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terça-feira, 18 de abril de 2017

Resenha: Father John Misty – Pure Comedy


Novo álbum do cantor é uma reflexão sobre ele mesmo e a sociedade

I Love You, Honeybear (2015) colocou Father John Misty em um patamar diferente nos meses seguintes, porque um grande disco faz isso com um músico mesmo. Depois desse trabalho muito bom, que o mostrou além do mundo da 'Pitchfork', claro que a cobrança por algo ainda maior e melhor era esperado por ele no álbum seguinte. Se 2016 foi o ano para ele ser atração principal de alguns festivais pelo mundo, 2017 tornou-se ideal para o lançamento de Pure Comedy – terceiro disco de Josh Tillman como Father John Misty –, gravado quase inteiramente em março do ano anterior.

A duração, mais de 70 minutos, espanta um pouco. Mas não é motivo para afugentar o ouvinte menos disposto a encarar a longa audição, porque a faixa título já vale muito a pena ser ouvida por sua construção em cima de uma melodia muito simples e cativante. Apesar de ser melancólica e usar de metáforas para falar sobre a vida, acaba sendo muito clara ao conseguir destacar certos aspectos de maneira precisa. A seguinte, "Total Entertainment Forever", é curta e das melhores para entender a situação do mundo atual em que políticos e empresários mandam no mundo, enquanto estamos conectados curtindo centenas de fotos no Instagram e esperando pelo próximo meme no Twitter. Parece que estamos sendo entretidos, e distraídos, até o último dia de nossas vidas.

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Father John Misty discute como a sociedade seria antes da evolução ("Things It Would Have Been Helpful to Know Before the Revolution") e como o egoísmo de um homem o faz acreditar que suas opiniões são importantes ao ponto de achar que sua morte é uma perda significativa para sociedade ("Ballad of the Dying Man"). São duas canções que acabam se complementando nessa temática complexa envolvida no álbum. Sim, o ser humano é o tema mais complexo de toda história, sendo impossível decifrá-lo ao longo do seu tempo na Terra. Já "Birdie" fala, de maneira muito delicada, como o interlocutor sonha para o futuro para quem o ouve – o tom gospel da faixa chama bastante atenção.

Com mais de 13 minutos, "Leaving LA" começa com Father John Misty começa com uma crítica mordaz aos costumes de Los Angeles e com isso é ruim para quem mora lá. Mas, ao passo que a faixa vai passando, acaba virando uma autorreflexão sobre ele mesmo e como ele fez parte dessa cultura durante muitos anos. Talvez seja a canção mais autobiográfica já composta por Father John Misty, porque a próxima, "A Bigger Paper Bag", é exatamente o tipo de vida que o cantor levou durante muitos anos. O uso de metáforas, agora com um ar mais religioso, volta em "When the God of Love Returns There'll Be Hell to Pay", quando o cantor usa o apocalipse descrito na Bíblia para falar dos seres humanos de forma melancólica e embalado por uma suave melodia.

"Smoochie" traz um diálogo em que o interlocutor apenas deseja que tudo fique bem, enquanto "Two Wildly Different Perspectives" é um recado claro e direto às novas políticas do atual presidente do Estados Unidos. E "The Memo" expõe todos os problemas socioeconômicos e culturais dos país – no fim, essas três faixas de média duração são um resumo dos temas abordados no Last Week Tonight, talk show apresentado por John Oliver.

Inspirado no livro A Montanha Mágica, de Thomas Mann, Father John Misty aborda o futuro em "So I'm Growing Old on Magic Mountain" e como ficar velho é algo extremamente complicado em vários aspectos – pessoais e da sociedade. Mas isso acontece, porque assim é a vida. A última faixa, "In Twenty Years or So", é uma reflexão sobre estar vivo, apesar de saber que o fim está próximo. Sabe aquele negócio de cada aniversário é um ano a menos de vida? É por aí. Mas estamos aqui, então vamos tentar fazer o máximo por nós e pelo próximo.

Father John Misty conseguiu traduzir em palavras certas coisas do dia a dia que estamos acostumados a ver e deu um passo muito grande para mostrar ao mundo algumas coisas óbvias, mas consideradas normais. É um disco reflexivo, quase religioso, que merece ser ouvido. É um dos grandes álbuns deste ano.

Tracklist:

1 - "Pure Comedy"
2 - "Total Entertainment Forever"
3 - "Things It Would Have Been Helpful to Know Before the Revolution"
4 - "Ballad of the Dying Man"
5 - "Birdie"
6 - "Leaving LA"
7 - "A Bigger Paper Bag"
8 - "When the God of Love Returns There'll Be Hell to Pay"
9 - "Smoochie"
10 - "Two Wildly Different Perspectives"
11 - "The Memo"
12 - "So I'm Growing Old on Magic Mountain"
13 - "In Twenty Years or So"

Nota: 4,5/5



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