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sexta-feira, 8 de abril de 2016

Discos para história: Kind of Blue, de Miles Davis (1959)


A 122ª edição da seção conta a história de um clássico do jazz: Kind of Blue é considerado por muitos o melhor disco do gênero em todos os tempos

História do disco

Miles Davis mostrava que era um dos grandes da geração do jazz surgida nos anos 1940 ao explorar várias formações para sua banda – de quarteto a sexteto. No final de 1958, depois de algumas experiências interessantes na música e de inserções de tipos diferentes de sonoridade, ele juntou Cannonball Adderley, John Coltrane, Wynton Kelly, Paul Chambers e Jimmy Cobb para formar um novo grupo.

Entre as coisas que o incomodavam no jazz, as mudanças de acorde serem cada vez mais complexas, impedindo a evolução do estilo, estavam entre elas. Davis via isso como um obstáculo ao criativo e improviso. Nisso, ele viu a chance de implementar uma mudança ao explorar o jazz modal, braço do gênero que não necessita seguir a progressão dos acordes ou regras de harmonia, mas é mais difícil por exigir mais poder de improvisação do músico na hora de dar prosseguimento à música (como não há tempo, nem espaço para explicar, é uma simplificação bem resumida do estilo). O pianista George Russell foi o primeiro a abraçar essa mudança radical e muitos vieram na sua cola – Miles entre eles.

Kind of Blue nasceu em cima dessa ideia. Depois de estar mais familiarizado com a novidade, o ele e a banda entraram em estúdio nos dias 2 de março e em 22 de abril para a gravação do novo álbum. "So What" e "All Blues" já haviam sido exploradas pelo quinteto em outros momentos, mas as outras faixas foram conhecidas apenas em estúdio. Tudo isso foi feito para tentar dar a elas o máximo de frescor possível, como se banda e ouvinte tivessem a mesma sensação de conhecimento ao ouvi-las pela primeira vez. A lenda dizia que todo disco foi gravado em apenas um take, mas só "Flamenco Sketches" teve essa honra – no caso, a lenda é muito mais legal que a verdade.

Lançado em 17 de agosto de 1959, o álbum virou a pedra fundamental do trabalho de Miles Davis. Caso tenha alguma dúvida por onde começar, inicie por ele (depois passe para Bitches Brew, de 1970). Sem qualquer questionamento, foi abraçado por público e crítica como o melhor disco daquele ano. O impacto do disco mudaria o jazz para sempre.

O interessante do período é notar como as coisas aconteceram. Depois da primeira morte do rock (Buddy Holly e Ritchie Valens mortos, Elvis Presley no exército, Little Richard na música gospel, Chuck Berry preso e acusado de pedofilia e Jerry Lee Lewis casado com a prima de 13 anos, envolto em uma das grandes polêmicas daquela década e na lista negra de várias rádios pelos Estados Unidos), o blues e o jazz retomaram aos postos principais das paradas em 1959. Não que os gêneros estivessem sumidos ou algo do tipo. Havia uma mistura maior entre o lado jovem e a velha guarda, mas o segundo voltou com força quando o então novo estilo praticamente sumiu das rádios no fim dos anos 1950. Precisava-se de maturação para novas coisas, mas isso só aconteceria no início da década seguinte, quando todas essas influências levaram vários jovens a formarem uma banda.


Resenha de Kind of Blue

Para total absorção do conteúdo de Kind of Blue, é recomendável várias audições ao longo de vários anos. A primeira impressão nunca é a que fica e é o tipo de disco que só melhora com a idade – sua e dele. O início de "So What" é uma boa amostra disso, quando tudo vai ganhando mais sentido e novos horizontes na medida em que é mais e mais ouvido. A progressão da banda enquanto os instrumentos vão aparecendo é notória, cada pedaço dessa faixa de quase dez minutos é um aprendizado, uma nova chance de admirar, chorar e ter consciência de que não é um álbum comum, algo descartável ou velho. Ainda soa novo, como se tivesse sido prensado hoje mesmo.

Especialista em blues, Wynton Kelly assumiu o piano em "Freddie Freeloader" e conseguiu acompanhar bem o ritmo exigido para o tipo de gravação que Miles Davis queria fazer. Mais suave que a anterior, principalmente no piano, é uma canção encantadora. Fechando o lado A, outro exemplo de jazz modal: "Blue in Green". Única em que Cannonball Adderley está fora, a terceira música do álbum é curta e simples, mas magnífica ao conseguir mostrar como o jazz foi reestruturado no fim dos anos 1950.



A banda completa se reúne novamente em "All Blues". De cara, é possível notar o frescor dela em pleno 2016 e o poder dela é arrebatador, e a vontade é de deixar tocando o dia inteiro. Nem precisa terminar para saber que é uma composição instrumental de alto nível. Para fechar o trabalho de maneira sublime, "Flamenco Sketches" é totalmente improvisada – do início ao fim. Todos os músicos puderam escolher e desenvolver a melodia de seu instrumento da maneira que achava melhor dentro de um início apresentado por Miles Davis.

Depois de tantos anos, quase 60, o trabalho ainda é imaculado e perfeito aos ouvidos. Não tem como não se emocionar com Miles Davis falando com você da forma mais simples possível: um trompete e a alma. Um dos álbuns mais sublimes já feitos na música, talvez a obra-prima do jazz. Um presente dos céus com a participação de outra lenda: John Coltrane. Um disco para ficar na história por mais 100 anos.



Ficha técnica:

Tracklist:

Lado A

1 - "So What" (9:04)
2 - "Freddie Freeloader" (9:34)
3 - "Blue in Green" (Miles Davis e Bill Evans) (5:27)

Lado B

4 - "All Blues" (11:33)
5 - "Flamenco Sketches" (Miles Davis e Bill Evans) (9:26)

Todas as músicas foram escritas por Miles Davis, exceto as marcadas.

Gravadora: Columbia
Produção: Teo Macero e Irving Townsend
Duração: 45min44s

Miles Davis: trompete
Julian "Cannonball" Adderley: saxofone alto (exceto em "Blue in Green")
John Coltrane: saxofone tenor
Bill Evans: piano (exceto em "Freddie Freeloader")
Wynton Kelly: piano em "Freddie Freeloader"
Paul Chambers: contrabaixo
Jimmy Cobb: bateria



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