quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Resenha: Juçara Marçal - Delta Estácio Blues


Juçara Marçal é muito mais do que uma cantora. Ela é uma força da natureza, dessas que arrepia ao ouvir qualquer música dela. Entre inúmeros projetos, participações e o Metá Metá, ela arrumou um tempo para também ter uma carreira solo. Sete anos após o ótimo "Encarnado", ela — finalmente! — lançou outro disco.

"Delta Estácio Blues", assim como todos os outros trabalhos, tem inúmeras participações e produção do requisitadíssimo Kiko Dinucci. Um ponto do trabalho é como os arranjos são trabalhados, em misturas de uma música afro-brasileira tradicional com elementos eletrônicos que ajudam a preencher bem os espaços com pequenos sons — detalhes importantes em "Vi de Relance a Coroa", faixa de abertura.

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Outra bomba é a forte, pesada e bem carregada no sintetizador "Sem Cais", com um belo solo de trompete de Rômulo Alexis, enquanto a faixa-título homenageia Robert Johnson e a Turma do Estácio de uma maneira bem experimental e totalmente fora da curva. E "Ladra" relembra o estilo musical dos dois primeiros álbuns de Tulipa Ruiz, mas, assim como as outras, o sintetizador é parte fundamental da faixa.

Uma das melhores canções do álbum, "Crash" foi composta pelo rapper Rodrigo Ogi e faz jus ao combativo rap brasileiro e, na voz de Juçara Marçal, a faixa ganha uma força que não teria com outra cantora. O jeito como ela canta as rimas faz toda diferença, diferente da melancólica e emocionalmente pesada "Baleia".

O cover de "La Femme à Barbe" ganha muito com os tambores e ritmos africanos. É como se a canção ganhasse uma segunda vida e um novo significado em outra rotação nessa gravação. E é logo depois dessa que surge Tantão e Os Fita em "Oi, Cat", faixa para lá de experimental e completamente fora da casinha.

"Lembranças Que Guardei" até tem esse ar experimental, mas também tem potencial para virar uma bonita balada. O final ainda traz a reflexiva "Corpus Christi" e "Iyalode Mbè Mbè", uma mistura de jazz experimental com o regionalismo afro-brasileiro tão presente nas nossas vidas.

Juçara Marçal faz de "Delta Estácio Blues" um importante trabalho sobre o Brasil e, por que não, sobre ela mesma. Ao longo das 11 faixas, ela explora referências e faz do novo disco solo uma homenagem a todos que a ajudaram, direta ou indiretamente, chegar até esse momento da carreira.

Tracklist:

1 - "Vi de Relance a Coroa"
2 - "Sem Cais"
3 - "Delta Estácio Blues"
4 - "Ladra"
5 - "Crash"
6 - "Baleia"
7 - "La Femme à Barbe"
8 - "Oi, Cat"
9 - "Lembranças Que Guardei"
10 - "Corpus Christi"
11 - "Iyalode Mbè Mbè"

Avaliação: ótimo

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