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sexta-feira, 24 de julho de 2015

Discos para história: Parklife, do Blur (1994)


A 92ª edição do Discos para história marca mais um retorno de seção. Desta vez, falaremos sobre Parklife, terceiro álbum do Blur, quando começou o duelo contra o Oasis pela liderança nas paradas de sucesso na Inglaterra e pelo coração dos fãs.

História do disco

O Blur vinha de momentos frustrantes nos anos anteriores. Primeiro, uma turnê americana que fracassou, deixando os nervos dos membros do grupo à flor da pele. Segundo, o sucesso de bandas como Suede enquanto eles estiveram fora, deixaram uma espécie de impotência por parte deles. Por isso, o retorno à Inglaterra seria fundamental para retomar a carreira de onde eles haviam parado.

Obviamente, isso não aconteceu. Pressionados para fazer um disco de sucesso e ameaçados de demissão por parte da gravadora Food, eles fizeram Modern Life Is Rubbish, uma ode a música inglesa e cheia de influências de bandas como Kinks e Small Faces e que lembrava muito o movimento mod, de muito sucesso nos anos 1960. A intenção era fazer algo semelhante às bandas de Seattle fizeram poucos anos antes, quando eles colocaram a cidade na rota musical do mundo.

Bom, o movimento não ajudou em nada e só piorou a imagem do Blur, já muito arranhada por acontecimentos durante uma miniturnê ao lado do Suede. O disco foi um fracasso tão grande, que nem chegou a entrar no top-200 da Billboard nos Estados Unidos.

Dizem que no fracasso é possível vislumbrar dois caminhos: o da mudança ou aceitar a derrota. Albarn não ficou nada satisfeito, percebeu que era a hora de mudar e começou a trabalhar em canções novas rapidamente. Com dois discos ruins em três, segundo ele mesmo disse anos depois, não havia mais expectativas sobre o que o Blur poderia fazer na carreira. Então, foi nesse estalo dele e de seus companheiros que a história do grupo mudaria para sempre.

Em uma situação financeira ruim e desejando sair em turnê logo, a banda chamou Stephen Street para produzi-los mais uma vez. Com tudo definido na cabeça e nas habilidades do Blur, o processo de gravação de Parklife foi rápido, menos com "This Is a Low", uma trabalhosa faixa autobiográfica de Albarn em que a letra demorou muito para ficar pronta de maneira definitiva. Assim que o básico ficou pronto, Street levou o álbum ao dono da Food, David Balfe.

Logo após o final da audição, Balfe não gostou nada do que ouviu e afirmou categoricamente que “era um erro lançar esse disco”. Olhando pela perspectiva da época, era muito difícil confiar em uma banda de apenas um álbum realmente bom. Porém o Blur não se abalou e, em uma decisão corajosa para uma banda tão jovem, resolveram lançar Parklife assim mesmo. Um exemplo do início da independência foi recusar a sugestão de Balfe para chamar o trabalho de London. Segundo Albarn, essa foi a última vez em que ele se meteu em algo relacionado ao grupo – tempos depois, ele venderia a gravadora a EMI.

Lançado em 25 de abril de 1994, foi, e é até hoje, aclamado como um dos grandes álbuns dos anos 1990 e um dos melhores feitos na Inglaterra nos últimos 60 anos. Se chegou ao top-10 nos Estados Unidos, Parklife ficou 90 semanas entre os mais vendidos no Reino Unido. Para falar daquela década, é impossível não citar esse disco. E o Blur deu a volta por cima na carreira.


Resenha de Parklife

Fazer uma canção que vira um hit é sempre difícil, ainda mais quando existe pressão para isso acontecer por parte da gravadora. Mas o Blur fez isso lindamente na abertura de Parklife, e "Girls & Boys" se tornou um dos pilares dos anos 1990. Anos depois, Damon Albarn admitiu que a intenção era misturar vários estilos e fazer homenagens a new wave, a dance e disco music. Só que ele não esperava que a faixa, de refrão grudento e bom ritmo, virasse um dos maiores sucessos da banda e uma das grandes músicas de 20 anos atrás por conseguir dialogar com uma geração inteira de jovens.

E se o começo é dos jovens, "Tracy Jacks" fala do pessoal da faixa dos 40 anos que está naquele limbo: nem é jovem o suficiente, nem está na velhice. A letra, usando a terceira pessoa como base, trata do personagem principal como alguém que faz coisas normais, mas vê isso como ultrapassado. O gostoso dessa canção é a levada, que mescla leveza e rapidez nos momentos certos. Ainda em 1994, Albarn vislumbrava o futuro em "End of a Century" em uma das várias letras autobiográficas de sua carreira – aqui, ele pegou o causo de um problema com formigas em sua casa, e enfrentado por ele e a namorada, e o transformou em música.



