quinta-feira, 24 de maio de 2018

Discos para história: Psicoacústica, do Ira! (1988)


Terceiro álbum do grupo veio com forte mudança na sonoridade

História do disco

O Ira! surgiu junto com uma geração de bandas que ficaram bem populares no meio dos anos 1980, como Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Titãs, Ultraje a Rigor, outros sem o devido destaque e mais alguns que caíram no esquecimento por serem bem ruins mesmo. Conhecido e admirado por ser um grupo paulista, o Ira! vinha de dois ótimos discos: Mudança de Comportamento (1985) e Vivendo e Não Aprendendo (1986).

Os álbuns trazem alguns dos sucessos históricos, entre eles estão "Núcleo Base", "Envelheço Na Cidade" e "Flores em Você", incluída como tema principal da novela O Outro. Com dois sucessos nas mãos, sendo o segundo um clássico do rock brasileiro, era natural o esgotamento de determinadas fórmulas. E também era natural o fato de outras influências terem entrado na vida dos quatro integrantes (Nasi, Edgard Scandurra, Ricardo Gaspa e André Jung).

Mais discos dos anos 1980:
Discos para história: Strangeways, Here We Come, dos Smiths (1987)
Discos para história: Educação Sentimental, do Kid Abelha e Os Abóboras Selvagens (1985)
Discos para história: From Her to Eternity, de Nick Cave and The Bad Seeds (1984)
Discos para história: Voo de Coração, de Ritchie (1983)
Discos para história: Appetite for Destruction, do Guns N' Roses (1987)
Discos para história: Saúde, de Rita Lee (1981)


O que ninguém esperava – nem a gravadora – era uma guinada tão grande no caminho escolhido pelo Ira! em seu terceiro disco de estúdio. Um disco conceitual, uma capa em 3D e um óculos no encarte para o público ver os efeitos produzidos pelo material eram só a ponta de um iceberg que a banda estava prestes a construir para si. Nesse disco, temos a chance de ouvir as duas pontas de um momento peculiar da música: de um lado, Scandurra buscava inspiração nos grandes momentos do rock em 1967 considerava o trabalho a chance de fazer algo harmonicamente bonito e histórico.

Do outro, Nasi e Jung estavam encantados como o hip-hop e os dois viam a chegada do novo gênero ao País como um elemento transformador na música e nas camadas mais baixas da sociedade – a dupla produziu Pergunte a Quem Conhece (1989), disco da dupla Thaíde e DJ Hum que foi um marco no gênero, além de organizarem festas e encontros com pessoas que gostavam de ouvir rimas em cima de samplers e batidas.

Veja também:
Discos para história: Carnaval na Obra, do Mundo Livre S/A (1998)
Discos para história: O Inimitável, de Roberto Carlos (1968)
Discos para história: Artista Igual Pedreiro, do Macaco Bong (2008)
Discos para história: Sidney Magal, de Sidney Magal (1978)
Discos para história: Convite para Ouvir Maysa Nº2, de Maysa (1958)
Discos para história: The Sensual World, de Kate Bush (1989)


Então, obviamente, existia um embate entre gerações aí. Mas a banda conseguiu equilibrar bem essas ideias, mesmo na base de algumas brigas e muita maconha – o registro foi feito no famoso Verão da Lata, quando quantidades obscenas de maconha asiática foram parar nas praias por conta do naufrágio do navio japonês Solana Star.

O disco chegou às lojas em maio de 1988 com os óculos 3D encartado nas primeiras edições e uma capa toda cheia de efeitos especiais. O trabalho foi bem recebido pela crítica especializada, que via no Ira! uma banda pronta para alçar voos mais altos na carreira – já tinham dois discos de relativo sucesso e um terceiro mais experimental com boas canções. Mas a gravadora WEA e o público detestaram. O primeiro não sabia como vender o disco para o segundo, que não via a mesma identificação com as letras e melodias dos dois primeiros álbuns. Resultado? Um fracasso nas vendas e abalo na relação com a WEA – três discos ainda seriam lançados antes do rompimento definitivo, em 1995.


