quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Discos para história: Deixa a Vida Me Levar, de Zeca Pagodinho (2002)


Faixa-título do trabalho virou um dos grandes sucessos do cantor

História do disco

Apadrinhado por Beth Carvalho no início da carreira, Jessé Gomes da Silva Filho fez de tudo um pouco antes de estrear como compositor com a faixa “Amarguras”, em parceria com Cláudio Camunguelo, em "Samba é No Fundo de Quintal - Vol.2" (1981), segundo disco de estúdio do grupo Fundo de Quintal. Zeca Pagodinho lança o primeiro disco em 1986 e, nos anos seguintes, se consolida com um dos grandes nomes do samba surgidos em um período dominado pelo pagode e pelo sertanejo.

Antes de “Deixa a Vida Me Levar”, o cantor se estabeleceu no cenário nacional ao longo dos anos 1990 com "Verdade", "Faixa Amarela" e "Vai Vadiar". E com os primeiros trabalhos, ele já estava bem conhecido entre boa parte do público brasileiro ao também participar de vários programas populares da época, além de fazer parte das trilhas sonoras de algumas novelas.

Mais discos dos anos 2000:
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Mas foi em 2002 que Zeca Pagodinho fincou sua bandeira como artista popular de alto nível. Sem se rebaixar ao simplismo das letras e arranjos, ele apostou, e ainda aposta, no capricho da produção para transmitir sua mensagem. Mas também é bom lembrar: o início do século 21 foi o último pulsar o antigo modelo de lançar discos através de uma grande gravadora e de contar um orçamento grande o suficiente para contratar uma grande quantidade de músicos para fazer parte do trabalho.

E ele aproveitou bem esse momento ao deixar sua marca na música brasileira com “Deixa a Vida Me Levar”. Aliás, a faixa-título do trabalho também virou sucesso por virar trilha sonora dos jogadores brasileiros na Copa do Mundo de 2002, disputada na Coreia do Sul e do Japão, competição que o Brasil acabou terminando como campeão. Até hoje, em reportagens sobre a conquista, a música toca no fundo.

Veja também:
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Lançado pouco antes da competição, o disco foi um sucesso também pelo sucesso da releitura de “Caviar”, gravada originalmente pelo Trio Calafrio. O disco terminou o ano no top 20 dos mais vendidos no Brasil em 2002, que viu a terceira edição de “Xuxa Só para Baixinhos” liderar o ranking, seguido por “Popstar”, do grupo Rouge, e por Roberto Carlos.


Resenha de “Deixa a Vida Me Levar”

O disco começa com "Meu Modo de Ser", faixa em que o interprete fala sobre a mulher aceitá-lo como ele é – isso inclui ficar no bar até mais tarde para “bebericar uma com os amigos”. A seguinte, "Salve Este Mundo, Menino", traz o apelo para que a inocência de um menino sirva de exemplo para o mundo cruel em que vivemos.

O grande sucesso do disco, "Deixa a Vida Me Levar" tem um quê autobiográfico pelo jeito aparente sossegado de Zeca Pagodinho. E também pode ser um retrato da maioria dos brasileiros, por isso a identificação tão forte até hoje de muita gente quando ouve a música – o refrão decorável e o arranjo agradável também ajudam muito a conquistar o ouvinte de primeira. E "Pra Gente se Amar" conta com um bom arranjo para fazer o pessoal cair no samba.



No ano de lançamento do disco, o Brasil passava por um momento difícil e estava em crise (soa familiar?), então a letra de "Tá Ruim, Mas Tá Bom" era um reflexo de alguém com muita dificuldade em honrar seus compromissos financeiros. Esse é um tipo de música que só o samba consegue dar a leveza necessária para nos conectarmos com o problema retratado. Em "Letreiro", temos um homem com plena confiança na mulher amada... O problema está nos outros homens, que podem tentar algum argumento para conquistar a moça. Por isso, ele pensa em uma medida extrema é pensada.

"Caviar" é uma mistura de tirada de sarro com comida de rico e um tapa na cara da elite brasileira, que come caviar enquanto tem gente pobre sem ter o que comer. Mas o intérprete até alimenta o sonho de “comer essa iguaria”, mas só de ganhar na loteria. Nada mais justo. A sequência mostra "Calangueei", "Amor, Não Me Maltrate" e "Belo Encontro", faixas que têm um tom saudosista como principal mote.



