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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Discos para história: Rain Dogs, de Tom Waits (1985)


A 116ª edição do Discos para história fala do álbum conceitual Rain Dogs, de 1985, lançado por Tom Waits, considerado um dos grandes lançamentos daquela década.

História do disco

Durante o início dos anos 1980, Tom Waits foi abandonando aos poucos seu estilo piano jazz com baladas do início de carreira para algo experimental e completamente fora de mão das rádios pop, principalmente pelo uso de instrumentos variados para fazer os mais tipos de combinação dentro de uma letra. Poucos músicos famosos deram uma guinada dão drástica na carreira como ele.

A vida de Waits começou a mudar em Swordfishtrombones, de 1983, um de seus grandes trabalhos. Ao deixar a gravadora Asylum e ir para Island, o experimentalismo só aumentou. O auge desse novo direcionamento foi Rain Dogs, colocado no mercado dois anos depois, um disco experimental sobre a cidade de Nova York.

Já que era um LP sobre uma cidade, nada melhor do que escrevê-lo enquanto passeia por ela, certo? Foi o que ele fez por dois meses, período em que virou Manhattan de ponta cabeça para tentar desvendar as nuances e ver algo despercebido por outras pessoas na cidade. Nesses passeios, ele também gravou sons da cidade para serem inseridos nas canções. A intenção era clara: um trabalho nada convencional sobre uma das metrópoles mais conhecidas do mundo.

O trabalho em estúdio espantou todos que estavam o acompanhando pela primeira vez. Waits não se contentava em encontrar soluções simples para os problemas. Por exemplo, para fazer um determinado tipo de barulho, ele ia por caminhos nada convencionais, enquanto o engenheiro de som dizia “desse jeito [fazendo o som] é mais fácil, não?”. Poderia até ser, mas Waits não é um cara muito convencional. Ele queria conseguir as coisas do seu jeito, no seu tempo.

Outro momento fora da curva era o momento de apresentar as demos aos músicos de estúdio. Nada de levar um gravador com algo feito em casa, ele apresentava as versões no violão na hora e discutia com todos o que deveria ser feito. Tampouco se incomodava se algo dava errado, ele pedia para prosseguir até o fim e preferia ouvir o resultado antes de tecer algum julgamento. A participação especial fica por conta de Keith Richards, dos Rolling Stones, que toca em três canções ("Big Black Mariah", "Union Square" e "Blind Love").

Rain Dogs não é um nome muito convencional para um disco, o próprio cantor explica a escolha: "O cães na chuva perdem o caminho de casa, porque, depois que chove, cada lugar em que ele fez xixi em foi lavado... Eles vão dormir pensando que o mundo é um caminho, e eles acordam e alguém mudou os móveis". A capa mostra um marinheiro muito parecido com Tom Waits sendo consolado por uma prostituta. A foto é simples, mas ganhou o mundo pela disposição das palavras, uma cópia fiel do primeiro disco de Elvis e da estreia do Clash em estúdio, e pela pose dos fotografados.

Lançado em 30 de setembro de 1985, o disco fracassou na parada americana ao chegar apenas na posição 188, mas foi bem na Inglaterra, onde atingiu o top-30. Se o público não entendeu direito o trabalho, a crítica adorou. Recentemente, o álbum foi eleito um dos mais importantes dos anos 1980, momento em que Tom Waits estava cada vez mais experimentando e cada vez mais focado em fazer coisas fora do comum.


Resenha de Rain Dogs

"Singapore" abre o disco soando como uma canção de piratas em alto mar, em que o ritmo é fundamental para entendê-la. Aliás, ela é a primeira de um conjunto grande canções curtas que formam uma história. Na cabeça de Tom Waits, isso faz sentido; para quem ouve, é difícil compreender o início, mas o entendimento do trabalho vem com o tempo e uma boa sequência de audições. A seguinte, "Clap Hands", traz instrumentos da música tradicional peruana misturado com uma guitarra ao fundo.

Com menos de dois minutos, "Cemetery Polka" é muito interessante da forma como foi estruturada – cheia de barulhos, parece uma festa infantil. E "Jockey Full of Bourbon" traz uma malemolência, um ritmo latino muito bom, enquanto o piano e um bom conjunto de instrumentos de sopro dão um tom de melancolia para a excelente "Tango Till They're Sore". O blues experimental de "Big Black Mariah" consegue manter o ritmo, e "Diamonds & Gold" tem um quê meio cigano em que Waits mais fala a letra do que canta.