Resenha de Psicoacústica

Uma das inspirações para fazer as letras do disco foi o filme O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, que tem uma fala apresentada logo de cara em "Rubro Zorro", uma história muito bem amarrada e com um arranjo cheio de guitarras. O uso do sampler foi pedido por Nasi ao próprio diretor, que autorizou mediante ao acordo de dirigir um clipe do Ira!. Sganzerla cobrou muito caro e a WEA vetou a ideia, e isso irritou o diretor que tentou barrar a liberação. Mas, como podemos ouvir, o sampler e entrou e ajudou a transformar a faixa em um dos sucessos da banda até hoje.

"Manhãs de Domingo" tem muito do rock dos anos 1960, uma inspiração para banda. Ou seja, é uma faixa que poderia ter entrado em qualquer um dos discos anteriores que ninguém ficaria surpreso. E fala exatamente sobre a vida de muitos adolescentes sobre chegar em casa apenas de manhã, já "Poder, Sorriso, Fama" traz um recado claro de Scandurra aos companheiros de banda e contemporâneos: o status tem sua glória, mas nem sempre é tão bom assim.



Se as duas anteriores são puro Ira!, "Receita Para Se Fazer um Herói" é um reggae que fala sobre ascensão e queda de alguém que vira herói perante outras pessoas. Não dá para saber se foi intencional, mas essa mudança abrupta de estilo caiu bem para proposta da letra, que teve um imbróglio com o poeta Reinaldo Edgar Ferreira – no fim, a ação por plágio foi resolvida e o nome dele consta nos créditos.

Claramente inspirada em The Jam, "Pegue Essa Arma" é outra com um sampler do filme de Sganzerla a estar presente no disco. Mas o choque vem em "Farto do Rock 'n' Roll", um hard rock cantado por Scandurra, já que Nasi recusou-se a cantar a letra por não gostar do tom usado pelo companheiro de banda para falar sobre do fato de ele e Jung estarem ativamente no movimento hip-hop – um caso clássico de ciúme quase adolescente.

"Advogado do Diabo" tem rock, rap e embolada, uma mudança e tanto no comportamento da mesma banda que lançou "Pobre Paulista" três anos antes – Chico Science e a Nação Zumbi adotaram a faixa para si e foi presença constante durante várias apresentações do grupo pernambucano. Para encerrar, a boa "Mesmo Distante" mistura um tom de bardo contador de história com um tom psicodélico.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Rubro Zorro" (Edgard Scandurra, André Jung, Ricardo Gaspa, Nasi)
2 - "Manhãs de Domingo" (Scandurra)
3 - "Poder, Sorriso, Fama" (Scandurra)
4 - "Receita Para Se Fazer um Herói" (Scandurra, Nasi, Jung, Gaspa e Reinaldo Edgar Ferreira)
5 - "Pegue Essa Arma" (Scandurra)
6 - "Farto do Rock 'n' Roll" (Scandurra e Gaspa)
7 - "Advogado do Diabo" (Nasi e Jung)
8 - "Mesmo Distante" (Edgard Scandurra)

Gravadora: WEA
Produção: Ira! e Paulo Junqueiro
Duração: 34 minutos

Nasi: vocal, Scratch Audio Master
Edgard Scandurra: guitarra, banjo, craviola, guitarras fantasmagóricas; Caixa Clara em "Mesmo Distante"; vocal em "Farto do Rock 'n' Roll"
Ricardo Gaspa: baixo, vocal de apoio
André Jung: bateria, percussão e vocal de apoio

Convidados:

Don Harris: trompetes em "Receita Para se Fazer um Herói"
Roberto Firmino: teclado em "Receita Para se Fazer um Herói"
William Forghieri: teclado



Me siga no Twitter e no Facebook e assine o canal no YouTube. Compre livros na Amazon e fortaleça o trabalho do blog!

Saiba como ajudar o blog a continuar existindo

Gostou do post? Compartilhe nas redes sociais e indique o blog aos amigos!