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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Discos para história: Imagine, de John Lennon (1971)


A 94ª edição do Discos para história falará sobre o segundo disco solo de John Lennon. Depois da terapia em John Lennon/Plastic Ono Band, o ex-beatle se acalmou e optou por trabalhar com outras coisas em Imagine.

História do disco

Depois de sair dos Beatles, John Lennon não demorou muito para soltar seu primeiro disco solo, chamado de John Lennon/Plastic Ono Band. Na verdade, muito mais do que um álbum, era uma espécie de terapia sobre todos os seus problemas e traumas – desde a infância, incluindo o relacionamento ruim com a mãe, até os problemas com os seus ex-companheiros de banda ao terminar em um rompimento ruim para todos.

Esse momento foi fundamental para Lennon, que pôde, enfim, ser ele mesmo depois de muitos anos nas amarras de contratos e precisando manter certa imagem. Isso fez dele um ativista político, protestando contra as atitudes do governo americano no Vietnã e defendendo os Direitos Civis. Sentindo-se mais produtivo do que nunca, dois meses após o lançamento de seu primeiro disco solo, ele já estava em estúdio novamente para começar as gravações de um novo registro.

A ideia de começar a gravar o mais rápido possível aconteceu depois de uma jam session com George Harrison. Depois de improvisar um pouco, Lennon decidiu que era hora de gravar novamente e chamou o guitarrista para fazer parte de sua nova banda de estúdio. Como sabia que precisaria de um baixista, a dupla recorreu ao amigo dos tempos de Hamburgo Klaus Voormann – Ringo Starr seria chamado novamente, mas ele estava indisponível naquele momento.

Como parte do trabalho havia começado no ano anterior, já havia certa base para o início das gravações no Ascot Sound Studios. O cantor e compositor trabalhou em algumas demos por alguns dias de fevereiro, até que pôde reunir uma banda para trabalhar mais profundamente seu material. Entre os dias 23 de junho e 5 de julho de 1971, todos trabalharam duro nas canções que entraram no álbum e em mais algumas que só ganhariam vida nos discos seguintes e em John Lennon Anthology, que seria lançada apenas em 1998. Era um modo muito simples de trabalho: todos eram reunidos, o cantor explicava o que ele queria e pronto. Os ensaios começavam às 11h em ponto e terminavam perto da meia-noite.

O mesmo esquema do disco passado foi usado: Lennon e Yoko Ono trabalharam com a banda, reforçada por Harrison, em seu estúdio particular. Depois, no Robert Plant Studios, em Nova York, eles chamaram Phil Spector para ajudá-los na mixagem e regravação de alguns instrumentos.

Colocado no mercado americano em 9 de setembro de 1971 e em 8 de outubro no Reino Unido, o disco foi aclamado como o melhor trabalho de Lennon como artista solo, ainda mais por ser menos político e mais musical. E o single “Imagine”, muito executado nas rádios, transformou-se no hino de uma geração que beirava os 30 anos nos anos 1970.


Resenha de Imagine

De cara, abrindo o lado A, o álbum começa com o clássico “Imagine”. A letra traz o conceito positivista sobre um tipo de mundo ideal visualizado por Lennon (como no segundo verso: Imagine there's no countries/ It isn't hard to do/ Nothing to kill or die for/ And no religion too/ Imagine all the people/ Living life in peace). Inteiramente no piano, ela foi vista por Phil Spector como muito política e provocadora ao melhor estilo de Lennon, mas com um enorme potencial para virar sucesso. E ele estava certo.

Uma ‘contra tudo que está aí’, "Crippled Inside" é um country rock que  remete ao início de carreira do cantor, quando ele era fartamente inspirado por Elvis Presley e outros nomes de sucesso da música americana de sucesso dos anos 1950 – a letra remete ao tempo dele nos Beatles, quando ele se vestia de um determinado jeito, mas estava ‘aleijado por dentro’. Nascida da ideia de “Child of Nature”, ainda das gravações do Álbum Branco, dos Beatles, "Jealous Guy" é outra balada no piano sobre magoar alguém e pedir perdão depois por ser um cara ciumento. Ela não foi uma canção muito popular quando lançada, mas ganhou importância ao longo dos anos, principalmente como trilha de alguns momentos do casal Yoko-Lennon.



O blues rock "It's So Hard" é o contra ponto de Lennon para “Imagine”. Se na abertura ele fala de um mundo utópico, a quarta canção do álbum é pedrada atrás de pedrada sobre a realidade (You gotta eat/ You gotta drink/ You gotta feel something/ You gotta worry/ But it's so hard, it's really hard/ Sometimes I feel like going down). Entre a versão gravada em estúdio, uma jam de toda banda, até a versão final, Lennon testou várias abordagens durante as gravações de "I Don't Wanna Be a Soldier", outra letra que ganharia o mundo algum tempo depois. Mas ele cansou e meio que disse à banda ‘façam o que vocês quiserem’. E eles fizeram, improvisaram um bocado e ficou realmente bom. Na pós-produção, Spector teve autorização para colocar sua principal característica na canção (leia-se enchê-la de reverbs e outras coisas).

