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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Resenha: David Bowie – Blackstar


É engraçado como artistas envelhecem profissionalmente de jeitos diferentes. Uns preferem seguir até o limite, outros falam chega enquanto ainda têm força e cabeça para curtir os anos finais de vida. Nenhum desses exemplos cabe para David Bowie. Sumido por quase uma década, o cantor lançou, absolutamente do nada, o ótimo The Next Day – uma auto-homenagem cheia de referências a si próprio, incluindo a capa. Quem seria capaz de fazer algo assim? Só Bowie.

Para 2016, o modus operandi foi diferente. Sabia-se desde outubro que ele lançaria um novo disco neste 8 de janeiro, dia em que completa 69 anos. O que não se esperava era um disco que une diversas influências e subgêneros nada fácies para fazer algo fluir. Pois Bowie fez de novo: se reinventou em seu 26º trabalho em estúdio. Isso não é para qualquer um.

Com quase dez minutos, "Blackstar" abre o novo disco soando quase uma peça de teatro. A base musical é uma mistura interessante de elementos, beirando o eletrônico experimental com uma delicadeza típica do jazz. A voz de Bowie – modificada, mas ainda bem reconhecível – é usada de maneira mais falada do que cantada, enquanto a batida insistente ao fundo comanda o andamento da primeira metade da faixa. A segunda metade é mais delicada e mais cantada, porém não menos experimental, cheia de ecos e muito bem construída do início ao fim.

Sem muito tempo para delongas, "'Tis a Pity She Was a Whore" começa. Ao emendar uma na outra, fica clara a intenção de fazer Blackstar uma peça única, uma história contada do início ao fim. E nessa segunda canção, também é evidente a influência do jazz no solo de saxofone, no andamento da melodia. Aliás, as longas suítes instrumentais estão em boa parte do disco. Terceira faixa, "Lazarus" é a de pegada mais pop do disco, apesar de não deixar todo experimentalismo de lado – aliás, antes mesmo do lançamento, sabia-se que a faixa era a base de um musical da Broadway.

"Sue (Or in a Season of Crime)” é bem interessante por ser bem veloz, cheia de energia e por ratificar o tipo de voz que Bowie quis colocar – algo calmo, mas preciso na mensagem que deseja passar. Não dá para negar: "Girl Loves Me" é bem estranha, estranha mesmo. Mas é aquela estranha adorável, ainda mais da forma como foi construída tendo batidas fortes o tempo inteiro.

O solo de saxofone que abre "Dollar Days" é seguido por um violão ao fundo, enquanto Bowie canta (agora, canta mesmo). Perto do fim, ele só confirma o teor sombrio do disco, quase um filme de suspense com toques de terror. A batida eletrônica de "I Can't Give Everything Away", quase uma autorreferência ao que Bowie fez em boa parte dos anos 1990 e 2000, dá o tom da faixa de encerramento. Momento em que ele diz que não pode dar tudo. Ele não pode dar tudo, mesmo assim, mesmo ausente, ele dá muito para todos nós.

Bowie conseguiu se reinventar perto dos 70 anos. Muito mais do que um músico, muito mais do que um compositor, David Bowie é um artista em sua essência. Sempre tentando mudar, fazer algo diferente, sair da zona de conforto. Bowie é a imagem viva do que qualquer um de nós deveria tentar: dar nossa cara às mais diversas coisas. Só assim para fugir da mesmice do dia a dia, só assim para cada dia ser mais inspirador do que o anterior. Blackstar não tem nada do que Bowie fez, mas faz total sentido. Bowie, muito mais do que qualquer um, é único no que faz mesmo quando se repete. Imagina só quando faz um disco experimental de jazz? Bowie é um gênio, um protagonista que estava em falta. Ainda bem que ele está de volta.

Tracklist:

1 - "Blackstar"
2 - "'Tis a Pity She Was a Whore"
3 - "Lazarus"
4 - "Sue (Or in a Season of Crime)”
5 - "Girl Loves Me"
6 - "Dollar Days"
7 - "I Can't Give Everything Away"

Nota: 4,5/5



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