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terça-feira, 27 de outubro de 2015

Resenha: Elza Soares – A Mulher do Fim do Mundo


Foi possível entender um pouco melhor Elza Soares depois de assistir My Name Is Now, um dos muitos documentários escolhidos para nova edição do In-Edit Brasil. Em A Mulher do Fim do Mundo, ela, pela primeira vez, coloca no mercado um trabalho apenas de composições inéditas, o que diz muito sobre o momento atual dela – de redescoberta por uma geração – ainda que de outros compositores.
  • Gravadora: Selo Circus/Natura Musical
  • Lançamento: 1º de outubro
  • Produção: Ernst von Bönninghausen
  • Duração: 39 minutos
Além disso, ela recrutou Kiko Dinucci (guitarra), Marcelo Cabral (baixo), Rodrigo Campos (guitarra), Felipe Roseno (percussão), Celso Sim (direção artística) e Rômulo Fróes (direção artística), músicos da nova geração feita e criada em São Paulo. Antes mesmo de ouvir o disco, já existiam algumas certezas: a cantora está longe da linha da acomodação de muitos de seus contemporâneos e encarar o novo como algo bom, não apenas aquela coisa que vem e toma conta.

"Coração do Mar" é um poema de Oswald de Andrade musicado por José Miguel Wisnik e abre o disco, e tem uma Elza Soares cantando à capela, uma dessas coisas que ficam muito bonitas quando tudo se encaixa de maneira perfeita. Foi o caso aqui. O samba "A Mulher do Fim do Mundo" traz a cantora em uma de suas especialidades. E a melodia leve e um arranjo bem agrupado dão o tom.

A violência contra a mulher é quase dissecada em “Maria da Vila Matilde - Porque se a da Penha é Brava, Imagine a da Vila Matilde". Basicamente, a cantora ligará ao Disque-denúncia para denunciar o agressor e diz ‘cê vai se arrepender de levantar a mão para mim’ em outro samba muito bom – um alento e um incentivo a quem sofre diariamente qualquer tipo de agressão. A pesada, principalmente na melodia, "Luz Vermelha" coloca na mesa uma reflexão sobre a solidão, algo triste em uma cidade como São Paulo, o pano de fundo do disco.

O Bixiga 70, uma das ótimas bandas dessa nova geração paulista, participa no arranjo do samba "Pra Fuder", que coloca a cantora em uma ótima posição: a de soltar a voz sem dó. E isso ela faz como poucos. Celso Sim abre "Benedita", a canção mais mutante do disco inteiro – ela vai e volta em diversos temas, descrições, ritmos, gêneros e posições. Mas Elza mostra toda sua versatilidade no rap "Firmeza", dominada por um belo sax ao fundo, e "Dança", apesar de inferior às outras, consegue manter o prumo.

A descrição precisa de momentos de uma mulher brasileira faz de "O Canal" um retrato fiel em uma faixa quase de teor religioso. Já a delicada e de ótimo arranjo "Solto" é mais falada do que cantada, soando um desabafo de alguém que viveu muito, perdeu maridos e filhos, mas segue firme e forte. Outra pesada no quesito sentimental é "Comigo", que começa pesada até encerrar abruptamente para abrir espaço para Elza retornar ao início do disco: a capela.

A música brasileira vive um ano muito bom em 2015 e discos ótimos foram lançados. Estar em outubro e ainda ter a chance de ouvir um lançamento de Elza Soares é ainda melhor. E é ainda mais quando ela conseguiu canalizar toda sua experiência ao lado de uma boa geração de músicos, lançando um excelente álbum, não fugindo de quem ela é. Ao contrário, ela reafirmou sua posição como uma cantora muito acima da média, não importando o tipo de música que cante. A Mulher do Fim do Mundo não é apenas um disco, é um legado que ela deixa a todas as cantoras brasileiras.

Tracklist:

1 - "Coração do Mar"
2 - "A Mulher do Fim do Mundo"
3 – “Maria da Vila Matilde - Porque se a da Penha é Brava, Imagine a da Vila Matilde"
4 - "Luz Vermelha"
5 - "Pra Fuder"
6 - "Benedita" (com Celso Sim)
7 - "Firmeza" (com Rodrigo Campos)
8 - "Dança" (com Romulo Fróes)
9 - "O Canal"
10 - "Solto"
11 - "Comigo"

Nota: 4,5/5

Elza Soares: voz
Kiko Dinucci: guitarra
Marcelo Cabral: baixo
Rodrigo Campos: guitarra
Felipe Roseno: percussão
Celso Sim: direção artística e voz em "Benedita"
Rômulo Fróes: direção artística e participação em "Dança"
Thiago França e Bixiga 70: arranjo de Naipe
Marcelo Cabral: arranjo, violão de sete cordas e synth
Cuca Ferreira: flauta
Aramís Rocha: violino
Robson Rocha: violino
Edmur Mello: viola
Deni Rocha: cello
Edy Trombone: trombone
DJ Marco: pick ups
Felipe Roseno: percussões
Thomas Rohrer: rabeca
Cuca Ferreira: flauta
Rodrigo Campos: voz em "Firmeza"



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