Narrado pelo ator Phil Daniels, a faixa-título é animada para falar de sedentarismo, certamente algo que nenhum médico recomendaria. Mas Albarn afirmou, anos depois, que a canção é sobre uma visita dele ao parque e viu centenas de pessoas não fazendo absolutamente nada... Em um parque. Para ele, fez todo sentido; para nós, temos uma canção cheia de energia, refrão grudento e um sucesso pronto e embalado para as rádios. Agora, cheio de energia mesmo é o punk "Bank Holiday" – em menos de dois minutos, eles fazem uma baita festa.

Nos primeiros 20 segundos de "Badhead", para quem conhece, é impossível não associar a canção com algum momento do Kinks, mas, neste caso, é sobre uma dor de cabeça, algo banal de nossas vidas (na pesquisa para fazer o texto, li que muita gente achou o disco bobo por ter letras simplórias. Ele é bom exatamente por isso. Só mesmo o Blur para tratar de algo banal tão bem e conseguir identificação por milhares de jovens até hoje).

A instrumental "The Debt Collector" lembra muito uma valsa e é até bonita, e em "Far Out" temos a chance de ouvir o baixista Alex James dando o ar da graça em uma música cheia de efeitos, quase beirando a psicodelia, funcionando como abertura para Albarn cantando sobre um casal tentando superar a má fase no relacionamento na bonita "To the End" – a francesa Laetitia Sadier complementa a letra fazendo uma espécie de contravoz –, o ponto alto do álbum.



O pós-punk aparece na sequência, e "London Loves" e "Trouble in the Message Centre" são duas canções parecidas no estilo, porém diferentes na forma – uma mais eletrônica, enquanto a segunda tem mais guitarras, solos e riffs. Completando a cota de músicas bobinhas dos discos do Blur, "Clover Over Dover" não é lá das melhores, apesar de a melodia ser interessante. Em uma espécie de paródia do american way of life, "Magic America" é engraçada. E fica ainda mais por ser uma bagunça sonora, soa ainda mais engraçada essa cutucada (eles tiveram problemas em uma turnê meses antes, talvez tenha sido esse o motivo da piada).

Outra homenagem ao punk aparece na quase punk "Jubilee", quase um tratado sobre parte da juventude inglesa dos anos 1970. Penúltima canção, "This Is a Low" foi a mais complicada de todas por Albarn não encontrar uma maneira de encaixar suas ideias, então a balada no violão acabou sendo a última a ser finalizada pela banda, mas valeu a pena porque a letra autobiográfica é belíssima. E eles encerram na animada "Lot 105", composta de um ritmo acelerado e vários ‘lá lá lá lá lá’.

Neste trabalho, o Blur prova que há sempre uma segunda chance para retomar a a carreira. E nada como fazer isso em um dos melhores álbuns dos anos 1990, um marco na história da música inglesa e do britpop, que viria a ganhar um nome de peso quatro meses depois: a estreia do Oasis.



Ficha técnica:

Tracklist:

1 - "Girls & Boys"
2 - "Tracy Jacks"
3 - "End of a Century"
4 - "Parklife" (starring Phil Daniels)
5 - "Bank Holiday"
6 - "Badhead"
7 - "The Debt Collector" (Instrumental)
8 - "Far Out"
9 - "To the End"
10 - "London Loves"
11 - "Trouble in the Message Centre"
12 - "Clover Over Dover"
13 - "Magic America"
14 - "Jubilee"
15 - "This Is a Low"
16 - "Lot 105"

Gravadora: Food/SBK
Produção: Stephen Street, Stephen Hague, John Smith e Blur
Duração: 52min39s

Damon Albarn: vocais, vocais de apoio, teclados, órgão, sintetizadores, cordas, cravo em "Clover Over Dover", escaleta, vibrafone e efeitos
Graham Coxon: guitarras, vocais de apoio, clarinete, saxofone e percussão
Alex James: baixo e vocais em “Far Out”
Dave Rowntree: bateria e percussão

Convidados:

Stephen Street: teclados e efeitos sonoros
Laetitia Sadier: vocais em "To the End"
Phil Daniels: narração em "Parklife"
Stephen Hague: acordeão

Chris Tombling, Audrey Riley, Leo Payne e Chris Pitsillides: quarteto de cordas

Orquestra:

Louisa Fuller: violino
Rick Koster: violino
Mark Pharoah: violino
John Metcalfe: arranjo de cordas e viola
Ivan McCready: violoncelo

Instrumentos de sopro

Richard Edwards: trombone
Roddy Lorimer: fliscorne e trombone
Tim Sanders: saxofone tenor e saxofone soprano
Simon Clarke: saxofone barítono, saxofone e flauta


Veja também:
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