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terça-feira, 23 de junho de 2020

Resenha: Neil Young - Homegrown


Nos últimos anos, Neil Young tem disponibilizado algumas músicas nunca gravadas e/ou lançadas nas versões originais. Ele vem cumprindo a promessa feita de lançar tudo, até mesmo coisas obscuras que geravam diversas especulações nos fãs ao longo dos anos e apenas disponíveis em gravações amadoras de algum show nos anos 1970. O primeiro trabalho completo colocado à disposição foi "Hitchhiker" (2017), gravado em 1976, mas recusado pela gravadora. Algumas faixas foram colocadas em outros trabalhos, mas, juntas, dão outro sentido ao que Young queria ter dito.

Pois ele acaba de soltar o segundo trabalho do tipo. Sucessor de "Colorado" (2019), primeiro trabalho dele com a Crazy Horse desde 2012, "Homegrown" tem músicas gravadas entre 1974 e 1975, um dos piores períodos pessoais da carreira do compositor. Perda de amigos, separação da então mulher e vício em cocaína deixavam Young a flor da pele. Ao mesmo tempo em que era capaz de gravar uma sessão de horas com a Crazy Horse, ele escrevia canções viscerais apenas usando o violão em uma cabana mal iluminada nas imediações de Los Angeles.

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A cabeça de Young funciona de um jeito muito particular -- quem leu a autobiografia dele sabe do que estou falando --, então é difícil entender os motivos que o levaram a engavetar o trabalho. Ele mesmo diz que o disco é "real demais". E pode ser mesmo. Dominado pelos inúmeros problemas, ele escolheu a música como veículo para desabafar suas maiores angústias. Mas ele também lembrou que esse mesmo veículo o transformou em alguém muito famoso, então, ao engavetar o trabalho, o Neil Young de 29, quase 30 anos, não estava pronto para mostrar ao mundo coisas tão pessoais.

Ao mesmo tempo, o mesmo cantor lançou, em 1975, "Tonight's the Night", uma de suas obras-primas -- também guardada, mas apenas por dois anos. Esse LP fala abertamente das mortes do guitarrista Danny Whitten e do roadie Bruce Berry, ambos amigos muito próximos. É difícil entender os motivos que o levaram a guardar "Homegrown" por tantos anos. Talvez lançar dois álbuns seguidos falando dessas perdas seria muita coisa para um público ávido por um novo "Harvest"? Talvez por não querer frustrar as expectativas da gravadora, outra que esperava uma nova profusão de hits certeiros de um dos principais contratados? Talvez nem mesmo ele saiba responder isso, e mesmo se há uma resposta para isso.

Fato é que "Homegrown", agora o 40º trabalho de estúdio, é mais uma obra incrível de um homem que escolheu escrever sobre suas dores e problemas do mundo em quase todos os álbuns da carreira. Aqui, ele escolhe um caminho mais sóbrio para contar suas histórias, como no delicado verso de Star of Bethlehem" ("Yet still a light is shining from that lamp on down the hall/ Maybe the star of Bethlehem wasn't a star at all").

A discografia de Neil Young nos anos 1970 é obrigatória para quem deseja entender mais aquele período específico da música, dos Estados Unidos e da vida de um homem perturbado por seus próprios problemas. Ele transformou seu universo em trabalhos sólidos e admiráveis pelo resto da vida. "Homegrown", feito com ajuda de gente do calibre de Levom Helm e Robbie Robertson (The Band) e Emmylou Harris, sai das sombras para sacramentar que Young foi um dos gênios de sua geração.

Mais:
Neil Young - "Vacancy" (Áudio)
Neil Young - "Try" (feat. Levon Helm and Emmylou Harris) (Áudio)
Neil Young with Crazy Horse - "Rainbow of Colors" (Áudio)


Tracklist:

1 - "Separate Ways"
2 - "Try"
3 - "Mexico"
4 - "Love Is a Rose"
5 - "Homegrown"
6 - "Florida"
7 - "Kansas"
8 - "We Don't Smoke It No More"
9 - "White Line"
10 - "Vacancy"
11 - "Little Wing"
12 - "Star of Bethlehem"

Avaliação: ótimo



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