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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Discos para história: Transformer, de Lou Reed (1972)


A 99ª edição do Discos para história falará sobre um dos clássicos dos anos 1970: Transformer, de Lou Reed. Produzido por David Bowie, o álbum foi um divisor de águas na carreira de Reed após o final do Velvet Underground alguns anos antes.

História do disco

O Velvet Underground vivia o caos no final dos anos 1960. Depois do fracasso das vendas de The Velvet Underground & Nico, que viria a se transformar em um dos discos mais influentes de todos os tempos, a banda, basicamente Lou Reed, decidiu mudar tudo. Primeiro, demitiu Andy Warhol da gerência do grupo contra a vontade de John Cale, que saiu em 1968. Pouco antes disso, Nico, a parceria da estreia, também saiu. Isso tudo rolou durante as gravações de White Light/White Heat, segundo disco de estúdio.

Nos dois anos seguintes, a banda lançou The Velvet Underground (1969) e Loaded (1970), porém sem conseguir o almejado sucesso. Tentativas de transformá-la em algo mais comercial foram feitas por parte da gravadora, principalmente ao tentar transformar as letras em algo mais pop. Nada deu certo. O cantor deixou o grupo em agosto de 1970 e voltou a morar com os pais.


Desiludido com a indústria musical, ele aceitou um emprego de contador no escritório do pai para ser um dos datilógrafos e ganhar algum dinheiro. Nesse momento, largar a música não era apenas uma intenção, mas uma realidade dura e cruel para quem desejou, desde meados dos anos 1950, viver disso. No início dos anos 1970, ele resolveu dar uma passada na Inglaterra a convite de um jovem cantor chamado David Bowie, que estava nos Estados Unidos (lugar em que ele teve a primeira ideia do que viria a ser Ziggy Stardust pouco tempo depois) para divulgar o álbum The Man Who Sold the World, fã do Velvet Underground e da figura do compositor e acabou voltando às gravações ao fazer um trabalho que levava seu nome, lançado em 1972 – esse disco foi gravado com ajuda de Rick Wakeman e Steve Howe, músicos que viriam a fazer parte da primeira formação do Yes.

Mas o fracasso aconteceu novamente, embora alguns poucos críticos tenham visto potencial e antecipado algumas coisas que viriam a acontecer nos anos seguintes, e a carreira de Reed parecia estar destinada a nunca decolar e a virar história nas páginas dos livros em um futuro distante. Foi nesse momento que Bowie tomou coragem e fez uma proposta de ser o produtor do próximo disco do ídolo.

"Fiquei petrificado quando ele disse que sim, que gostaria de trabalhar comigo, porque tinha tantas ideias. Me senti intimidado pelo trabalho que ele já tinha feito. E, mesmo sendo um período tão curto, parecia que Lou já tinha um imenso legado", disse o cantor inglês, anos depois, em um documentário sobre as gravações de Transformer. O ano de 1972 era ótimo para ele, que estava no que os jovens daquela época chamariam de ‘crista da onda’, após ter colocado no mercado The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars em junho.

O guitarrista Mick Ronson também teve papel fundamental na gravação do novo LP de Reed. Além de ajudar Bowie, ele também atuou como músico de estúdio e arranjador, sendo fundamental na construção de certas melodias que entrariam para história – ele seria celebrado como um dos produtores e músicos mais importantes dos anos 1970, chegando a fazer parte da Spiders from Mars, banda que acompanhou Bowie até 1973.

Quatro das dez canções iniciais apresentadas para entrar no álbum já haviam sido, ao menos, testadas em estúdio no período do VU, e "Vicious" havia sido escrita na mesma época, então o trabalho era tentar reagrupá-las e gravá-las da melhor maneira possível. A última a entrar na roda de gravações foi "Wagon Wheel" que, reza uma das muitas lendas do rock, é de David Bowie e acabou sendo dada de presente ao ídolo. Então, as gravações em Londres acabaram não sendo das mais difíceis e ainda contaram com as participações de vários músicos pelo estúdio.

Capítulo a parte, a clássica capa saiu depois de um erro na impressão. Para sorte da história da música, o fotografo Mick Rock decidiu não mexer em nada e apresentou ao cantor do jeito que saiu. Ele adorou. Transformer foi lançado em 8 de novembro de 1972 e, de cara, foi o maior sucesso comercial de Lou Reed ao chegar à 29ª colocação nos Estados Unidos e a 13ª no Reino Unido – claro que ter Bowie como produtor ajudou nas vendas.

Depois de quase dez anos entre o sonho de ter uma banda, as frustrações e o quase abandono da carreira, finalmente o sucesso havia batido em sua porta e entrado para tomar um chá.


Resenha de Transformer

Inspirada e incentivada por Andy Warhol, "Vicious" parece mesmo ser uma letra biográfica falando ao artista plástico. O refrão (Vicious, you hit me with a flower/You do it every hour/Oh, baby you're so vicious/Vicious, hey why don't you swallow razor blades/You must think that I'm some kind of gay blade) grudento, a guitarra distorcida e um Reed inspirado dão a sensação que ele está mais seguro do que nunca.

