sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Discos para história: Never Mind the Bollocks, Here's the Sex Pistols, do Sex Pistols (1977)


A 98ª edição do Discos para história falará sobre o álbum que tirou o punk do underground e o colocou como um dos grandes gêneros na história da música: Never Mind the Bollocks, Here's the Sex Pistols. Único disco do Sex Pistols, o trabalho é o recorte de um momento socioeconômico, político e cultural na Inglaterra dos anos 1970.

História do disco

Antes de virar o fenômeno que virou, o Sex Pistols, ainda sem esse nome, passou por muitas mudanças em sua formação e no vestuário até encontrar o ponto ideal. No início, a banda foi um trio formado pelos amigos Steve Jones (vocais), Paul Cook (bateria) e Wally Nightingale (guitarra) – isso no início de 1972, quando eles não tinham dinheiro para nada e furtavam instrumentos esquecidos nos palcos das casas de shows imundas que frequentavam.

O que os motivou a ter banda foi o revival do que era conhecido nos anos 1950 como teddy boy. Para ser um teddy boy era necessário andar com jaquetas de couro, calças jeans, botas e ter um ar exibido pelas ruas, basicamente o que viria a ser o punk (Ringo Starr disse certa vez que os Beatles foram punks antes mesmo de o punk existir). Quem conseguiu capitalizar em cima desse retorno foi a loja de roupas McLaren-Westwood, comandada pelo futuro empresário e organizador de shows Malcolm McLaren.

Tudo que uma cena precisa para borbulhar é ter um ponto de encontro, um bar, uma casa de shows ou um lugar em que as pessoas de mesmo interesse se reúnam. A loja acabou virando isso – um dos frequentadores era o então jovem Sid Vicious. Em um desses encontros, a banda recrutou Glen Matlock para tocar baixo, e McLaren acabou virando empresário deles, mas, pouco depois, ele se mudou para Nova York. Não sem antes trocar o nome da loja para SEX.

Na América, o agora empresário do mundo da música tomou conta da carreira da promissora banda glam New York Dolls. Isso mostrou a ele como trabalhar no meio e deu a experiência necessária para, quando retornasse a Londres, saber exatamente o que os garotos de lá precisavam. Ele voltou e encontrou um grupo em frangalhos em 1975, então tomou uma atitude ao colocar o nome de QT Jones & His Sex Pistols. Jones era o vocalista, porém detestava a função. Ao saber disso, começou uma busca por um nome que encaixasse com a proposta dessa nova banda.

Em agosto de 1975, aconteceu o encontro que, enfim, traria um vocalista. Usando uma camiseta do Pink Floyd com um imenso ‘I hate (eu odeio)’ na parte de cima, John Lydon se encontrou com McLaren e Jones, que o procuraram para saber sobre as possibilidade de ele ser o frontman deles. McLaren teve trabalho, mas conseguiu convencer os outros membros a ensaiar com ele e, ao menos, fazer um teste. Na primeira semana de ensaios, John Lydon ganhou o apelido de Johnny Rotten por ter pouco cuidado com a higiene bucal. Também nesse período, eles oficializaram o nome Sex Pistols para colocar nos pôsteres dos shows, uma estratégia de marketing por parte do esperto empresário. Nasciam duas lendas do rock em poucos dias, prontas para fazer a escalada rumo ao sucesso.

O Sex Pistols começou a fazer um show atrás do outro, e todos lotados, principalmente por jovens entre 15 e 21 anos. Em outubro de 1976, o prêmio pelo sucesso chegou: a EMI ofereceu um contrato de dois a eles, prontamente aceito, para um primeiro trabalho em estúdio. A ideia era tentar reproduzir no disco a mesma atmosfera das apresentações ao vivo, ideia jogada no lixo depois de inúmeras tentativas frustradas. Apesar disso, o primeiro single, "Anarchy in the U.K.", foi lançado em 26 de novembro de 1976. Considerado um manifesto da classe trabalhadora, fez bastante sucesso nos anos seguintes de crise.

