac Rebennack, Shirley Goodman e Tami Lynn: vocais de apoio em "Let It Loose"
Kathi McDonald: vocais de apoio em "All Down the Line"



Gostou do post? Compartilhe nas redes sociais e indique o blog aos amigos!

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...