Escrita nos primeiros dias de Velvet Underground, "Andy's Chest" só foi executada uma vez por seu autor: em 1988, 16 anos depois do lançamento de Transformer, a colocando como uma das muitas raridades do repertório dele. Mas depois dela vem o clássico "Perfect Day", canção sobre um dia no parque com sua então mulher Bettye Kronstad – alguns dizem que é sobre vício em heroína, porém a versão divulgada por Reed parece ser mais aceitável. A letra dela é melancolicamente bonita, e o vocal é bem colocado e pontuado em todas as palavras. A animada "Hangin' 'Round" traz o verso ‘ela fazia sexo no salão’, mostrando que o compositor tinha um olhar global sobre as relações das pessoas, não focando apenas no romance – descrito tão bem na canção anterior.



Para fechar o lado A, "Walk on the Wild Side", primeiro single de sucesso da carreira do cantor, é a junção de várias histórias em uma só. Amarrar tudo isso foi um toque de genialidade e coragem, ainda mais quando ele falou sobre a transexual Holly Woodlawn, que fugiu de casa e aprendeu a fazer as sobrancelhas no caminho, raspou as pernas e se transformou. Ou de Candy Darling, uma atriz transgênero, ou Joe Dallesandro, ator do filme Flesh (1968), ou o ator Joe Campbell, o ‘Sugar Plum Fada’ (apelido para traficante de drogas), ou o ator Jackie Curtis, que sonhava em ser James Dean no cinema quando usava drogas. Juntar histórias tão diferentes em uma letra tão densa e recheada de detalhes é um dos pontos altos, se não o maior, da carreira de Lou Reed. Porque ele tocou em temas que, hoje, são discutidos abertamente pela sociedade. E ainda temos uma melodia belíssima, e um solo de saxofone emocionante para arrebatar todos esses sentimentos.

O lado B do disco começa com a romântica "Make Up", que tem o verso Now we're coming out, out of our closets (agora nós estamos saindo dos nossos armários). Muitos dizem ser uma alusão ao fato de Reed ser bissexual e não se importar em expor isso, ainda que de forma sutil. Outra dos tempos de VU é "Satellite of Love", gravada em 1970, mas não incluída em Loaded. A letra fala de um satélite lançado ao espaço, uma alusão ao fato de ver a então namorada o traindo com vários caras ao longo da semana.



"Wagon Wheel" tem a participação de David Bowie nos vocais de apoio e no violão acústico e, na metade final, soa uma imensa jam session entre todos que estavam no estúdio naquele dia. E a engraçadinha "New York Telephone Conversation" é uma homenagem a todo tipo de conversa chata que as pessoas que não têm carro estão sujeitas a ouvir durante o dia.

Animada e festeira, "I'm So Free" tem um Lou Reed feliz repetindo várias vezes I'm so free, I'm so free (eu sou livre, eu sou livre). Retirado de um verso de um poema de T. S. Eliot, "Goodnight Ladies" é um standard improvável em um disco muito bom. E encerra muito bem, dando o toque de delicadeza, mesmo falando de como chamar umas mulheres e ficar doidão de maconha. Enfim, ainda bem que esse disco existe. E ainda bem que Lou Reed conseguiu deixar esse legado.



Ficha técnica:

Tracklist:

Lado A

1 - "Vicious"
2 - "Andy's Chest"
3 - "Perfect Day"
4 - "Hangin' 'Round"
5 - "Walk on the Wild Side"

Lado B

6 - "Make Up"
7 - "Satellite of Love"
8 - "Wagon Wheel"
9 - "New York Telephone Conversation"
10 - "I'm So Free"
11 - "Goodnight Ladies"

Todas as músicas são creditadas a Lou Reed, exceto "Wagon Wheel", de Lou Reed e David Bowie

Gravadora: RCA
Produção: David Bowie e Mick Ronson
Duração: 36min40s

Lou Reed: guitarra e vocais
Herbie Flowers: baixo, baixo-duplo e tuba em "Goodnight Ladies" e "Make Up"
Mick Ronson: guitarra, piano, flauta e arranjo de cordas
John Halsey: bateria

Convidados:

David Bowie: vocais de apoio, piano e violão em "Wagon Wheel"
Trevor Bolder: trompete
Ronnie Ross: saxofone barítono em "Goodnight Ladies" e "Walk on the Wild Side"
The Thunder Thighs: vocais de apoio
Barry DeSouza: bateria
Ritchie Dharma: bateria
Klaus Voormann: baixo em "Goodnight Ladies", "Satellite Of Love" e "Make Up"



Veja também:
Discos para história: Never Mind the Bollocks, Here's the Sex Pistols, do Sex Pistols (1977)
Discos para história: Born to Run, de Bruce Springsteen (1975)
Discos para história: Turn on the Bright Lights, do Interpol (2002)
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Discos para história: Imagine, de John Lennon (1971)
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