Uma participação polêmica em um programa de TV colocou a banda na rota do mainstream e chocou a sociedade conservadora pela quantidade de palavrões ditos ao vivo. Isso, claro, os transformaram em vilões e alvos dos tabloides ingleses, gerando o cancelamento de 13 dos 20 shows marcados para dezembro de 1976. A consequência disso foi o rompimento do contrato por parte da EMI. Depois de semanas em crise, Matlock saiu do grupo – anos depois, ele revelou que sua saída foi causada pelo péssimo comportamento de Rotten. Quem ocupou a vaga foi o jovem Sid Vicious, protegido de McLaren para atuar como contraponto ao vocalista. Sem saber tocar baixo, entrou exclusivamente por ter aparência, jeito e muitas amizades no circuito punk inglês. Entrar em uma banda famosa inflou o ego do novo membro, que se afundou nas drogas em um relacionamento destrutivo com Nancy Spungen no início de 1977.

O Sex Pistols chegou a assinar com a A&M Records para o lançamento do single "God Save the Queen", mas a banda se envolveu em tantas coisas absurdas, brigas com diretores e encrencas dentro do prédio da gravadora, que o acordo foi desfeito seis dias depois, em 16 de março de 1977. Quase 30 mil cópias do single já impressas e prontas para distribuição foram destruídas. Eles firmaram com a Virgin (depois de serem recusados por CBS, Decca, Pye e Polydor) para o lançamento da canção, porém os funcionários da nova gravadora se recusavam a imprimir as capas por considerarem desrespeitosa com a rainha Elizabeth II. Os protestos levaram três semanas para serem contidos, e o single foi lançado em 27 de maio. As rádios baniram a canção de suas programações, fizeram protestos formais e não tocaram mesmo com ela atingindo o primeiro lugar das paradas – a rainha comemorava 25 anos no poder na semana de lançamento. Segundo historiadores musicais, os organizadores das paradas fraudaram o ranking para evitar "God Save the Queen" no topo.

Nesse rolo todo, eles ainda não haviam tido tempo para entrar em estúdio e finalizar o disco. Como não havia mais Glen Matlock para tocar baixo e ajudar nas composições, Steve Jones ocupou o baixo até a contratação de Sid Vicious, que chegou a tempo de gravar duas faixas. O processo para fazer Never Mind the Bollocks, Here's the Sex Pistols foi demorado e cansativo, muito por conta dos problemas em escolher as canções e a ordem de aparição no álbum. A confusão foi tanta, aliada por um disco pirata lançado na França com 11 músicas (a quem diga que foi a própria banda que vazou, em protesto por não aceitar certas ordens da gravadora), que erraram na prensagem oficial colocando apenas 11 faixas, sendo que o disco vinha com 12.

A versão pirada fez muito sucesso, mas não em comparação com a original. Lançado em outubro de 1977, um ano depois do início das gravações, o LP foi proibido em vários varejistas “por conter letras obcenas, de mau gosto e que não representavam nenhum pouco o espírito e educação ingleses” e também por a polícia prender quem colocasse o anúncio do disco na frente da loja. Isso acabou sendo ótimo às lojas independentes, que receberam 125 mil pedidos do álbum duas semanas antes do trabalho físico ser colocado no mercado. Obviamente, chegou ao primeiro lugar nas vendas daquela semana com folga. O Sex Pistols acabaria em 17 de janeiro de 1978, só três anos depois da formação original, mas entraria para história como a banda que mais tumultuou o reinado inglês.


Resenha de Never Mind the Bollocks, Here's the Sex Pistols

A abertura dos trabalhos começa na ótima “Holidays in the Sun", canção inspiradora sobre as férias da banda em Berlim, então capital da Alemanha Ocidental, depois de um período de trabalho árduo. Recheada com uma guitarra alta e um Johnny Rotten inspirado, é um ótimo começo. Segunda faixa, "Bodies", sobre engravidar e abortar a criança, é daquelas canções grosseiras que o Sex Pistols conseguiu fazer muito sucesso, ainda mais ao reproduzir quase que fielmente a forma de executá-la nas intensas apresentações.

De refrão grudento (A no feelings/ A no feelings/ A no feelings/ For anybody else), "No Feelings" fala de um cara que não tem sentimentos por ninguém a não ser ele mesmo. Curta e bem rasteira, tem um espaço interessante para um solo de guitarra. Outra bem potente nas apresentações é a intensa "Liar", em que o cantor acusa alguém de mentir e o coloca em suspensão. E "Problems" é aquela música adolescente que fala muito de revolta e outra boa para decorar rapidamente.



