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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Resenha: Emicida – Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa


Quando se mora em um bairro de periferia, a coisa mais normal do mundo é ouvir carros passando com o volume alto ao longo do dia e da noite. E um dos sons preferidos do pessoal é o rap, principalmente Racionais. Logo que saiu Cores e Valores, disco mais recente dele, não foi difícil ouvir o refrão da faixa-título ecoando na rua. O que nunca percebi com Emicida, seja em seus EPs ou em seu primeiro disco solo, O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, lançado em 2013.

Nunca me animei muito com essa geração nova do rap nacional, incluindo Emicida e Criolo, mas as notícias que vieram sobre o primeiro colocar influências da música africana nas letras de Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa – isso depois de uma viagem a Cabo Verde e Angola – me fizeram dar uma chance ao disco. E ao começar com "Mãe", ele ‘chega chegando’, como dizem por aí. Ele homenageia a mãe em uma letra biografia ao expor o que acontecia com ele em sua infância e reflete sobre várias coisas em sua vida desde então. É um início muito bonito, muito tocante e sensível, principalmente pela participação dos vocais de apoio femininos. Um toque de delicadeza em uma canção cheia de raiva.

A letra contestadora de "8" não compensa a escolha errada por algo acelerado, corrido e sem graça, que só chama atenção mesmo pelo fato de tocar em temas que poucos músicos têm a coragem de se manifestar. Já em "Casa", o coral infantil contrasta as rimas cheias de referências de coisas novas e antigas. O interessante é a afirmação de que o mundo é a casa de todos, apesar dos problemas. E que nunca é para esquecer quem somos e de onde viemos.

Bonitinha, "Amoras" é um relato curto que cita nomes de nomes importantes na luta pelos Direitos Civis dos negros. Ela serve de abertura para "Mufete", momento em que as referências da música africana aparece pela primeira vez. Apesar de Emicida rimar, a melodia e andamento são suaves e bonitos. Não chega a ser um samba, mas se aproxima muito, principalmente por ser um ritmo dançante. A participação de Caetano Veloso na romântica "Baiana" se resume a ser um vocal de apoio de luxo na mais pop de radiofônica de todo álbum – tem potencial imenso para virar single de sucesso, apesar de ser bem mais ou menos.

Entre todas, logo um das canções de trabalho, "Passarinhos" é a pior de todas. Primeiro, é um reggae ruim. Segundo, não é o tipo de música que Emicida canta, então ficou ruim. Terceiro, retorne ao primeiro item. Bem diferente e curta, "Sodade" também vem daquela influência da África e passa a sensação de ser uma canção de algum ritual importante ou alguma coisa do tipo. Essa faixa merece todo respeito do mundo, que é um contraponto a "Chapa", outro samba, mas esse com referências mais do que se fazia nos anos 1930 e 1940.

"Boa Esperança" traz Emicida de volta ao mundo real em uma letra pesada, sobre racismo, preconceito e mortes de negros pela polícia, de refrão forte (Por mais que você corra irmão/ Pra sua guerra vão nem se lixar/ Esse é o xis da questão/ Já viu eles chorar pela cor do orixá?/ E os camburão o que são?/ Negreiros a retraficar/ Favela ainda é senzala jão/ Bomba relógio prestes a estourar). É para, não só uma pessoa, mas a sociedade, refletir. Na seguinte, Marcelino Freire traça um retrato sobre preconceito ("Trabalhadores do Brasil") ao relatar situações do cotidiano.

As participações de Dirk Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike e Raphão Alaafin na faixa "Mandume" traz um frescor ao disco, além de depoimentos de uma geração que tem referências diferentes da anterior, mas sofrem as mesmas coisas quase todos os dias, na maior faixa (8min16s) do álbum. O lado romântico do rapper reaparece na bonitinha "Madagascar", que ainda tem certo lado pesado mais ou menos na metade. A última, "Salve Black – Estilo Livre", reserva um samba-rap, estilo consagrado por Marcelo D2 recentemente, para agradecer e celebrar todas as canções do trabalho.

Pouco superior ao disco anterior, Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa apresenta muito bem o ritmo da África ao Brasil. Para quem não conhecia, fica a dica. Nas outras letras, há aqueles pecados de tentar encaixar muita coisa ao mesmo tempo, e as participações de Caetano Veloso e Vanessa da Mata derrubam muito as canções que ambos participam. De resto, Emicida, enfim, pode agradar uma parcela maior da população. Resta saber que ouvirei alguma de suas canções sacudindo as janelas da minha casa.

Tracklist:

1 - "Mãe"
2 - "8"
3 - "Casa"
4 - "Amoras"
5 - "Mufete"
6 - "Baiana"
7 - "Passarinhos"
8 - "Sodade"
9 - "Chapa"
10 - "Boa Esperança"
11 - "Trabalhadores do Brasil"
12 - "Mandume"
13 - "Madagascar"
14 - "Salve Black – Estilo Livre"

Nota: 3,5/5


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