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sexta-feira, 17 de abril de 2015

Discos para história: The Joshua Tree, do U2 (1987)


O 84º Discos para história será sobre um dos clássicos dos anos 1980. Vivendo seu auge técnico e criativo, o U2 se reciclou para gravar, na visão de muitos, seu melhor trabalho: The Joshua Tree.

História do disco

Uma das coisas que o U2 conseguiu ao longo dos anos 1980 foi se tornar uma banda que lota estádios. Com o teor político de suas letras e as manifestações cada vez mais épicas de Bono no palco, os irlandeses angariaram uma legião de fãs gigantesca nos primeiros anos daquela década. E isso só aumentou quando eles participaram do Live Aid de 1985, mostrando a força de suas canções em um dos momentos mais importantes da história da música.

Mas quem pensa que eles estavam satisfeitos com o trabalho em estúdio engana-se. O foco estava em explorar mais de outros tipos de gêneros e ritmos, principalmente ir mais fundo na música tradicional americana e irlandesa – a raiz de muito do que apareceu no mundo anos depois. Estimulado por alguns amigos, Bono sentou e começou a escrever letras unicamente para tentar melhorar como letrista. Aos 26 anos e vivendo um momento que poucos tiveram em suas carreiras, estava na hora de ele mostrar a que veio de verdade.


Ao parar os trabalhos de gravação para uma turnê em outubro de 1986 e viagens à Nicarágua e San Salvador, o vocalista viu realidades diferentes, como o sofrimento e guerras civis. Esses momentos acabaram sendo fundamentais para composição de letras tocantes e que relatavam experiências que não eram as dele. E ainda existia o fato de a banda como um todo ter amadurecido, no palco e no estúdio, então as influências e o momento pessoal acabaram ajudando a construir The Joshua Tree, quinto álbum do U2.

Brian Eno e Daniel Lanois foram chamados para trabalhar com eles novamente e levaram consigo o engenheiro de som Mark "Flood" Ellis, que havia trabalhado com Nick Cave e impressionado Bono pela forma como as músicas haviam soado em seus ouvidos. Para o novo disco, o U2 desejava algo que explorasse mais a banda em espécies de jams sessions do que força nas letras e algo relacionado ao pós-punk.
Previsto para o final de 1986, o disco acabou sofrendo atraso por conta do trabalho que todos empenharam no processo de gravação. Cada detalhe era visto e revisto inúmeras vezes até que todos ficassem satisfeitos com o resultado obtido. Isso extenuou a todos e gerou a contratação de Steve Lillywhite para mixar os potenciais singles, mas a chegada do novo membro gerou certo ciúme entre quem participou do projeto do início ao fim. Mas tudo acabou bem, como quase sempre.

Mesmo com o disco pronto, o U2 voltou ao estúdio para regravar algumas coisas que, segundo eles, ainda estavam fora de lugar desde a pausa em outubro. Quando tudo ficou pronto, pela primeira vez em quase uma década de carreira, Bono se deu por satisfeito inteiramente com um registro. E segundo o próprio vocalista à época, era o melhor álbum que ele havia gravado em sua vida.

As ideias da capa e do título eram representar o deserto como o lugar base do início da civilização. Depois de três dias circulando pelo Mojave, na Califórnia, eles fizeram algumas fotos que teriam potencial para entrar no encarte. Quando eles conheceram as Joshua trees (Árvore de Josué, em português; Yucca brevifolia, nome científico), Bono soube da história da chegada dos Mórmons na região que, quando viram a árvore, lembraram da história do patriarca Josué no momento em que ele ergueu as mãos e pediu ajuda a Deus durante a Batalha de Gibeom. Foi sabendo disso que o trabalho ganhou o nome da tal árvore.

Colocado no mercado em 9 de março de 1987, The Joshua Tree foi muito elogiado por público e crítica, e atingiu a primeira colocação em 20 países, ainda ganhou o Grammy de Melhor Álbum e virou o disco do U2 mais vendido de todos os tempos. Recentemente, entrou nos arquivos do Registro Nacional de Gravações dos Estados Unidos por ser considerado “histórico e importante na cultura americana”.


Resenha de The Joshua Tree

Uma banda que consegue ter em sua discografia uma canção como - "Where the Streets Have No Name" já merece estar entre as melhores do mundo. A canção saiu de uma demo gravada por The Edge, que gravou todas as partes antes apresentar aos companheiros de U2. Gravada em takes e de jeitos diferentes até chegar ao ponto ideal, a letra fala de como as pessoas vivem na Irlanda do Norte, em que a religião e a renda das pessoas estão em suas caras, enquanto isso fica menos evidente em países pobres da África.

Outra que saiu de uma demo, esta gravada pelo baterista Larry Mullen Jr., foi "I Still Haven't Found What I'm Looking For". Aliás, a bateria é uma das coisas para se elogiar nessa música, porque foi um negócio muito diferente do que as pessoas estavam acostumadas – e veio de um grupo que não fazia esse tipo de coisa. É possível afirmar que afirmar que é a canção em que o U2 mais se aproximou do gospel, tanto na letra quanto na melodia.



