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sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Discos para história: Let It Bleed, dos Rolling Stones (1969)


Após a tentativa frustrada de fazer um disco psicodélico, os Rolling Stones optaram por uma volta ao básico nos anos seguintes. E que volta. Inspiradíssimos, Mick Jagger e Keith Richards acertaram a mão e engatariam uma sequência de álbuns significativos em suas carreiras e nas de seus colegas. O segundo deles seria Let It Bleed.

História do disco

Depois de Their Satanic Majesties Request, entre a gravação de Beggars Banquet e Let It Bleed, os Rolling Stones lançaram "Sympathy for the Devil", "Street Fighting Man" e "Jumpin' Jack Flash" como singles avulsos e conseguiram se recuperar depois da tentativa de fazer algo psicodélico sem o sucesso esperado. E foi exatamente nessa época que eles começaram a crescer como banda.

Sem os Beatles para fazer shows, a trupe liderada por Mick Jagger começava a criar sua fama de lotar apresentações pela Inglaterra em lugares e proporções nunca vistos antes. Se eles estavam indo bem como banda, Brian Jones não estava. Cada vez mais drogado e participando menos do processo criativo, ele só ia aos ensaios quando queria e fazia o mínimo possível. Ocupando o lugar de líder e mostrando cada vez mais sua faceta de homem de negócios, Jagger acabou demitindo o guitarrista por não ver mais nele alguém de confiança para colocar os Stones no rumo do sucesso. Em 3 de julho de 1969, o ex-líder, cofundador, guitarrista e um dos músicos mais talentosos de sua geração foi encontrado morto na piscina de sua casa.


Dois dias depois da morte de Jones, a banda tocaria para 250 mil pessoas no Hyde Park, um dos momentos mais importantes da história do rock. E também aconteceria a estreia de Mick Taylor, então com 20 anos, como guitarrista substituto. Foi com essa mistura de sentimentos que eles entraram em estúdio para gravar o que viria a ser Let It Bleed, oitavo álbum de estúdio.

Antes de ter a concepção do trabalho pronta, "You Can't Always Get What You Want" foi gravada ainda no final de 1968, praticamente um ano antes de o LP ganhar nome e ser lançado. Os Rolling Stones continuaram se reunindo em períodos espaçados para trabalhar em novas canções – Brian ainda foi creditado em "You Got the Silver" e "Midnight Rambler". O novo disco seria o primeiro em que Keith Richards teria uma canção para chamar de sua ("You Got the Silver"), enquanto Taylor faria sua estreia oficial como membro dos Stones.

Lançado na primeira semana de dezembro, Let It Bleed chegou ao primeiro lugar das paradas, mas ficou pouco tempo. Logo depois do lançamento, os Beatles colocaram Abbey Road na praça e derrubaram seus amigos do principal posto. Esse trabalho dos Stones é considerado de grande inspiração por ter alguns dos hits do grupo, como “Gimme Shelter”, e por mostrar um grupo cada vez mais maduro musicalmente.

Um dia depois do LP ser colocado no mercado, aconteceu o fatídico Altamont Free Concert, em que um membro do Hells Angels matou um espectador a facadas durante a apresentação dos Stones no festival, que seria uma espécie de Woodstock da costa oeste dos Estados Unidos.


Resenha de Let It Bleed

Abrindo os trabalhos, "Gimme Shelter" foi gravada primeiro com Mick Jagger e Keith Richards, depois os outros acrescentaram suas partes. Basicamente, a canção fala do momento violento que os Estados Unidos estavam envolvidos ao entrar na Guerra do Vietnã. A intenção de Richards era colocar uma assinatura na canção, então ele considera como uma das boas canções que conseguiu fazer. Depois da parte deles, vem a a vocalista Merry Clayton, que havia cantado no primeiro disco solo de Neil Young. Ela seria convidada para participações nos discos de Lynyrd Skynyrd, Tom Jones, Joe Cocker e The Who durante os anos 1970.

Voltando às raízes blues do início dos Stones, o cover de "Love in Vain" ganhou uma nova roupagem. Ao invés de um blues triste, colocaram mais instrumentos e parece mais um country contador de histórias ao melhor estilo americano. Mantendo a mesma linha, "Country Honk", versão country de "Honky Tonk Women", foi gravada quando Brian Jones ainda fazia parte do grupo. Alguns meses depois, eles se reuniram, já com Mick Taylor na guitarra, e fizeram uma regravação.



"Live with Me" foi gravada apenas alguns dias depois da entrada de Taylor nos Stones e, segundo ele, isso inauguraria uma era das guitarras dominando as músicas da banda. Reza a lenda que a faixa é uma resposta a alguns poemas ingleses lançados ao longo dos séculos, mas ninguém nunca confirmou isso. Bem diferente é a melodia, que conta com um solo de saxofone de Bobby Keys e com o piano inspirado de Leon Russell.

