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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Dez discos de metal lançados em setembro que merecem sua atenção (com bônus)


Por Rodrigo Carvalho

Setembro.

Início da primavera. Os passarinhos cantando. A temperatura começa a subir. É época de colheita. Inclusive das dezenas de lançamentos que as bandas soltaram nesse mês que passou, das mais obscuras e independentes a algumas das mais clássicas e que já tem em si um pedaço da história.

Afinal, o Iron Maiden lançou o megalomaníaco (não exatamente ambicioso, mas ainda assim é um evento singular) The Book of Souls, que se não figura entre os melhores álbuns de 2015, é um dos mais significativos desde... desde... bem, desde sempre. Ele só não foi incluído nessa lista porque acredito que todo mundo já tenha ouvido, certo?

Por outro lado, bandas como o Slayer e o Annihilator, que tiveram baixas significativas em suas formações, adicionam mais dois trabalhos às maiores decepções do ano, até agora. Sem inspiração, dentro da normalidade, e terríveis passos pra trás no que vinha sendo construído. Tanto que nem se comenta mais sobre eles.

Enfim, vamos lá, que a lista é longa e tem de tudo um pouco.


Amorphis – Under the Red Cloud

Uma das mais importantes bandas finlandesas, um dos pilares do metal extreme escandinavo, um mecanismo de manter a cultura de seu país vívida e imortal. Ao longo de duas décadas o Amorphis atravessou eras diferentes, mudou drasticamente seu som em alguns momentos, e chega ao seu décimo segundo trabalho ainda como o artesão em busca da escultura perfeita. Under the Red Cloud torna simétrica todas as suas principais características, unindo equilibradamente o lado melancólico com a música tradicional e o death metal primordial, nesta que talvez seja a mais interessante obra da fase Tomi Joutsen.


Diablo – Silvër Horizon

Os finlandeses do Diablo sempre andaram às margens do melodic death metal, tropeçando eventualmente na música eletrônica, no thrash metal e nos ritmos mais quebrados ao longo de sua discografia. Depois de um hiato de sete anos, o quarteto retorna com Silvër Horizon, como se não houvesse passado um dia sequer desde a sua ausência: ao contrário de certos grandes nomes do thrash metal, que fazem questão de ficarem presos em algum pequeno bar da costa oeste americana nos anos 80, o Diablo parece estar empurrando o estilo para frente (mais ou menos como o Susperia fez no essencial Attitude) e criando novos padrões a serem adotados para garantir a sobrevivência.


My Dying Bride – Feel the Misery

O My Dying Bride sempre se encarregou de tornar o mundo um lugar ainda mais lúgubre, arrastado, coberto por nuvens negras e uma insistente garoa que levanta o odor de grama e terra remexida. Do death doom do seu início ao lento marchar fúnebre, os ingleses sempre mantiveram um romanticismo profundo e mórbido, por mais complexas fossem suas manifestações. Feel the Misery compreende todos os mais notáveis elementos deste cenário pesaroso que eles estão construindo, e por isso apenas já mereceria que uma vela fosse acesa em sua homenagem.


Nechochwen – Heart of Akamon

A herança cultural é um dos aspectos mais interessantes e intrigantes de uma sociedade. Para o bem ou para o mal, os costumes são importantíssimos para definir as tradições e os erros. Enquanto as bandas européias (e não apenas elas) se agarraram por décadas às músicas folclóricas de seus países, o Nechochwen busca a inspiração nos contos, nos rituais e na história das tribos nativas americanas. Uma influência tão naturalmente enveredada com o black metal que escreve praticamente um documento cruel e real da história de uma terra ainda bruta e selvagem sendo moldada por um povo, na forma de uma das mais intrigantes e belas obras musicais recentes.


Resurrecturis – Nazienda

No ano passado, a Itália entregou um dos mais insanos álbuns através do Destrage e seu espalhafatosamente exagerado Are You Kidding Me? No. Em 2015, o fato se repete com o Resurrecturis. Nazienda narra todas as nuances de um dia perfeitamente normal de um ser humano preso na corrida dos ratos: o despertar para o trabalho, o convívio social, o ambiente corporativo, aqueles recorrentes questionamentos ao fim do dia que as coisas precisam mudar urgentemente (mas não hoje, hoje você está ocupado demais). Cada um desses momentos é descrito sobre um colapso instrumental esquizofrênico entre Faith No More, Converge, Slipknot, Tool, barulhos indecifráveis e outras coisas que você descobre aos poucos. É irritante, é incômodo, é desafiador. Mas talvez seja aquilo que você precisa para se mover do conforto.


Riverside – Love, Fear and the Time Machine

O Riverside sempre foi uma banda extremamente cruel com os sentimentos das pessoas. Sarcasmo ácido, críticas sociais cruas, constatações sobre as atitudes questionáveis da humanidade sempre serviram de tema para o seu rock progressivo atmosférico e denso, puxado para baixo com interpretações melancólicas. Se a sua música sempre dividiu espaço com o metal, em Love, Fear and the Time Machine os poloneses se aproximam perigosamente da margem mais pop do progressivo, herança direta do que foi o estilo na Europa durante a década de oitenta (vocês sabem, teclados frenéticos, melodias bregas e tudo mais). O Riverside reinterpreta a sua própria identidade em busca de novos caminhos a trilhar, sem se desgarrar do tratamento de choque emocional de suas composições e das ranhuras que elas deixam em nossas mentes.