O lado melancólico tem espaço na ótima e subvalorizada "Chove, é o Céu que Chora", de arranjo e letra sensacionais de tão bonitas que são –é a única composição de Zeca Pagodinho no disco. Depois vem a animada "Debaixo do Meu Chapéu", seguida da engraçada "Nega Judite" e seu belo trava-língua e, por fim, o samba-enredo "Riquezas do Brasil", vice-campeão do carnaval em 1956 – acaba sendo uma homenagem para Portela e a Velha Guarda da Escola de Samba que participa desse disco.

É um dos grandes trabalhos da discografia de Zeca Pagodinho. Equilibrando sucessos e homenagens com belos arranjos, o disco é um dos clássicos brasileiros do século 21.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Meu Modo de Ser" (Zé Roberto)
2 - "Salve Este Mundo, Menino" (Zé Roberto)
3 - "Deixa a Vida Me Levar" (Eri do Cais/ Serginho Meriti)
4 - "Pra Gente se Amar" (Acyr Marques/ Arlindo Cruz/ Maurição)
5 - "Tá Ruim, Mas Tá Bom" (Alamir/ Clemar/ Zé Carlos)
6 - "Letreiro" (Dunga/ Roque Ferreira)
7 - "Caviar" (Barbeirinho do Jacarezinho/ Luiz Grande/ Marcos Diniz)
8 - "Calangueei" (Almir Guineto/ Fernando Boêmio)
9 - "Amor, Não Me Maltrate" (Alcino Correa/ Monarco)
10 - "Belo Encontro" (Wilson Moreira)
11 - "Chove, é o Céu que Chora" (Mauro Diniz/ Zeca Pagodinho)
12 - "Debaixo do Meu Chapéu" (Nei Lopes)
13 - "Nega Judite" (Aleandro Dimenor/ Flavinho Silva/ Silvio Eduardo)
14 - "Riquezas do Brasil" (Samba-Enredo) (Candeia/ Waldir 59)

Gravadora: Universal
Produção: Ricardo Moreira
Duração: 53 minutos

Zeca Pagodinho: vocal
Rildo Hora: arranjo e regência
Realejo: gaita
Paulão: arranjo, regência e violão
Mauro Diniz: arranjo, regência e cavaco
Carlinhos 7 Cordas: violão sete cordas
Jorge Simas: violão sete cordas
Paulinho Soares: cavaquinho e cavaco
Henrique Cazes, Márcio Almeida e Alceu Maia: cavaco
Ivan Machado e Maurício Almeida: baixo
Arlindo Cruz: banjo e cavaco
Marcílio Lopes: bandolim
Alfredo Galhões: piano acústico e teclado
Misael da Hora e Cristóvão Bastos: piano acústico
Dirceu Leitte: flauta, clarinete, flautim, saxofone e pirofone
Alexandre Romanazzi: flauta
Marcelo Bernardes: flauta, saxofone-alto e saxofone tenor
Eduardo Neves: flauta e saxofone tenor
Cristiano Alves: clarinete
Roberto Marques: trombone
Nelson Oliveira, Nilton Rodrigues e Jessé Sadoc: trompete e flugel
Flavio Melo: trompete
Eliezer Rodrigues: tuba
Jorge Gomes, J.B. Maia e Ademir Batera: bateria
Gordinho: surdo
Uraci Cardoso: surdo, caixa e tamborim
Belôba: tantã, caixa, tamborim, palmas e zorra
Marcos Esguleba: pandeiro, caixa, tamborim, prato, faca, atabaque, tantã, reco-reco, repique de mão, caixeta, ganzá, palmas e zorra
Bira Presidente: pandeiro
Ubirany: repique de mão e caxinha
Jaguara: caixa, reco-reco, pandeiro, triângulo, agogô, repique de mão, tamborim, atabaque, talk-drums, palmas e zorra
Macalé: caixa, pandeiro, tamborim, palmas e zorra
Trambique: caixa, ganzá, repique de anel, tamborim, caxixi, reco-reco, repique, palmas e zorra
Felipe de Angola: tamborim, reco-reco, palmas e zorra
Nelci Pelé: conga e tamborim
Buda: tamborim
Zé da Cuíca: cuíca
Chico Chagas: acordeom
Chefe: reco-reco
Zé Cruz: chapéu de palha
Oswaldo Cavalo: xequerê
Kiko: acordeom
Conjunto de cordas: instrumentos diversos
Velha Guarda da Portela: coro e instrumentos diversos



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