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sexta-feira, 13 de março de 2015

Discos para história: Funeral, do Arcade Fire (2004)


A 80ª edição do Discos para história fala sobre Funeral, a estreia em estúdio do Arcade Fire. Uma das grandes bandas da atualidade, eles construíram esse trabalho depois de um momento muito difícil na vida de quatro integrantes – eles perderam parentes próximos muito queridos ao longo do processo de composição.

História do disco

A montagem da banda foi acontecendo entre 2001 e 2003, quando idas e vindas de membros foram constantes. Myles Broscoe, Joshua Deu e Brendan Reed foram os três que estiveram nos primeiros meses de banda, mas por motivos pessoais (Deu queria completar os estudos) ou insatisfação (Broscoe e Reed brigaram com Win Butler e deixaram o grupo), o Arcade Fire foi reformulado e seguiu com essa formação durante a divulgação do EP que levava o nome do grupo.

Com seis pessoas no palco, todos multi-instrumentistas, as apresentações ao vivo já impressionavam pela versatilidade dos integrantes e pelo combo de boas canções lançadas. Antes de completarem um ano juntos, a gravadora Merge entrou em contato e não foi muito difícil assinar um contrato.

O sucesso da banda não impediu o disco de ser um momento triste na vida de quatro integrantes: Régine Chassagne perdeu a avó em junho de 2003, Win e William Butler enterram o avô em fevereiro de 2004 e Richard Reed Parry perdeu uma tia em abril de 2004. Foi nesse clima triste que Funeral – o nome não foi escolhido por acaso – foi feito. A atmosfera do disco é triste, tem tons religiosos e, por incrível que pareça, é muito bonita ao mesmo tempo.

Como já tinham boa parte do material pronta e feito testes durante as apresentações ao vivo, o Arcade Fire entrou em estúdio sabendo o que queria e o que não queria no álbum. Surpreendentemente, as gravações de Funeral levaram apenas uma semana. Ajustes foram sendo feitos ao longo de 2004 até que o álbum ficasse no ponto certo para o grupo, que tinha o total controle do material e do que estava sendo feito no estúdio.

Lançado em 14 de setembro de 2004, Funeral foi aclamado pela crítica especializada, e muitos consideram o disco como um dos clássicos da primeira década dos anos 2000. De tão importante que é, entrou na primeira edição do livro 1001 Albums You Must Hear Before You Die (1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer), que juntou a opinião de críticos e pesquisadores musicais para formar uma lista com 1001 discos feitos entre os anos 1950 e o início dos anos 2000 essenciais para ter em sua coleção.

Aqui foi o ponto inicial da carreira do Arcade Fire, que saiu de pequenos clubes para, em menos de três anos, fazer um dos álbuns mais importantes da história recente da música.


Resenha de Funeral

O início suave de "Neighborhood #1 (Tunnels)" mostra como os membros do Arcade Fire conseguiram trabalhar bem a sensibilidade da melodia em um momento ruim de suas vidas. Colocada como a primeira de quarto partes, é possível falar que a faixa faz parte de uma ópera-indie, com seu auge atingido em The Suburbs, de 2011. É uma das canções que conseguem apresentar melhor o que é o Arcade Fire em sua essência, já "Neighborhood #2 (Laïka)" é mais sombria e tem trechos sobre o programa espacial soviético dos anos 1960. Essas duas faixas foram escolhidas como os dois primeiros singles do álbum.

Régine Chassagne e Win Butler dividem o vocal na linda "Une Année sans Lumière", faixa que conta a história da relação de Butler com Montreal, cidade em que ele havia adotado para morar, enquanto "Neighborhood #3 (Power Out)" é sobre o momento em que a banda saiu de Montreal por uma semana para ficar em outro lugar e pôde ver pessimismo, solidão e, ao mesmo tempo, como é difícil guardar um segredo atualmente. Muitos críticos afirmam que tudo isso é apenas um pano de fundo para uma canção política, mas ninguém da banda confirmou nada até hoje.



A última parte de quadrilogia Neighborhood, "Neighborhood #4 (7 Kettles)" é a que mais consegue transmitir sentimentos em sua melancolia apoiada com acordeão, violino, violão e um simples assovio em um dos momentos quase religiosos do álbum. O verso O verso They say a watched pot won't ever boil/ Well I closed my eyes and nothin' changed/ Just some water getting hotter in the flames é arrepiante. Agora, momento religioso mesmo é "Crown of Love" com seu tom de despedida. É lindíssima.

O tom catártico de "Wake Up" faz dela um clássico do Arcade Fire – também por ser uma das letras mais espetaculares que a banda já fez. Nunca vi a banda ao vivo, mas é possível imaginar o que acontece com os fãs quando a faixa é tocada por ser outro momento arrepiante do álbum, principalmente em seu início. Depois vira uma canção mais animada com os vocais de apoio auxiliando na melodia. Quase no fim, "Haïti" é sobre o lugar de origem da família de Chassagne (imigrantes que fugiram da ditadura), em que ela usa de elementos da música caribenha para compor a faixa – esse é um dos trunfos do Arcade Fire em toda sua discografia.



Outra coisa interessante foi juntar "Haïti" com "Rebellion (Lies)". Outro clássico, a segunda faixa tem um refrão poderoso e cheio de energia, além de empolgar no ápice por ser uma canção pop baseada inteiramente no piano. Finalizando, "In The Backseat" funciona muito bem por conseguir transmitir colocar os últimos pingos nos ‘is’ no álbum.

Funeral é um disco brilhante que funciona muito bem do início ao fim. Com ótimos momentos, ainda inspirados pela morte de parentes próximos, o Arcade Fire conseguiu despejar melancolia e sentimento em um dos clássicos modernos da música.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Neighborhood #1 (Tunnels)"
2 - "Neighborhood #2 (Laïka)"
3 - "Une Année sans Lumière"
4 - "Neighborhood #3 (Power Out)"
5 - "Neighborhood #4 (7 Kettles)"
6 - "Crown of Love"
7 - "Wake Up"
8 - "Haïti"
9 - "Rebellion (Lies)"
10 - "In The Backseat"

Gravadora: Merge
Produção: Arcade Fire
Duração: 48min02s

Win Butler: vocais, violão, guitarra, piano, sintetizadores e baixo
Régine Chassagne: vocais, bateria, sintetizador, piano, acordeão, xilofone e percussão
Richard Reed Parry: guitarra, sintetizadores, órgão, piano, acordeão, xilofone, percussão e baixo
Tim Kingsbury: baixo, guitarra e violão
Howard Bilerman: bateria e guitarra
Will Butler: baixo, xilofone, sintetizadores e percussão

Convidados:

Sarah Neufeld: violino e arranjo de cordas
Owen Pallett: violino e arranjo de cordas
Michael Olsen: vioncelo
Pietro Amato: trompa
Anita Fust: harpa
Sophie Trudeau: violino em "Wake Up"
Jessica Moss: violino em "Wake Up"
Gen Heistek: viola em "Wake Up"
Arlen Thompson: bateria em "Wake Up"


Veja também:
Discos para história: Help!, dos Beatles (1965)
Discos para história: Parallel Lines, do Blondie (1978)
Discos para história: On The Beach, de Neil Young (1974)
Discos para história: Led Zeppelin II, do Led Zeppelin (1969)
Discos para história: (What's the Story) Morning Glory?, do Oasis (1995)
Discos para história: Bringing It All Back Home, de Bob Dylan (1965)
Discos para história: The Stone Roses, do Stones Roses (1989)

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