quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Discos para história: Gunfighter Ballads and Trail Songs, de Marty Robbins (1959)


Álbum foi o primeiro do country a chegar ao primeiro lugar da parada pop

História do disco

Na história da música country, nunca houve alguém como Marty Robbins – nascido Martin David Robinson. Morto em dezembro de 1982, aos 57 anos, Robbins foi um pioneiro a conseguir mudar o status do gênero nas paradas ao ser o primeiro a entrar na parada pop.

Criado na parte pobre de um bairro em Phoenix, no Arizona, o futuro cantor passou por muitas dificuldades na infância. Com dez irmãos, era difícil ter algo além do mínimo. E ainda havia o pai alcoólatra, que abandonaria a família em 1937. Mas os problemas eram esquecidos a cada fim de noite, quando Texas Bob Heckle, avô de Robbins e famoso médico local, contava uma história sobre as lendas e folclores do Meio-Oeste dos Estados Unidos. Heckle morreu em 1931, mas deixou um imenso legado para seu neto.

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Existia poucas ofertas de emprego para os jovens daquela época. Ou eles optavam por um trabalho em uma fábrica, ou entravam nas Forças Armadas. Robbins optou pelo segundo e, em 1942, aos 17 anos, entrou na Marinha. Sim, ele entrou nos momentos finais da Segunda Guerra Mundial, mas não chegou a participar diretamente de algum combate. O navio para onde foi destacado ficou a maior parte do tempo parado perto das Ilhas Salomão, no Oceano Pacífico, pronto para dar suporte a aviões e navios dos Aliados na Campanha em Bougainville – um dos muitos embates entre Aliados e os japoneses.

Com muito tempo livre, foi no navio que ele aprendeu a tocar violão, a compor músicas e aprender sobre as histórias do reino do Havaí. Ao sair da Marinha em 1947, ele voltou para o Arizona e começou a se apresentar em clubes locais para conseguir um trocado, ao mesmo tempo em que fazia 'bicos' como eletricista e motorista de caminhão.

Mais discos dos anos 1950:
Discos para história: Orfeu da Conceição, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes (1956)
Discos para história: Ritchie Valens, de Ritchie Valens (1959)
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Discos para história: Canção do Amor Demais, de Elizete Cardoso (1958)
Discos para história: Ella and Louis, de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong (1956)

O que não podemos esquecer é o fato de o circuito country no Meio-Oeste era, e ainda é, absurdamente grande. Então, se existia talento genuíno em um cantor, cantora ou banda, rapidamente crescia dentro daquela comunidade. Também não podemos esquecer que a programação segmentada da região naquela época era feita por, basicamente, country. Marty Robbins conseguiu tanto destaque que conseguiu seu próprio programa de rádio no início dos anos 1950, fora as aparições no tradicional Grand Ole Opry, programa criado em 1925 e que está no ar até hoje.

Mesmo assim, não era fácil conseguir um contrato com uma gravadora. Robbins teve ajuda de Little Jimmy Dicken, uma lenda do country local. Após fazer uma participação especial no programa de rádio do amigo, Dicken fez uma recomendação a gravadora Columbia para tê-lo como um de seus contratados. Em 1951, começou uma parceria que iria até 1972, duração da primeira passagem – após um breve período na MCA, o cantor retornaria à Columbia em 1975 até o abrupto fim da vida.

Veja também:
Discos para história: Physical Graffiti, do Led Zeppelin (1975)
Discos para história: Low, de David Bowie (1977)
Discos para história: Either/Or, de Elliott Smith (1997)
Discos para história: Strangeways, Here We Come, dos Smiths (1987)
Discos para história: Magical Mystery Tour, dos Beatles (1967)
Discos para história: In Rainbows, do Radiohead (2007)
Discos para história: Brilliant Corners, de Thelonious Monk (1957)

Foram quatro discos – Rock'n Roll'n Robbins (1956), The Song of Robbins (1957), Songs of the Islands (1957) e Marty Robbins (1958) – até o sucesso definitivo com Gunfighter Ballads and Trail Songs, gravado em apenas um dia. O LP é o que podemos chamar de arrasa-quarteirão por ter chegado ao primeiro lugar da parada country e da parada geral, algo que nenhum outro disco do gênero havia conseguido até então.

