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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Resenha: Judas Priest - Redeemer of Souls


Por Rodrigo Carvalho

Certas bandas na história do heavy metal não precisam de qualquer apresentação sobre sua trajetória, de forma que mesmo aqueles que não acompanham o estilo facilmente as reconhecem. Facilmente, o Judas Priest é uma delas. Portanto, para fluir melhor, aqui uma listagem simples sobre os acontecimentos recentes:

- Redeemer of Souls é o décimo sétimo álbum de estúdio dos ingleses;

- É o primeiro trabalho sem o fundador K.K. Downing, um de seus principais compositores, substituído por Richie Faulkner, ex-guitarrista da banda de Lauren Harris (a filha de um certo Steve);

Agora é hora de tentar deixar qualquer expectativa de lado para tentar entender o que acontece aqui.

No início, ouvem-se trovoadas. E um riff que te transporta diretamente para uma estrada cortando o deserto, cabelos ao vento, óculos escuros, em couro e metal cromado, dá boas vindas a um mundo de aço com “Dragonaut”. Familiar? Claro, oras. Do primeiro ao último segundo, estamos diante do mais puro e simples heavy metal, do mesmo tipo feito há quatro décadas (ok, com variações, de época em época). Letras fantasiosas, guitarras ecoantes, melodias memoráveis e tudo o que o menos exigente fã precisa para abrir um sorriso.

Pois bem, “Redeemer of Souls” aparece como uma irmã mais nova e menos madura de “Hell Patrol”, mantendo a mesma aura que assombra todo o álbum Painkiller. E ainda que apresente estes sinais de reciclagem no fundo da embalagem, se agarra ao seu próprio sentimento épico para fazer jus ao título do disco. Por falar em grandiosidade, não é todo dia que se ouve o Judas Priest com tamanha pomposidade quanto na asgardiana “Halls of Valhalla” ou na cadenciada “Sword of Damocles”, um resquício de toda a sua significância para as milhares de bandas de power metal que existem. Todos os Primal Fears e Hammerfalls, ajoelhem-se em agradecimento.

“March of the Damned”, por outro lado, resgata o lado mais hard rock dos ingleses, farofento sem perder a compostura, especialmente pelo peso atribuído aos riffs e às seções instrumentais milimetricamente construídas para as apresentações ao vivo (ou não consegue imaginar todos erguendo os punhos em uníssono durante o solo?). Até aqui tudo bem. Mas então as primeiras notas de “Down In Flames” soam, o combustível começa a secar, o motor engasga, o freio falha, e o precipício aparece a sua frente. A incômoda sensação de estar ouvindo as mesmas linhas instrumentais, o mesmo ritmo, os mesmo solos, toma conta do céu como uma inexplicável tempestade se formando.

O início tranquilo de “Hell & Back” é como o segundo em que você plana em câmera lenta, assim que sai da estrada em direção a inevitável ladeira, que não pode ser salva nem mesmo pela interessante ideia de retomar os primórdios bluesy no seu riff principal. Seguida pela mezzo-lento mezzo-pesante “Cold Blooded”, que parece saída de algum lado B perdido do Iron Maiden, do final da década de oitenta, e por “Metalizer”, novamente óbvia em suas referências ao Painkiller.

O equilíbrio é retomado momentaneamente com o blues pesadíssimo de “Crossfire”, quase como extraído do longínquo Rocka Rolla (que completou 40 anos recentemente), em uma personificação que faz lembrar um Whitesnake de tendências metálicas. E a atmosfera em “Secrets of the Dead”? A lentidão quase doom e a névoa que paira por cima dos riffs parece tirada de um velho disco do Mercyful Fate ou do Black Sabbath, em mais um interessante momento do disco (não excelente, mas interessante).

“Battle Cry” puxa o álbum para a superfície mais uma vez ao retomar o heavy metal extremamente melódico, como o ressurgimento depois de enfrentar a queda, bater de frente com a terra, chafurdar na lama e na chuva, e ainda assim sobreviver. O epílogo “Beginning of the End” e sua aura progressiva setentista encerra este ciclo deixando muito mais questões do que respostas, soltas ao relento em meio ao sentimento de brevidade e uma existência que inevitavelmente se aproxima do fim, quase melancólica em cada verso.

Até porque o que ouvimos em Redeemer of Souls é um Judas Priest basicamente revisitando todo o seu legado nas 13 faixas do álbum, talvez com o intuito de demonstrar para os fãs que ainda tem inspiração o suficiente para se equiparar aos seus maiores clássicos, principalmente depois do vergonhoso Nostradamus. É inegável que certas músicas têm seus momentos divertidos transbordando clichês, que podem ficar na sua mente por alguns dias. Mas fica a questão: tá, e o que mais?

Não se podem fechar os olhos para o fato de que parte do trabalho é extremamente básico, e dificilmente fará parte do set da banda ao vivo, composições em nível não muito distante do que aquela banda formada por amigos, que toca no coreto da praça. Uma produção oitentista de riffs e solos que soam terrivelmente iguais entre si, com uma porção de faixas forçadamente incluídas para preencher o disco, ironicamente apenas atrapalhando a fluência dos exageradíssimos 61 minutos de duração.

Há quem defenda que a essa altura do campeonato a banda não precisa mais fazer ou provar nada para ninguém, e que nunca mais lançará algo como antes. Um sentimento de mediocridade que assombrou tanto o Judas Priest (não apenas por parte deles), que em 2014 não temos um disco de uma banda que permanece artisticamente em evolução, mas sim uma viciada em olhar para o seu passado, como um sujeito de meia-idade que resolve largar a mulher e os filhos, comprar uma moto cara, uma jaqueta de couro, apenas para perceber que o seu papo não funciona mais com as menininhas ou que as suas costas doem.

Não há nenhum problema em o combustível estar acabando. O segredo está em saber utilizar o que ainda se tem com o que realmente importa. E não se deixar levar para o chão.

Tracklist:

1 – “Dragonaut”
2 – “Redeemer of Souls”
3 – “Halls of Valhalla”
4 – “Sword of Damocles”
5 – “March of the Damned”
6 – “Down In Flames”
7 – “Hell & Back”
8 – “Cold Blooded”
9 – “Metalizer”
10 – “Crossfire”
11 – “Secrets of the Dead”
12 – “Battle Cry”
13 – “Beginning of the End”

Nota: 3/5



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