Desta vez em conjunto, todos os quatro membros trabalharam em "With or Without You" desde o início. A letra era uma sobra do disco passado, mas logo virou o que todos conhecemos quando Bono a viu e resolveu escrever o refrão (With or without you/ With or without you/ I can't live/ With or without you). Uma coisa marcante é o efeito na guitarra de The Edge, outra coisa que alguém criou do nada e levou até os estúdios de gravação.

O interessante nesse início do disco é ter três canções que viraram clássicos com o passar dos anos. E também não é difícil ver que o U2 estava aliando elementos como bateria eletrônica, overdubs e outras coisas que fizeram muito sucesso nos estúdios nos anos 1980, mas ainda havia aquela alma da banda irlandesa que se fez contando os dramas de seu lugar de origem.



Depois de um início um tanto lírico e cheio de experimentações, o U2 volta com os temas políticos e mais pesados em "Bullet the Blue Sky", canção que Bono fez durante sua passagem por El Salvador, onde viu a intervenção americana acontecer durante uma das inúmeras guerras civis no país que aconteceram ao longo do século 20. Da bateria até a guitarra, a banda inteira parece cantar e tocar com muita raiva e indignação. A banda estava disposta a fazer algo mais na raiz da música americana, certo? Pois isso é feito em "Running to Stand Still", uma delicada faixa com sua melodia improvisada que fala sobre o aumento considerável do vício em heroína por parte dos jovens irlandeses – é considerada uma espécie de continuação de “Bad”, de The Unforgettable Fire.



Inspirada na greve dos mineradores em 1986, e incentivado por Bob Dylan, Bono escreveu "Red Hill Mining Town". Como não sabia muito sobre o movimento em si, ele acabou focando mais nas relações pessoais dos grevistas, e isso gerou mais uma daquelas coisas épicas que só o U2 conseguia fazer sem parecer chato. Mas drama mesmo foi "In God's Country", música mais trabalhosa de todo álbum. Foi quando rolou a ideia de transformá-la em algo mais rock, ideia que ajudou The Edge e Adam Clayton a encontrarem o ritmo ideal.

"Trip Through Your Wires" pende mais para o country, algo que eles também estavam buscando fazer neste álbum. E, ao contrário das outras, a melodia é mais simples e não é carregada de efeitos, e é possível dizer que é a mais crua das 11 que compõe o disco. Em um dos seus melhores momentos como letrista, Bono homenageou seu amigo Greg Carroll, morto em um acidente de moto em Dublin, em "One Tree Hill" (nome de um local montanhoso na Nova Zelândia, terra natal de Carroll). Devido ao tema e a voracidade emocional da letra, a canção foi gravada em apenas um take porque o Bono não teve condições emocionais de continuar.



As duas últimas canções reservam coisas distintas. Enquanto "Exit" foi inspirada no livro de Norman Mailer chamado The Executioner's Song e traz versos como A hand in the pocket/ Fingering the steel/ The pistol weighed heavy/ And his heart he could feel was beating, "Mothers of the Disappeared", última canção, fala sobre a situação vivida pela população de Nicarágua, El Salvador e Argentina, vítimas de ditaduras cruéis que tiraram a vida de milhares de pessoas. A banda consegue criar um clima triste e, ao mesmo tempo, contestador. É um encerramento tocante e um belo tributo àqueles que perderam alguém.

Mais maduro e com cancha suficiente para buscar novos horizontes, o U2 uniu o velho, blues e folk, ao novo, elementos eletrônicos e distorção, em The Joshua Tree. Se ainda havia algum tipo de dúvida sobre a capacidade musical dessa banda, dissipou-se rapidamente com esse disco, talvez o grande lançamento dos anos 1980.

Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Where the Streets Have No Name"
2 - "I Still Haven't Found What I'm Looking For"
3 - "With or Without You"
4 - "Bullet the Blue Sky"
5 - "Running to Stand Still"
6 - "Red Hill Mining Town"
7 - "In God's Country"
8 - "Trip Through Your Wires"
9 - "One Tree Hill"
10 - "Exit"
11 - "Mothers of the Disappeared"

Gravadora: Island
Produção: Daniel Lanois e Brian Eno
Duração: 50min11s

Bono: vocais, gaita e guitarra
The Edge: guitarra, vocais de apoio e piano
Adam Clayton: baixo
Larry Mullen Jr.: bateria

Convidados:

Brian Eno: teclado, sintetizadores e vocais de apoio
Daniel Lanois: tamborine, omnichord, guitarra e vocais de apoio
The Armin Family: arranjo de cordas em "One Tree Hill"
The Arklow Silver Band: arranjo de metais em "Red Hill Mining Town"


Veja também:
Discos para história: Siamese Dream, do Smashing Pumpkins (1993)
Discos para história: Rage Against the Machine, do Rage Against the Machine (1992)
Discos para história: Licensed to Ill, dos Beastie Boys (1986)
Discos para história: Funeral, do Arcade Fire (2004)
Discos para história: Help!, dos Beatles (1965)
Discos para história: Parallel Lines, do Blondie (1978)
Discos para história: On The Beach, de Neil Young (1974)

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