Uma das melhores músicas da carreira de Tom Waits está aqui: "Hang Down Your Head", um blues simples que soa uma volta aos primórdios da carreira dele, um absurdo de técnica e de sentimento. A poética e acústica "Time" (And it's Time, Time, Time/And it's Time, Time, Time/And it's Time, Time, Time/That you Love/And it's Time, Time, Time) fecha o lado A de maneira sublime. Se o disco fosse só isso, já seria incrível.

A esquisitice retorna na ótima faixa-título, uma poesia com um punhado de coisas e referências sobre Nova York e a vida de Waits. A ótima instrumental "Midtown" abre caminho para a cheia de mistério e clima noir "9th & Hennepin”, e "Gun Street Girl" vem como uma homenagem à música folk tradicional escocesa do século 18, a base do gênero ao relatar uma das muitas pessoas vistas nos passeios diários de Waits por Nova York.



Bem próximo daquele rock dos anos 1950, "Union Square" traz um vocal animado para tratar de um final de semana qualquer, um contraste absurdo com o vocal bêbado, melancólico e profundo da ótima "Blind Love". E "Walking Spanish" é diferente das outras duas ao ser um jazz de ótimo gosto, já "Downtown Train" é outro petardo, que fez mais sucesso com Rod Stewart do que com Waits – as duas versões são ótimas.

"Bride of Rain Dog", instrumental, abre caminho para o grito "Anywhere I Lay My Head", um jazz experimental que fecha o disco com uma grandiosidade que poucos músicos têm para fazer uma canção desse tipo. O fim do disco chama a certeza de ouvir um trabalho de alto nível e cara que Tom Waits quis dar a ele.



Ficha técnica:

Tracklist:

Lado A:

1 - "Singapore" (2:46)
2 - "Clap Hands" (3:47)
3 - "Cemetery Polka" (1:51)
4 - "Jockey Full of Bourbon" (2:45)
5 - "Tango Till They're Sore" (2:49)
6 - "Big Black Mariah" (2:44)
7 - "Diamonds & Gold" (2:31)
8 - "Hang Down Your Head" (Kathleen Brennan, Waits) (2:32)
9 - "Time" (3:55)

Lado B:

10 - "Rain Dogs" (2:56)
11 - "Midtown" (instrumental) (1:00)
12 - "9th & Hennepin" (1:58)
13 - "Gun Street Girl" (4:37)
14 - "Union Square" (2:24)
15 - "Blind Love" (4:18)
16 - "Walking Spanish" (3:05)
17 - "Downtown Train" (3:53)
18 - "Bride of Rain Dog" (instrumental) (1:07)
19 - "Anywhere I Lay My Head" (2:48)

Todas as músicas foram escritas por Tom Waits, exceto a marcada.

Gravadora: Island
Produção: Tom Waits
Duração: 53min46s

Tom Waits: vocais, guitarra, órgão, piano, harmônio e banjo

Convidados:

Michael Blair: percussão, marimba, bateria e congas
Mickey Curry/Stephen Hodges: bateria
Larry Taylor: baixo duplo e baixo
G.E. Smith/Robert Quine/Chris Spedding/Marc Ribot: guitarra
"Hollywood" Paul Litteral: trompete
Bobby Previte: percussão e marimba
William Schimmel: acordeão
Bob Funk: trombone
Ralph Carney: saxofone barítono, saxofone e clarinete
Tony Garnier/Greg Cohen: baixo duplo
Keith Richards: guitarra e vocais de apoio
Robert Musso: banjo
Arno Hecht: saxofone tenor
Crispin Cioe: saxofone
Ross Levinson: violino
John Lurie: saxofone alto
Tony Levin: baixo
Robby Kilgore: órgão



Veja também:
Discos para história: Back to Black, de Amy Winehouse (2006)
Discos para história: Highway 61 Revisited, de Bob Dylan (1965)
Discos para história: “Heroes”, de David Bowie (1977)
Discos para história: Led Zeppelin III, do Led Zeppelin (1970)
Discos para história: A Tábua de Esmeralda, de Jorge Ben (1974)
Discos para história: My Generation, do The Who (1965)
Discos para história: Doolittle, do Pixies (1989)

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