Várias canções desse álbum são sobras de algum momento nos Beatles. E não foi diferente com a música de protesto "Gimme Some Truth”, gravada na Get Back Sessions, que viraram o documentário Let It Be. Com participação de George Harrison na guitarra slide, a faixa mostra um Lennon irritado, desejando ouvir apenas a verdade por parte de alguém – governo, imprensa, das pessoas. Não a imaginaria no catálogo dos Beatles, mas faz todo sentido estar na carreira solo dele.

Yoko potencializou muitas coisas em John Lennon, entre elas o lado romântico. "Oh My Love" não só deixa isso claro, como é uma homenagem a ela, o amor de sua vida, em uma bela balada curta no piano. Uma pena que a briga entre Lennon e Paul McCartney tenha virado uma guerra de músicas e respostas entre os dois, que começou com o segundo em RAM e chegou aqui em "How Do You Sleep?". O guitarrista não tem dó do então ex-amigo e o cutuca de todas as maneiras possíveis sobre – desde “Yesterday” ter sido a única coisa que fez sem ajuda até sobre a lenda de ele ter morrido em um acidente e ter sido substituído. Falando da música em si, Harrison participa tocando guitarra mais uma vez e o solo também é dele.



"How?" é mais uma das muitas letras compostas depois de alguma sessão de terapia em que alguns demônios eram exorcizados. E parece mesmo isso, porque é uma letra de muitas perguntas e poucas respostas, meio como a nossa vida em que buscamos saber algumas coisas, mas só entendemos mais à frente, mais velhos, mais experientes. Por fim, a balada folk bobinha "Oh Yoko!" encerra o disco para cima, falando de amor e desnudando Lennon e sua relação mais uma vez. Aqui, pela primeira vez em anos, ele tocou gaita.

John Lennon conseguiu colocar para fora tudo que sentia em dois discos de estúdio, e ainda fez de “Imagine” uma música que ultrapassou gerações. Depois ele se perderia na carreira, ficaria um ano longe de Yoko e se afundaria nas drogas. Mas ele ainda conseguiria um último retorno antes de morrer em dezembro de 1980.



Ficha técnica:

Tracklist:

Lado A

1 - "Imagine"
2 - "Crippled Inside"
3 - "Jealous Guy"
4 - "It's So Hard"
5 - "I Don't Wanna Be a Soldier"

Lado B

1 - "Gimme Some Truth”
2 - "Oh My Love" (John Lennon/Yoko Ono)
3 - "How Do You Sleep?"
4 - "How?"
5 - "Oh Yoko!"

Todas as canções foram escritas por John Lennon, exceto a marcada.

Gravadora: Apple
Produção: John Lennon, Yoko Ono, Phil Spector
Duração: 39min29s

John Lennon: vocais, guitarra, violão, piano, assobio em "Jealous Guy" e gaita em "Oh Yoko"

Convidados:

George Harrison: guitarra, guitarra slide em "I Don't Wanna Be a Soldier", "Gimme Some Truth", "Oh My Love" e "How Do You Sleep?"; dobro em "Crippled Inside"
Nicky Hopkins: piano; teclado em "Jealous Guy", "Oh My Love" e "How Do You Sleep?"
Klaus Voormann: baixo e contrabaixo
Alan White: bateria em "Imagine", "Gimme Some Truth", "Oh My Love", "How Do You Sleep?", "How?" e "Oh Yoko!"; Tingsha em "Oh My Love"; vibrafone em "Jealous Guy"
Jim Keltner: bateria em "Crippled Inside", "Jealous Guy" e "I Don't Wanna Be a Soldier"
Jim Gordon: bateria em "It's So Hard"
King Curtis: saxofone em "It's So Hard" e "I Don't Wanna Be a Soldier"
John Barham: Harmônio em "Jealous Guy"; vibrafone em "How?"
John Tout: piano em "Crippled Inside"
Ted Turner e Rod Linton: violão em "Crippled Inside"
Joey Molland e Tom Evans: violão em "I Don't Wanna Be a Soldier"
Rod Linton e Andy Davis: violão em "Gimme Some Truth" e "Oh Yoko!"
The Flux Fiddlers: instrumentos de corda
Phil Spector: vocais de apoio "Oh Yoko!"
Michael Pinder: tamborine em "I Don't Wanna Be a Soldier"
Steve Brendell: contrabaixo em "Crippled Inside"; maracas em "I Don't Wanna Be a Soldier"


Veja também:
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