Mais emocional do que as outras, e também com uma letra mais pesada, a faixa-título do disco é bem equilibrada nos instrumentos e soa como um desabafo de Jagger ao momento em que Richards vivia – afundado nas drogas e na bebida, algo que ele só diminuiria quase dez anos depois do lançamento da canção. Outra lenda desse álbum é que “Let It Bleed” foi inspirada em “Let It Be”, dos Beatles, que só seria lançada alguns meses depois. A história é que os Stones ouviram a demo e ficaram inspirados, digamos assim, para fechar o lado A.

No outro lado, "Midnight Rambler" conta a história de Albert DeSalvo, que confessou ser o “Estrangulador de Boston”, assassino de 13 mulheres entre 1962 e 1964. Segundo Jagger, essa foi a primeira música em que ele e Richards trabalharam juntos na letra, geralmente um cuidava da letra e outro da melodia. Foi a última gravação em estúdio da formação original dos Stones (Jagger, Keith, Jones, Bill Wyman e Charlie Watts). Em compensação, a estreia de Keith como vocalista solo foi na canção seguinte, "You Got the Silver", um blues bem suave – Mick chegou a gravar sua versão, mas a banda optou pela gravada pelo guitarrista – em homenagem a Anita Pallenberg, então sua namorada.



A introdução diferente foi uma das novidades da banda em "Monkey Man". Ela também conta com guitarra, piano e baixo, virando um blues rock bem interessante. Por fim, ninguém sabe ao certo se "You Can't Always Get What You Want" fala sobre drogas, sexo ou política, mas o que se sabe é que foi um dos momentos mais inovadores do final dos anos 1960 na música por trabalhar vários tipos de estilo em sete minutos e meio. Da ópera ao rock, os Stones, enfim, mostraram a versatilidade que tanto esperavam deles em uma das mais bonitas letras da dupla Jagger/Richards.

No segundo disco da chamada ‘era de ouro’, os Stones mostraram evolução como músicos. Antes, eles estavam marcados por polêmicas, uso de drogas e rebeldia. Não que isso tenha mudado no final dos anos 1960, mas havia algo de novo neles – e não era no visual. Já consagrados, eles puderam arriscar mais, além da clara evolução de Jagger e Richards como compositores. A sensação é que havia uma nova banda na praça.

Tracklist:

Lado A

1 - "Gimme Shelter" (featuring Merry Clayton)
2 - "Love in Vain" (Robert Johnson)
3 - "Country Honk"
4 - "Live with Me"
5 - "Let It Bleed"

Lado B

6 - "Midnight Rambler"
7 - "You Got the Silver"
8 - "Monkey Man"
9 - "You Can't Always Get What You Want"

Todas as canções foram escritas pela dupla Mick Jagger e Keith Richards, exceto a faixa dois.

Ficha Técnica

Gravadora: Decca
Produção: Jimmy Miller
Tempo: 42min13s

Mick Jagger: vocal e gaita
Keith Richards: guitarra, baixo, vocais de apoio e vocais em "You Got the Silver"
Brian Jones: congas e auto-harpa
Mick Taylor: guitarra slide e guitarra slide
Charlie Watts: bateria (exceto em "You Can't Always Get What You Want")
Bill Wyman: baixo (exceto em "Country Honk" e "Live with Me"), auto-harpa e vibrafone

Convidados:

Ian Stewart: piano em "Let It Bleed"
Nicky Hopkins: piano em "Gimme Shelter", "Live with Me", "You Got the Silver" e "Monkey Man"; órgão em "You Got the Silver"
Byron Berline: violino em "Country Honk"
Mary Clayton: vocais en "Gimme Shelter"
Ry Cooder: mandolin em "Love in Vain"
Bobby Keys: saxofone em "Live with Me"
Jimmy Miller: percussão em "Gimme Shelter" e bateria em "You Can't Always Get What You Want" e tamborine em "Monkey Man"
Leon Russell: piano e arranjos em "Live with Me"
Jack Nitzsche: regência em "You Can't Always Get What You Want"
Al Kooper: piano e órgão em "You Can't Always Get What You Want"
Nanette Workman: vocais de apoio em "Country Honk" e "You Can't Always Get What You Want"
Doris Troy: vocais de apoio em "You Can't Always Get What You Want"
Madeline Bell: vocais de apoio em "You Can't Always Get What You Want"
Rocky Dijon: percussão em "You Can't Always Get What You Want"
The London Bach Choir: vocais de apoio on "You Can't Always Get What You Want"



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