Em 1960, ele foi agraciado com o Grammy pela Melhor Gravação Country & Western por "El Paso", o grande sucesso da carreira. No fim de 2017, o disco foi um dos escolhidos para entrar na Biblioteca Nacional do Congresso dos Estados Unidos por ser "cultural, historicamente e artisticamente significativo para toda uma geração de fãs de country".


Resenha de Gunfighter Ballads and Trail Songs (relançamento 1999)

Uma das grandes qualidades de Marty Robbins como compositor é conseguir contar uma boa história. Aproveitando esse talento mais um acompanhamento muito simples da banda de apoio, "Big Iron", primeira de quatro composições originais no álbum, abre o disco e soa como se fosse uma história de 80, 100 anos antes. Parece muito com os clássicos do Velho Oeste, aqueles consagrados no cinema nos anos 1950 e 1960. Mas, além dos contos, temos coisas mais palpáveis: em "A Hundred and Sixty Acres", o cantor simplesmente comemora o fato de ter um local para chamar de seu – com uma cama e um punhado de dinheiro no bolso, o suficiente para sobreviver.

Claro que também há espaço para uma tragédia amorosa ao melhor estilo Romeu e Julieta do Velho Oeste. "They're Hanging Me Tonight" preenche bem essa lacuna, enquanto "Cool Water" soa como o tipo de canção que o trabalhador cantaria durante a procura por um poço com água para matar a sede e começar uma futura plantação.



Depois de assuntos mais mundanos, vamos dizer assim, Robbins traz duas canções tradicionais – contos passados de geração em geração apenas usando o violão e as palavras para ensinar as crianças a cantá-los a seus futuros filhos e netos. A primeira é sobre o lendário ladrão Billy the Kid (1859-1881) e a segunda é sobre a morte de Utah Carol durante sua ronda para cuidar do gado. São dois bons exemplos de um country com histórias simples que ganharam os Estados Unidos no início da formação do país.

"The Strawberry Roan" fala sobre dominar um cavalo bravo, "The Master's Call" é sobre um bandido se arrepender e encontrar a salvação na palavra de Deus e "Running Gun" conta a história de como um homem, que virou bandido, reencontrou a mulher que ele havia largado. Eu acreditaria se me falassem que a história do mesmo homem. Impressionante como Marty Robbins passa muita credibilidade ao cantar essas canções.



Mas seu grande sucesso e faixa mais conhecida é "El Paso", um triângulo amoroso que acaba muito mal para o protagonista – outra tragédia com ar 'shakespeariano' com um arranjo dos mais simples. A gravadora ficou com receio de lançá-la como single por ter mais de quatro minutos de duração, tempo incomum à época para uma música de trabalho, então lançaram duas versões. Ainda bem que diretores não sabem nada de música, porque a versão original acabou sendo a mais tocada por ter a preferência do público.

As duas últimas faixas têm o lamento do amor perdido ("In The Valley") e a nostalgia de não estar mais na terra natal, mas o sonho de voltar para lá e ouvir o canto dos pássaros mais uma vez é a grande meta de vida do protagonista ("The Little Green Valley").

Esse disco mostra como o country nasceu para contar lendas e histórias de um povo simples e trabalhador do início da formação dos Estados Unidos. E Marty Robbins apresenta essas histórias de maneira única, como só alguém que as ouviu durante quase toda uma vida sabe fazer.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Big Iron" (Marty Robbins) (3:56)
2 - "A Hundred and Sixty Acres" (David Kapp) (1:40)
3 - "They're Hanging Me Tonight" (James Low and Art Wolpert) (3:05)
4 - "Cool Water" (Bob Nolan) (3:09)
5 - "Billy the Kid" (tradicional) (2:19)
6 - "Utah Carol" (tradicional) (3:13)
7 - "The Strawberry Roan" (Curley Fletcher) (3:25)
8 - "The Master's Call" (Marty Robbins) (3:05)
9 - "Running Gun" (Tompall Glaser and Jim Glaser) (2:10)
10 - "El Paso" (Marty Robbins) (4:19)
11 - "In The Valley" (Marty Robbins) (1:48)
12 - "The Little Green Valley" (Carson Robison) (2:26)

Gravadora: Columbia
Produção: Don Law
Duração: 35min25s

Marty Robbins: vocal e violão
Grady Martin e Jack Pruett: violão
Bob Moore: baixo
Louis Dunn: bateria
Tompall & the Glaser Brothers: vocal de apoio



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