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sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Discos para história: 461 Ocean Boulevard, de Eric Clapton (1974)


A 69ª edição dos Discos para história é sobre o segundo álbum de estúdio de Eric Clapton, 461 Ocean Boulevard. Os anos 1970 foram agitados para o guitarrista, que já era considerado um dos grandes do instrumento – até ganhou o apelido de “Deus da guitarra”. Mas seu vício em heroína e em álcool atrapalhou os planos durante muitos anos.

História do disco

O sucesso de Eric Clapton nos anos 1970 era completamente o oposto ao seu estado mental, e isso o levou a se viciar em drogas e bebida. Apaixonado por Patti Boyd, então mulher de George Harrison, seu melhor amigo, ele não conseguiu o que queria, acabou isolando-se no interior da Inglaterra e aumentou seus problemas com narcóticos. O problema acabou encerrando sua carreira por alguns anos.

O hiato foi interrompido no Concert for Bangladesh, organizado por Harrison, conhecido por ser o primeiro show beneficente da história do rock. Apesar de desmaiar durante sua apresentação, Clapton conseguiu finalizá-la. Depois disso, ele retornou ao exílio. Em 1974, o guitarrista conseguiu ficar com Boyd e largou as drogas, mas aumentou o consumo de bebidas alcoólicas. Ao conseguir não usar drogas, ele ficou completamente lúcido pela primeira vez em anos, uma motivação para gravar um álbum.

Depois de gravar uma fita demo, Clapton a entregou para Carl Radle, amigo e ex-companheiro de Derek and the Dominos, que participou dela ao lado de Dick Sims e Jamie Oldaker. Com um excelente material em mãos, o empresário Robert Stigwood conseguiu agendar um período de gravação no Criteria Studios, em Miami. Como teve que mudar de casa, a 461 Ocean Boulevard foi escolhida pelo guitarrista como nova morada. E acabou sendo o nome do segundo disco de estúdio dele.

Entre abril e maio de 1974, o trabalho foi gravado por Eric Clapton, Yvonne Elliman, Dick Sims, George Terry, Carl Radle e Jamie Oldaker e uma série de convidados. Lançado em julho daquele ano, foi um estouro com o single "I Shot the Sheriff", de Bob Marley. Era a primeira vez que o reggae era levado ao mainstream por um músico extremamente famoso.

Adivinhem quem não gostou do disco? Ken Emerson, da Rolling Stone. Aliás, a revista enganou-se várias vezes com discos considerados clássicos hoje em dia. Segundo Emerson, Clapton optou por esconder-se atrás de músicos menos capacitados. Em 2012, 38 anos depois do lançamento, 461 Ocean Boulevard estava na famosa lista dos 500 discos mais importantes de todos os tempos. Uma injustiça havia sido corrigida.


Resenha de 461 Ocean Boulevard

Conhecida na voz de Blind Willie Johnson, "Motherless Children" ganhou uma cara mais feliz no arranjo feito por Clapton e Radle. A letra fala sobre a morte da mãe biológica de Johnson e é totalmente confessional no original. Essa releitura não agradou a todos os fãs de blues, tampouco alguns dos críticos. Se o início era uma versão de uma canção cheia de sentimento, "Give Me Strength" é isso, só que composto por Clapton. É um soco no estômago ouvir essa canção em qualquer idade. Como alguém consegue traduzir tanta dor em uma música tão curta? Ela consegue dizer o suficiente com muito pouco.

O cover de "Willie and the Hand Jive", de Johnny Otis, consegue ser muito competente e bem equilibrado nos instrumentos. A versão original, lançada em 1958, conseguiu o nono lugar nas paradas. A letra fala de um homem que dança com as mãos, mas muitas pessoas entenderam que era sobre masturbação e, claro, causou muita polêmica. Clapton conseguiu a posição número 40 na semana de lançamento do single. Com participação de Yvonne Elliman dividindo os vocais, "Get Ready" ganhou um ar de blues dos anos 1940, quando casais cantando eram bem comuns na música. O groove da música é muito sensual e convidativo a dançar.



Encerrando o lado A, "I Shot the Sheriff" é o grande single desse álbum por ter conseguido atingir o primeiro lugar em várias paradas, entre elas a dos Estados Unidos. Bob Marley conta a história de um cara que matou o xerife da cidade, mas está sendo acusado de matar o vice-xerife, enquanto alega legítima defesa. A ideia era colocar polícia no lugar de xerife, porém Marley acabou se prevenindo e usou xerife. A intenção dele era falar sobre as injustiças do sistema prisional jamaicano. A melodia feita por Clapton na versão é muito boa, uma mistura entre reggae e blues, deixando um tema pesado muito mais leve.

"I Can't Hold Out", também conhecida como "Talk to Me Baby", ganhou uma versão mais recheada de solos de guitarra do que a de Elmore James, primeiro a gravá-la. Ela é considerada um dos clássicos da cultura americana e entra em qualquer lista como standard, por isso regravá-la não é para qualquer um. Já "Please Be With Me" ganhou uma versão tranquila e, basicamente, sustentada pelos vocais e o violão. Ficou linda.



Um romântico cantor aparece em "Let It Grow", claramente uma declaração de amor a Patti Boyd, ex-mulher de George Harrison que ele havia conquistado. A letra soa até um pouco brega, mas o amor permite essas coisas sem punição. Claro que não poderia faltar um cover de Robert Johnson, um dos ídolos de Clapton, e "Steady Rollin' Man" é muito boa. De George Terry, "Mainline Florida" parece ter sido feita sobmedida para entrar nesse trabalho, gravado em Miami. Um ótimo encerramento.

Os anos 1970 foram ótimos para Eric Clapton, que fez mais e mais sucesso ao longo de toda década. E tudo começou com o incrível sucesso da versão de "I Shot the Sheriff", um achado. Ele ganharia ainda mais público e sua fama de incrível guitarrista só se consolidou nos últimos 40 anos.



Ficha técnica

Lado A

1 - "Motherless Children" (Tradicional) (arranjo por Eric Clapton e Carl Radle)
2 - "Give Me Strength" (Clapton)
3 - "Willie and the Hand Jive" (Johnny Otis)
4 - "Get Ready" (Clapton e Yvonne Elliman)
5 - "I Shot the Sheriff" (Bob Marley)

Lado B

1 - "I Can't Hold Out" (Elmore James)
2 - "Please Be With Me" (Charles Scott Boyer)
3 - "Let It Grow" (Clapton)
4 - "Steady Rollin' Man" (Robert Johnson)
5 - "Mainline Florida" (George Terry)

Gravadora: RSO
Produção: Tom Dowd
Tempo: 43min21s

Eric Clapton: vocais e guitarra
Yvonne Elliman: vocais
Dick Sims: teclados
George Terry: guitarra e vocais
Carl Radle: baixo
Jamie Oldaker: bateria e percussão

Convidados:

Al Jackson Jr.: bateria em "Give Me Strength"
Albhy Galuten: sintetizador e piano
Tom Bernfield: vocais de apoio
Marcy Levy: gaita e vocais de apoio



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