No YouTube

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Discos para história: Ten, do Pearl Jam (1991)


A 65ª edição da seção continua a segunda parte dos discos que fizeram a cabeça dos jovens nos anos 1990. Agora é a vez de Ten, do Pearl Jam. Unidos por tragédias pessoais os membros da banda fizeram um dos melhores álbuns daquela década – e um dos mais confessionais de todos os tempos.

História do disco

A cena de Seattle dos anos 1980 era rica em talentos que viram a ser famosos na década seguinte. O embrião do Pearl Jam começou no Green River, banda que tinha o baixista Jeff Ament e o guitarrista Stone Gossard. No final da década, ambos começaram outro grupo, este com Andy Wood como vocalista. E o potencial do Mother Love Bone era imenso.

Eles começaram a fazer vários shows pelas cidades próximas e começaram a criar uma fama de fazer grandes apresentações. Mas havia um problema: Wood era viciado em heroína. Um dia, ele parou no hospital depois de uma overdose e os médicos deram poucas horas de vida. Era o fim do Mother Love Bone.

Semanas depois, Gossard encontrou-se com o guitarrista Mike McCready, e os dois começaram a ensaiar. Mike McCready começou a conversar sobre uma possibilidade de eles formarem um trio com Jeff Ament, procurarem um baterista e um vocalista, e formarem uma nova banda. Arredio, Gossard não gostou da ideia no início, mas cedeu após algumas semanas de pressão.

O primeiro passou foi procurar um vocalista. Depois de semanas de audição, eles só encontravam pessoas parecidas com Andy Wood, e isso era tudo que os três não queriam. Então apareceu uma fita mandada por um cara de San Diego chamado Eddie Vedder. Com três canções, o trabalho impressionou e ele foi convidado a passar uns dias com o trio em Seattle. Com o vocalista certo, foi só falar com Dave Krusen e estava montado o... Mookie Blaylock.

Sim, o Pearl Jam não nasceu Pearl Jam, e Mookie Blaylock era o nome de um jogador de basquete. Claro que isso deu problema e o nome precisou ser trocado. Pronto, agora o Pearl Jam era Pearl Jam. Isso tudo depois do primeiro show, que aconteceu em 22 de outubro de 1990. Dias depois do evento, eles assinaram com a Epic para gravar o primeiro disco.

Em março do ano seguinte, com Rick Parashar na produção, eles entraram no London Bridge Studios para gravar o que viria a ser Ten. Como todo material era executado nos shows, eles levaram menos de um mês para gravar todo álbum. Naquela época, o Pearl Jam não era a personificação de Vedder como é hoje, e Ament e Gossard foram responsáveis pelo andamento dos trabalhos por serem os então líderes.

Lançado em 27 de agosto de 1991, o disco demorou um pouco para vender, mas depois da chamada “explosão do grunge” a coisa andou de maneira incontrolável. Eles ficaram 256 semanas na lista dos mais vendidos e só saíram dele lá quando lançaram Vs., o segundo disco de estúdio. Ano passado, Ten ganhou o certificado de dez milhões de cópias vendidas nos Estados Unidos.


Resenha de Ten

A letra de "Once" foi escrita a partir de uma demo instrumental que Stone Gossard havia gravado, e Eddie Vedder só completou a letra. Ela, de cara, mostra todas as qualidades do Pearl Jam, como o vocal, o solo de Mike McCready na guitarra e, principalmente, a força do conjunto. A sequência traz "Even Flow", faixa que fala sobre a vida de um sem-teto. O riff nasceu inspirado em Stevie Ray Vaughan, segundo McCready.

Depois vem a melhor da história do Pearl Jam. "Alive" é a letra mais biográfica que Vedder escreveu em toda sua vida. Para quem não sabe, ela fala sobre o pai do vocalista, que ele nunca chegou a conhecer de perto – além de descobrir que o cara que ele havia chamado de pai a vida inteira era seu padrasto. A profundidade da letra, a melodia à Neil Young, tudo forma uma canção muito triste. E se antes ela era um grito de raiva, hoje ela é uma celebração à vida.



A paulada quase punk de "Why Go" é feita para gritar e gritar no refrão, e, de novo, a qualidade do Pearl Jam como conjunto é impecável. Depois vem a balada romântica “Black”, outra canção triste, mas esta é sobre um coração partido. Talvez um dos segredos da banda tenha sido conseguir dialogar com uma juventude que ainda não tinha seus próprios heróis. Deu certo.

Outra letra forte de Ten é "Jeremy", inspirada em uma nota de jornal que falava sobre o suicídio de um menino em frente na de seus colegas. Por isso mesmo, a melodia é muito densa e o vocal é carregado de raiva, ódio, todas essas coisas que deixam qualquer um de nós sem perspectiva alguma sobre a humanidade. Outro grande momento do álbum, grande mesmo.

A segunda metade do disco começa com a tranquila "Oceans". Diferente das outras, ela tem uma textura diferente, é mais serena – por falar da saudade de Vedder de surfar, faz sentido que ela seja assim. Mudando da água para o vinho, vem a rancorosa e raivosa "Porch" (é sobre amor, disse Eddie”). Ela, em particular, fica muito melhor ao vivo.



Colocando a banda em perspectiva, faltava uma canção que remetesse aos anos 1960. Mais precisamente aos anos psicodélicos. E "Garden" é essa faixa, com Stone Gossard e McCready mandando ver na guitarra. A sombria "Deep" mostra que nem só de baladas ou letras confessionais vive o grupo. Aqui podemos ver que eles conseguem trabalhar bem o improviso e como o talento de cada um foi importante para moldar a melodia.

Não poderia haver encerramento melhor do que “Release”. A canção ganhou o mundo nas últimas décadas, talvez por tudo que o Pearl Jam passou na carreira e pelo tom da letra. Ouvir Vedder lamentar a falta do pai é duro para qualquer um. Assim como “Alive”, é outra que ganhou um tom libertador por parte dos fãs e é muito difícil não ver alguém chorando ao ouvi-la. Que encerramento.

Só fui entender o Pearl Jam lá pelos 18 anos. E ainda bem que pude aproveitar bem nas duas vezes em que os vi ao vivo. Parece pouco, mas foram inesquecíveis. Ten foi o primeiro passo de uma das melhores bandas do mundo e que pode ensinar a qualquer um sobre posição e convicção em ideais.



Ficha técnica

Tracklist:

1 - "Once"
2 - "Even Flow"
3 - "Alive"
4 - "Why Go"
5 - "Black"
6 - "Jeremy"
7 - "Oceans"
8 - "Porch"
9 - "Garden"
10 - "Deep"
11 - "Release"

Todas as canções foram escritas por Eddie Vedder.

Gravadora: Epic
Produção: 53min20s
Tempo: Rick Parashar e Pearl Jam

Mike McCready: guitarra
Stone Gossard: guitarra
Jeff Ament: baixo
Eddie Vedder: vocal
Dave Krusen: bateria



Veja também:
Discos para história: Nevermind, do Nirvana (1991)
Discos para história: Another Side of Bob Dylan, de Bob Dylan (1964)
Discos para história: All Things Must Pass, de George Harrison (1970)
Discos para história: Back in Black, do AC/DC (1980)
Discos para história: Californication, do Red Hot Chili Peppers (1999)
Discos para história: Screamadelica, do Primal Scream (1991)




Siga o blog no Twitter, Facebook, Instagram, no G+ e no YouTube

Gostou do conteúdo? Compartilhe nas redes sociais!