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segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Resenha: Nick Cave and The Bad Seeds – Skeleton Tree


Cantor tratou da morte do filho de 15 anos em novo registro

Que Nick Cave consegue tratar de assuntos pesados de maneira simples e de alcance universal, isso ninguém tem dúvida. Mas em Skeleton Tree, o 16º dele com o Bad Seeds, há um elemento fundamental que rodeia o álbum: a morte do filho Arthur, 15, após cair de um penhasco. Isso aconteceu durante as gravações do registro, dando um novo significado às oito faixas.

Por ser um disco de difícil digestão, de cara, Cave opta por abrir com a pesada "Jesus Alone". O sintetizador ao fundo, mais o conjunto de cordas, dão o tom de melancolia que a letra exige. O cantor, em seu estilo vocal, consegue transformar os versos em verdadeiras pedradas sentimentais de colocar o coração na garganta. A bonita melodia de "Rings of Saturn" dá uma beleza artística à letra que é difícil de descrever – Cave parece mais inspirado do que nunca.

A dor aparece de maneira lúdica na ótima "Girl in Amber", em que o cantor trata do sentimento pós-perda ao pensar que o mundo pararia de girar e ao ver a reação das pessoas ao tentar confortá-lo, sendo que ele queria apenas distância de todos – aqui, é possível perceber como cada um trata e reage à morte de maneiras diferentes. E até para falar de amor, na delicada Magneto", ele consegue usar elementos pesados nos arranjos para mostrar a outra cara do amor – triste e sombria.

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Quando o assunto muda para forças superiores que agem quando nós mesmos esperamos, "Anthrocene" é a escolhida para tratar do assunto. Em um tipo de gospel mais sombrio, Cave trata do impacto que esse tipo de sentimento e crença afetam nossas vidas quando a perda acontece (Come on now, come on now/Hold your breath while you're safe/It's a long way back and I'm begging you please/To come home now, come home now).

A mais triste e a melhor de todo álbum é "I Need You. Porque Nick Cave se desnuda completamente ao falar sobre a morte do filho, como isso o afetou, e afetará pelo resto da vida. Ele apenas pede, sem se importar com nada, que o filho respire mais uma vez. Só quem já perdeu um filho deve saber desse sentimento horrível de enterrar a pessoa que você mais ama no mundo. A frustração e questionamentos sobre a vida são o mote principal dessa letra, a mais tocante desse ano. Talvez a melhor. Porque não há felicidade que dure quando você enterra seu filho de 15 anos, no auge da saúde e da vida, pronto para descobrir o mundo de possibilidades por aí. Tudo acabou em um piscar de olhos. E Cave trata isso de maneira sublime e difícil. Esse tipo de perda é algo muito complicado, pois você não esquece, apenas coloca em um canto e relembra de vez em quando. E deve doer um bocado.

"Distant Sky", em outro momento gospel, trata da subida das crianças ao céu. Por isso, a melodia traz um tom mais calmo e sereno, um conforto para família depois de dias de choro e tristeza. É exatamente assim que as religiões cristãs tratam a morte – primeiro o choro, depois o conforto em saber que o parente ou ente querido está nos braços de Deus. "Skeleton Tree" é aquele conforto final, de tudo estar bem, apesar de não estar completamente. É exatamente assim, no fim das contas, que a morte e a perda são tratados. A vida continua para quem fica e as coisas melhoram depois de um tempo - não totalmente, porque certos espaços vagos jamais serão preenchidos. Cave passa uma mensagem de otimismo no encerramento (And it's alright now/And it's alright now/And it's alright now).

Perto dos 60 anos, Nick Cave precisou lhe dar com o pior dos mundos: a morte de filho. E soube transformar isso em um disco desabafo, mas nada piegas ou sentimental em excesso. É o puro desabafo de um homem que ficou sem uma pessoa especial que nunca mais voltará. Certamente, é um dos discos do ano. Porque só Cave conseguiria transformar uma profunda melancolia em música.

Tracklist:

1 - "Jesus Alone"
2 - "Rings of Saturn"
3 - "Girl in Amber"
4 - "Magneto"
5 - "Anthrocene"
6 - "I Need You"
7 - "Distant Sky"
8 - "Skeleton Tree"

Nota: 5/5



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