Um dos hinos da Inglaterra do meio dos anos 1970 e início dos anos 1980, "God Save the Queen" é um clássico. Primeiro, por ser um ataque direto à monarquia usando a fina ironia de ter o título do hino do país; segundo, lançá-la no Jubileu de Prata foi uma afronta que levou muitos punks, donos de lojas e admiradores da banda serem presos e responderem processos, além de bater diretamente no sistema que estava prestes a ruir para muitos trabalhadores nos anos seguintes. Também é possível perceber que o Sex Pistols não tinha a menor vergonha de usar a mesma estrutura nas músicas, só colocando um pouco mais de humor, acidez e política, como no refrão Don't be told what you want/ Don't be told what you need/ There's no future/ No future, no future for you (Não diga o que você quer/ Não diga o que você precisa/ Não há futuro/ Sem futuro, sem futuro para você).

Abrindo o lado B, temos "Seventeen", uma ode à vagabundagem e ao movimento punk. Por ser curta, é outra que a banda conseguiu imprimir um bom ritmo no disco, semelhante a das versões ao vivo. Outro hino saído do trabalho é "Anarchy in the U.K.", claramente um manifesto contra o governo e também um incentivo para sair quebrando tudo, certo? Mas Lydon afirmou, anos depois, que a letra não era política, mas sobre devolver o rock a quem era o verdadeiro dono dele: o público.



Menos visceral e mais calma, "Submission" não tem nada de punk e, de longe, é a mais fraca de todo álbum. Se os clássicos refletem os sentimentos perante acontecimentos daqueles anos, "Pretty Vacant" é um belo recorte do que era o movimento punk inglês entre 1975 e 1977, com o refrão fazendo um belo resumo de tudo (Oh we're so pretty/ Oh, so pretty vacant/ Oh, so pretty vacant/ Oh, so pretty vacant/ But now and we don't care). "New York", tocada uma rotação a menos do que o normal, e "E.M.I.", uma paulada nas gravadoras que os demitiram, encerram esse LP histórico.

O mundo da música havia passado pelas fases progressiva e dance, mas muitos jovens não se encaixavam em nenhuma das duas e se sentiram deslocados. Foi aí que o punk apareceu e salvou algumas vidas do tédio. Uma dessas bandas que fizeram a diferença nesse período foi o Sex Pistols que, ainda que tenha durado pouco, foi uma inspiração para algumas centenas de jovens que viriam a montar suas bandas e fazer sucesso nos anos seguintes.



Tracklist*:

Lado A

1 - “Holidays in the Sun"
2 - "Bodies"
3 - "No Feelings"
4 - "Liar"
5 - "Problems"
6 - "God Save the Queen"

Lado B

1 - "Seventeen"
2 - "Anarchy in the U.K."
3 - "Submission"
4 - "Pretty Vacant"
5 - "New York"
6 - "E.M.I."

Todas as músicas são de Cook/Jones/Matlock/Rotten, exceto "Holidays in the Sun" e "Bodies", de Cook/Jones/Rotten/Vicious

Gravadora: Virgin
Produção: Chris Thomas e Bill Price
Duração: 38min44s (12 músicas)**

*a versão resenhada é a lançada nos Estados Unidos com 12 faixas e “Problems” à frente de "God Save the Queen". Elas estão invertidas na versão inglesa

**existe uma versão com 11 músicas de 34min32s que não conta com "Bodies".

Johnny Rotten: vocal
Steve Jones: guitarra, baixo e vocais de apoio
Sid Vicious: baixo em "Bodies"
Glen Matlock: baixo em "Anarchy in the UK"
Paul Cook: bateria

Veja também:
Discos para história: Born to Run, de Bruce Springsteen (1975)
Discos para história: Turn on the Bright Lights, do Interpol (2002)
Discos para história: Dirty, do Sonic Youth (1992)
Discos para história: Imagine, de John Lennon (1971)
Discos para história: Õ Blésq Blom, dos Titãs (1989)
Discos para história: Parklife, do Blur (1994)
Discos para história: The Marshall Mathers LP, de Eminem (2000)

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