Stratovarius – Eternal

Após alguns anos, algumas bandas parecem cair no ostracismo. Seus esforços para retornar aos tempos áureos ou redefinir o seu som são cada vez mais frustrantes e apenas deixam a sensação de estarem sendo sugados para um buraco negro do esquecimento gradativamente. O Stratovarius estava assim, à deriva, forçado e fora da realidade, como se a falta de Timo Tolkki realmente estivesse sendo sentida e os remanescentes ainda não tivessem encontrado a fórmula. Ironicamente, Eternal olha exatamente para o seu passado para triunfar: o power metal dividindo espaço com o speed metal, harmonias grandiosas, letras metafóricas e aquela sensação de estar perante entidades intergaláticas enquanto se vaga pelo espaço. Exatamente o que se esperava dos finlandeses desde Infinite.


Tesseract – Polaris

O djent é como um filme futurista dos anos oitenta. Uma visão sobre inteligências artificiais, carros voadores, colonização espacial e roupas prateadas. Mas a verdade é que o futuro parece cada dia mais obscuro, e assim como é para a humanidade, é também para o djent. Porém, entre os sobreviventes deste sonho, o Tesseract permanece como um visionário ativo, realmente trabalhando em prol de um amanhã melhor, não apenas na ambição em busca da perfeição técnica, mas a construção dos britânicos inclui o sentimento humano como um item essencial. Com o retorno do vocalista Daniel Tompkins, o Tesseract finalmente vislumbra um futuro promissor. Talvez ainda exista salvação.


The Black Dahlia Murder – Abysmal

Se puder existir algo controverso como brutal melodic death metal, com certeza a culpa é do The Black Dahlia Murder. A banda já deixou há muito tempo as suas influências para trás e criou algo realmente desgraçado e incontrolável, uma força transmudada em energia bruta de riffs, pancadarias abissais e gritos ensandecidos. Abysmal resgata o frenesi inicial dos americanos, promovendo mais uma vez o pandemônio confuso de outrora, como aquele pesadelo interminável do qual você acorda suando, e ao olhar o relógio percebe que só se passaram alguns minutos desde que apagou a luz.


The Dear Hunter – Act IV: Rebirth in Reprise

Casey Crescenzo caminhou um tanto quanto exageradamente pelos campos do indie rock nos últimos anos. Sem se perder, um dos mais prolíficos músicos do rock progressivo atual trouxe importantes lições (principalmente do ambicioso projeto The Color Spectrum – uma espécie de antecessor da ideia por trás do famigerado Sonic Highways) para retomar a ópera do The Dear Hunter, agora em seu quarto ato. Rebirth in Reprise continua do exato ponto em que o anterior se encerra, mas ainda mais pomposo, envolto por uma aura vitoriana ao mesmo tempo romântica e sarcástica, uma peça sendo representada por atores mascarados, em um daqueles velhos teatros, decadentes e ainda resistentes em um bairro que já cedeu todo espaço para grandes construções modernas. Todos passam eventualmente na frente, pensando que deveriam entrar e assistir algo qualquer dia desses. Poucos realmente encontram tempo para os mais de setenta minutos que o The Dear Hunter traz, mas aqueles que o fazem certamente não se arrependem.

E, se ainda sobrou tempo, mais algumas coisas interessantes...

Benesser – Purpose & Cause

Uma audição superficial deixa a impressão de que se trata do Muse sueco. Uma audição aprofundada faz ter certeza.

Bring Me The Horizon – That’s the Spirit

A escalada em direção ao ápice de popularidade do Bring Me The Horizon dá mais um passo. Pode não ser o metalcore que você espera, mas é exatamente o que eles precisam agora.

Crossfaith – Xeno

Até porque, se vocês estão atrás de um metalcore, daqueles carregados de sentimentos, berros e efeitos eletrônicos, o Crossfaith já cuidou disso.

Dark Buddha Rising – Inversum

Como uma profunda respiração, o sexto episódio dos finlandeses do Dark Buddha Rising é dividido em dois atos de mais de vinte minutos de psicodelia soturna, e drone doom assombrado por uma atmosfera quase ritualística.

Grave Pleasures – Dreamcrash

Grave Pleasures pode não ser tão bom quanto Beastmilk, mas a manifestação extrema do post punk que a banda faz permanece intacta mesmo após a mudança de nome. Talvez melhor.

Horisont – Odyssey

Uma ficção científica das mais baratas envolvidas por aquele hard rock envelhecido e com um pé no proto-heavy metal, no rock progressivo e no space rock, como talvez só os suecos saibam fazer.

Huntress – Static

Mudando de gênero cinematográfico, em vez de armas laser e invasões extraterrestres, Jill Janus foca na literatura de terror esdrúxula e sangrenta nessa que é a melhor compilação de contos do Huntress até hoje.

Njiqahdda – Life Will Always Go On

A desgraceira do doom arrastado com toques de black metal parece ter sido sacrificada pelo Njiqahdda, para dar lugar a um rock que beira o lo-fi, esfumaçado por uma sujeira desleixada. Uma manifestação diferente de tudo o que eles já fizeram.

Tacoma Narrows Bridge Disaster – Wires/Dream\Wires

Não exatamente transparecendo sentimentos, como boa parte das outras bandas de post-metal, o que mais impressiona no Tacoma Narrows Bridge Disaster é como eles conseguem contar histórias apenas com o instrumental.

Windhand – Grief’s Infernal Flower

Riffs em loops eternos, entorpecidos em veneração ao mais imundo e profundo doom? O Windhand gira ao redor da sua proposta desde o início, melhorando-a lentamente. Bem lentamente.

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