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sexta-feira, 18 de março de 2016

Discos para história: The Clash, do Clash (1977)


A 120ª edição do Discos para história fala sobre a estreia do Clash em estúdio, lançada no auge da crise interna na Inglaterra

História do disco

Mick Jones já tinha o sonho de ter uma banda e até conseguiu uma – a London SS –, que ensaiou durante todo ano de 1975 sem ter se apresentado uma única vez ao vivo e acabou logo, e Joe Strummer tocou guitarra em grupo chamado 101ers usando o horrível nome John Graham Mellor – ele trocou a tempo de ninguém se lembrar disso. A única coisa boa da London SS foi o fato de ser gerenciada por Bernard Rhodes, amigo do empresário Malcolm McLaren e de dois dos quatro membros da primeira formação do Sex Pistols.

Depois de ver uma apresentação do grupo que mudaria a história da música e um dos alicerces do punk inglês, Jones se animou a fazer algo parecido e ligou para duas pessoas que não haviam passado no teste para a antiga banda: Paul Simonon e o baterista Terry Chimes, fora após uma semana de ensaios, mais o guitarrista Keith Levene. Mas eles precisavam de um vocalista. E foi quando Rhodes se lembrou de alguém.

Esse alguém era Strummer, cantor e guitarrista no 101ers. Foi um imenso trabalho tê-lo nessa banda nova, mas o empresário teve bastante habilidade para convencê-lo a fazer parte de um projeto “tão grande quanto o Sex Pistols”. Quando ele aceitou, logo chamou o amigo baterista Terry Chimes para ensaiar. De tantos ensaios juntos, Chimes nem precisou de convite para entrar. E assim estava pronta a primeira formação do Clash, nome surgido depois de Simonon ler um jornal com a palavra ‘choque’ (clash) em várias matérias.

A estreia em shows aconteceu em 4 de julho de 1976, quando Levene deixou o grupo alegando uma posição inferior a dos outros – depois do fim do Sex Pistols, ele fundaria o ótimo Public Image Ltd ao lado do vocalista Johnny Rotten. Eles não retornariam aos palcos até estarem bem afiados com as músicas e o visual – a segunda apresentação só ocorreu no final de agosto daquele ano. O período serviu para definir Strummer como vocalista principal e Jones como covocalista e solo em algumas canções, e para saída de Chimes depois do terceiro show. Ele foi substituído por Rob Harper.

O trabalho deles foi reconhecido pela mídia mainstream, e o início de 1977 foi ótimo para o Clash. Ao assinar com a CBS por £100 mil (pouco mais de R$ 650 mil atualmente) para gravação de um disco, a profecia se tornava realidade: eles eram maiores que o Sex Pistols, que tocou de gravadora três vezes até conseguir lançar o primeiro trabalho. Agora era justificar o dinheiro investido neles e fazer um bom trabalho. O futuro mostrou o péssimo acordo, pois a banda arcava com todas as despesas e pouco lucrava.

Técnico nos shows do Clash, Mickey Foote foi contratado para produzir o disco por saber exatamente como eles precisavam soar. E Chimes retornou à bateria para gravar o álbum, feito do início ao fim em 17 dias. Lançado em 8 de abril de 1977, a estreia do Clash bateu o 12º lugar nas paradas no Reino Unido, mostrando a força do punk e como essa banda mudaria o rumo das coisas até o final da década.



Resenha de The Clash

A faixa de abertura conta a história de Marion Mitchell, a "Janie Jones", uma conhecida cantora inglesa dos anos 1960 enolvida no ramo da prostituição na década seguinte. Veloz, mas nem tanto, ela é uma pequena mostra de como o Clash não se sujeitaria apenas ao punk puro em sua carreira – a linha de baixo é absurda. A seguinte, "Remote Control", fala do desastre da primeira turnê da banda, marcada por cancelamentos e prisões. Ela acaba chamando atenção por ouvirmos quatro caras bem afiados em seus instrumentos.

"I'm So Bored with the USA" nasceu falando sobre uma namorada de Mick Jones, mas acabou virando uma carta do momento da política nos Estados Unidos nos anos 1970. E aqui podemos ouvir o retorno da velocidade típica do punk, que é aumentada na seguinte. "White Riot" estourou nas paradas e nas rádios inglesas, mas gerou polêmica por acharem que Joe Strummer queria uma revolução branca. Na verdade, ele só queria avisar aos brancos do que estava acontecendo e chamava para protestar.



Se "Hate & War" é a típico de música de protesto feita no auge da crise administrativa do governo de Margaret Thatcher (1925 – 2013), "What's My Name?" reflete bem o momento da juventude inglesa naquele momento em uma faixa curta, porém suficiente para expor a realidade. As duas últimas do lado A tratam do fim de um relacionamento ("Deny") e o comodismo da classe média inglesa sobre a crise ("London's Burning").

A ótima "Career Opportunities" coloca um dedo na ferida: empregos acabam fazendo você se calar para manter o trabalho (Career opportunities, the ones that never knock/Every job they offer you is to keep you out the dock/Career opportunities, the ones that never knock). A arte da trapaça está presente em "Cheat", enquanto "Protex Blue", feita antes de o Clash existir e primeira canção escrita por Mick Jones, é rápida e legal.



O reggae "Police & Thieves" ganhou uma versão por parte do Clash e entrou na estreia do grupo em estúdio. Familiarizados com a letra, a banda decidiu colocá-la na última hora, transformando o então quase rito religioso em uma potente canção ao vivo. O punk bobinho de "48 Hours" ajuda a animar ainda mais, que fecha com "Garageland", uma resposta à crítica de um jornalista – Charles Shaar Murray afirmou que o Clash era uma “banda de garagem e deveria voltar para lá imediatamente”.

Esse disco do Clash é sensacional do início ao fim. Se o primeiro disco dos Ramones é a Genesis do punk dos anos 1970, a estreia da banda inglesa é o Êxodo. Todos passaram a acompanhar mais a cena graças ao sucesso deles, o primeiro grupo a sair das sombras e ir ao mainstream.



Ficha técnica:

Tracklist:

Lado A

1 - "Janie Jones" (2:03)
2 - "Remote Control" (3:00)
3 - "I'm So Bored with the USA" (2:25)
4 - "White Riot" (1:56)
5 - "Hate & War" (2:05)
6 - "What's My Name?" (Strummer, Jones, Keith Levene) (1:40)
7 - "Deny" (3:03)
8 - "London's Burning" (2:12)

Lado B

1 - "Career Opportunities" (1:52)
2 - "Cheat" (2:06)
3 - "Protex Blue" (1:42)
4 - "Police & Thieves" (Junior Murvin, Lee Perry) (6:01)
5 - "48 Hours" (1:34)
6 - "Garageland" (3:12)

Gravadora: CBS
Produção: Mickey Foote
Duração: 35min18s

Joe Strummer: vocais, guitarra e guitarra principal em "48 Hours"
Mick Jones: guitarra e vocal
Paul Simonon: baixo
Tory Crimes (Terry Chimes): bateria



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