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sexta-feira, 22 de maio de 2015

Discos para história: Loveless, do My Bloody Valentine (1991)


A 88ª edição do Discos para história será sobre Loveless, segundo disco de estúdio do My Bloody Valentine – uma das bandas mais influentes dos anos 1990, quando mostrou ao mundo o que era o shoegaze.

História do disco*

Uma das bandas independentes mais bem-sucedidas da história, o My Bloody Valentine começou na música como qualquer um que deseja entrar no meio: gravando demos e EPs de maneira própria. Entre o primeiro lançamento, passando pelo clássico Isn't Anything, foram três EPs e um disco cheio. Tudo isso aconteceu entre 1985 e 1990, anos em que foram usados para se firmar, construir uma boa base de fãs e conseguir um contrato com a gravadora Creation.

Voltando um pouco no tempo, a gravação do que viria a ser Loveless começou em fevereiro de 1989 e apostava-se que tudo seria feito, no máximo, em cinco dias. Passado o prazo inicial, claramente viu-se que isso não aconteceria. Depois de muitos dias, que viraram meses, de total improdutividade por parte do vocalista, guitarrista e produtor Kevin Shields, quem acompanhou o processo não acreditava: Shields mudava de estúdio mais do que trocava de roupa e contratou inúmeros engenheiros de som para ajudá-lo a formatar o som ideal.

Para acalmar a gravadora, o My Bloody Valentine lançou os EPs Gilder e Tremolo entre 1990 e 1991, e o single "Soon" acabou sendo um grande sucesso ao ficar na segunda posição da parada independente. Apesar disso, a Creation estava preocupada com os custos das gravações e o abandono de vários produtores e engenheiros ao longo do processo. Um exemplo disso foi a participação de Bilinda Butcher nas gravações – ela só entrou em maio de 1991, isso com dois anos de trabalho acontecendo. E ainda teve o fato de o baterista ser despejado com uma semana de trabalho (ele tinha uma namorada americana e ela foi extraditada), e todas as baterias são programadas.

O trabalho era, no mínimo, estranho. Às vezes, eles não chegavam com as letras, outras vezes o produtor não podia ouvir o que estava acontecendo durante a gravação. Um exemplo do dinheiro gasto a esmo foi a decisão dos donos do estúdio Britannia Row em segurar o equipamento do grupo. Sem dinheiro, eles não pagaram as sessões, e isso só foi resolvido com uma conversa entre Shields e quem comandava o lugar. Nesse momento, o medo dos donos da gravadora era nítido e eles estavam implorando para que tudo ficasse pronto logo. E Shields ainda precisou de mais 13 dias, depois dos vocais finalizados, para mixar e corrigir as falhas.

Conta a lenda que Loveless, ao longo de seus mais de dois anos de gravação, custou 200 mil libras (convertido para valores atuais, o valor dá mais de R$ 1 milhão, o que era muito dinheiro à época). Todos negaram esse alto custo, mas a quase falência da gravadora deu uma ideia de quanto foi necessário para trazer o disco ao mundo. Se não foi um sucesso entre o público ao ocupar apenas a 24ª posição nas paradas do Reino Unido, foi entre os críticos, que adoraram o álbum lançado em 4 de novembro de 1991 – deixando um legado inestimável para música e para quem gosta de rock alternativo.

*com colaboração de Leonardo Bonassoli.


Resenha de Loveless

Não tendo a menor dó de usar o vibrato na guitarra em toda canção, o My Bloody Valentine começou Loveless com "Only Shallow", lançada como segundo single do álbum. Cheia de camadas, um riff poderoso e a voz distorcida de Bilinda Butcher, a faixa é muito intensa do início ao fim e coloca a banda em outro patamar, talvez mais acima ainda do que quando lançou Isn't Anything, dois anos antes.

Alta (muito alta mesmo), "Loomer" também segue o estilo da anterior, a diferença é que opta-se mais pela guitarra pesada e distorcida do que por encher de camadas e mais camadas embaixo. A curta e esquisita "Touched" parece ter sido mixada ao contrário e junta várias coisas em uma só, como uma colagem de jornal feita por uma criança. A diferença é que serve como introdução de "To Here Knows When", essa tão apavorante e assustadora – de um jeito bonito – graças ao número alto de distorções, camadas e improvisação.



Mais uma vez usando o recurso de emendar uma música na outra, "When You Sleep" aparece sem pedir licença ao ouvinte. Mais natural aos ouvidos, ela soa muito como muitas das músicas que Pixies e Sonic Youth lançaram em suas carreiras. Aqui, diferenciando deles, é o volume e os efeitos nos instrumentos. Absurdamente boa, "I Only Said" pode ser traduzida como a síntese do que é o My Bloody Valentine: espetacular.

Se você gosta de imergir dentro da música ao ponto de se perder mentalmente, "Come In Alone" é para você. Menos agressiva, ela consegue ter até certa delicadeza, enquanto "Sometimes" segue o mesmo modelo, só que acústico – mas ao estilo da banda, com a guitarra ao fundo completamente distorcida. A voz de Bilinda Butcher no meio de tantos efeitos e camadas causa uma sensação estranha na bela e esquisita "Blown a Wish".



Retornando ao peso, energia e instrumentos altos, "What You Want" tem menos camadas aparentes e aposta na guitarra quase limpa, e "Soon", primeiro single do álbum, encerra o trabalho mostrando como fazer esse tipo de música é muito trabalhoso, mas, ao mesmo tempo, o resultado – quando bem feito – é dessas coisas que ninguém esquece tão cedo. É o caso de Loveless, uma obra-prima.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Only Shallow" (Bilinda Butcher e Shields)
2 - "Loomer" (Butcher e Shields)
3 - "Touched" (Colm Ó Cíosóig)
4 - "To Here Knows When" (Butcher e Shields)
5 - "When You Sleep"
6 - "I Only Said"
7 - "Come In Alone"
8 - "Sometimes"
9 - "Blown a Wish" (Butcher e Shields)
10 - "What You Want"
11 - "Soon"

Todas as músicas foram escritas por Kevin Shields, exceto as marcadas.

Gravadora: Creation
Produção: Kevin Shields e Colm Ó Cíosóig
Duração: 48min36s

Kevin Shields: vocais, guitarras e samplers
Colm Ó Cíosóig: bateria e samplers
Debbie Googe: baixo
Bilinda Butcher: vocais e guitarra


Veja também:
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