Resenha: The Beatles - Get Back, de Peter Jackson


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Os Beatles estavam no limite pessoal e emocionalmente nos primeiros dias de 1969, quando seriam acompanhados por várias câmeras e um diretor durante o projeto "Get Back", formatado para ser um especial para TV e mostrar o processo de composição da banda mais famosa do mundo naqueles dias.

As mais de 50 horas de vídeo e mais de 150 horas de áudio resultaram, um ano e meio depois, no documentário "Let it Be" e no disco de mesmo nome, último álbum da banda. Nesse momento, eles não existiam mais enquanto grupo, com John Lennon anunciando a saída ainda em 1969 — e escondendo do público durante a finalização das negociações com a EMI para a renovação de contrato — e Paul McCartney, seis meses depois, em uma autoentrevista, jogando todos os problemas entre eles no ventilador — oi, Alan Klein. Era o fim dos Beatles e o início de quatro carreiras solos.

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O longa de Michael Lindsay-Hogg mostra o processo de composição e não esconde as brigas e desentendimentos. E foi essa a última imagem dos Beatles perante o mundo, quatro homens em pedaços, exaustos e com ambições profissionais maiores do que o sentimento de união que havia até a morte do empresário Brian Epstein.

Mais de 50 anos depois das filmagens e do documentário de Hogg, surgiu a ideia de um projeto para mostrar ao mundo que os Beatles não eram os últimos seis meses da existência da banda, mas algo um pouco melhor. Todo esse material só poderia ser decupado, escrito e editado por Peter Jackson, o homem que conseguiu transformar a trilogia de "Senhor dos Anéis" em materiais espetaculares para o cinema.

Sem inventar muita moda, Jackson optou pelo mais simples: contar a história do projeto 'Get Back", futuro "Let it Be", de maneira cronológica, dia após dia em "The Beatles: Get Back", em três episódios, disponíveis no Disney+ ao longo dos últimos três dias. É um trabalho impressionante, é bom dizer logo de cara. Transformar tudo aquilo em um material com uma história deve ter tomado um tempo bastante razoável da vida dele e da equipe.

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As quase oito horas de imagens e áudios mostram uma banda um tanto arredia em diversos momentos, fruto da enorme bagunça de um ano e meio antes nas gravações do "White Album", de 1968, com eles trabalhando em estúdios diferentes, sozinhos na maior parte do tempo e com o produtor George Martin correndo de um lado para outro — nesse disco, o guitarrista Eric Clapton tocou em "While My Guitar Gently Weeps". A partir disso, a relação entre não era mais a mesma ("Vocês estão bem agora, estão se olhando nos olhos", diria George Martin a Harrison, que abaixa levemente a cabeça e dá um olhar de "não é bem assim" ao produtor).

A começar logo nos primeiros dias, na famosa discussão entre George Harrison e Paul McCartney sobre como o guitarrista deveria tocar uma música. Não demoraria para Harrison deixar a banda e o clima ruim ficar ainda pior no galpão alugado. Ao longo dos primeiros dias, protótipos de canções nasceram, ideias sobre o andamento do projeto foram colocadas e retiradas da mesa na mesma velocidade e pouca coisa andou, de fato. Um dia, alguém simplesmente solta para Lennon: "Você e o Paul [McCartney] já foram mais próximos, certo?", ele simplesmente acena a cabeça rapidamente e recebe um aceno positivo sobre como se reconectar com o amigo.

Os dias passaram e várias coisas chamam atenção, como uma conversa captada entre Paul McCartney e John Lennon sobre como Harrison era oprimido por eles ao longo dos anos ao não deixá-lo ser a terceira força criativa nas composições ("Tenho canções para dez anos de LPs", diria Harrison a Lennon, alguns dias depois). Demorou, mas as coisas se ajeitaram, principalmente quando eles foram para o estúdio no prédio da Apple e com a volta de Harrison após duas reuniões, uma ruim e a outra boa. Além de tudo isso, pesa o fato de McCartney tentar ocupar o espaço de Epstein, Martin e ainda ser ele. É cansativo ver esse esforço se esfarelando muitas vezes. Enquanto isso, Ringo Starr fica calado a maior parte do tempo, exausto de ser o mediador dos conflitos.

Em um lugar menor, com um pouco mais de foco, podemos ver e ouvir como os Beatles eram incríveis. Não tinha milagre. Era trabalho duro, ajuste em cima de ajuste até as canções ficarem boas o suficiente. E nisso, quando eles estavam focados, trabalhando e sem nada para atrapalhá-los, eles eram imbatíveis. Muitas canções, pedaços e ideias nasceram nas sessões de "Get Back", inclusive algumas das carreiras solos de Lennon e Harrison.

O clima no estúdio era ótimo, na maior parte do tempo, principalmente quando Billy Preston chega e dá um novo ânimo nas gravações. O quinto beatle, de estilo soul e de ex-integrante da banda de Ray Charles, domina o órgão e o piano com maestria a ponto de ser contratado pela gravadora dos Beatles para dois discos solos. A presença de Yoko Ono, vendida ao longo dos anos como opressora, não atrapalha as gravações, mas é visível que ela acaba sendo uma barreira entre Lennon e os outros. Isso acaba interferindo na dinâmica, coisa não ocorrida antes da chegada dela. Outras esposas também frequentam o estúdio em um dia ou outro, mas sem o mesmo impacto da futura senhora Lennon — defendida por McCartney em determinado momento ("Vai parecer tão cômico daqui a 50 anos: 'eles se separaram porque Yoko sentou em um amplificador!'").

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O grande drama é saber se haveria ou não o show no telhado do prédio da Apple, com Harrison sendo contra desde o início. No fim, foram três votos a favor e ele acabou indo. Jackson opta por mostrar toda preparação para a apresentação, incluindo todo show na parte final do terceiro episódio, entrada da polícia no prédio, as pessoas de divertindo ou reclamando na rua e tudo mais. A energia entre eles é contagiante, certamente algo não sentido há bastante tempo. E como esses quatro mais Billy Preston soavam bem ao vivo. Teria dado uma turnê e tanto.

"The Beatles: Get Back" é o material mais completo sobre a banda desde o lendário "Anthology", coletânea de vida e obra lançada nos anos 1990. Ao cobrir menos de um mês de trabalho de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr, Peter Jackson mostra que eles eram uma força criativa tremenda mesmo quando estavam cansados deles mesmos e com pouca energia para lutar e manter a amizade de mais de uma década. Ao desnudar os Beatles, Jackson joga luz nessa situação que é bonita, musicalmente falando, e triste, pessoalmente falando. O fim estava próximo. E eles sabiam.

Avaliação: ótimo

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